20% da energia solar vai pro lixo|e quem está lucrando com isso
A energia que ninguém quer — e o bitcoin que ninguém esperava
Em 2025, o Brasil desperdiçou 20% de toda a energia eólica e solar que produziu. Não foi por falta de geração. Foi por excesso. As usinas produziram mais do que a rede conseguia absorver — e o Operador Nacional do Sistema Elétrico mandou desligar tudo. A conta foi de R$ 6,5 bilhões em receita simplesmente evaporada. Alguns geradores viram 40%, 60% de sua produção ser cortada antes mesmo de chegar a um tomador.
Ao mesmo tempo, na outra ponta do mercado financeiro, uma startup chamada Radius Mining levantou R$ 28 milhões para instalar equipamentos de mineração de Bitcoin dentro de parques de energia renovável. Não conectados à rede elétrica. Conectados diretamente à geração — para usar exatamente a energia que o ONS mandaria desperdiçar.
São duas histórias que pareciam não ter nada a ver. Uma fala de infraestrutura, regulação e commodities de energia. A outra fala de criptoativos e venture capital. Mas a conexão entre elas revela algo muito maior sobre como o Brasil está começando a precificar ativos que antes não tinham preço algum.
O que une curtailment e Bitcoin
O curtailment é o nome técnico para o corte de geração. Quando há mais energia entrando na rede do que saindo para o consumo, o sistema colapsa — frequência oscila, equipamentos queimam, blecautes acontecem. A saída é simples: desliga-se a usina. A perda fica com o gerador.
Para quem investiu em parque eólico ou solar, é um problema existencial. A rentabilidade do projeto depende de horas de geração. Cada hora cortada é receita que nunca existe. O setor de renováveis cresceu com a promessa de energia farta e barata — mas farta demais cria seu próprio problema.
A Radius Mining identificou que 95% do custo operacional de mineração de Bitcoin é energia. Se essa energia custa zero — porque iria ser desperdiçada de qualquer forma — a equação muda completamente. Flávio Hernandez, fundador da empresa, disse que há negociações avançadas com geradores envolvendo pelo menos 6 megawatts médios num primeiro acordo de prova de conceito. A projeção total, contando outros projetos em andamento no setor, é de 500 megawatts médios em demanda de energia nos próximos dois anos.
Para contexto: 6 megawatts médios abastece uma cidade de 24 mil pessoas por um mês. 500 megawatts médios é da ordem de uma usina hidrelétrica de porte médio. O que era desperdício técnico está sendo reprecificado como ativo operacional. Renova Energia, Serena Energia e Casa dos Ventos — players relevantes do setor de renováveis — também estão estudando esse caminho.
O elo oculto entre curtailment e Bitcoin não é ideológico. É econômico. Quando um ativo tem custo marginal zero, qualquer receita gerada a partir dele é pura margem. A mineração de cripto, que em outros contextos consome energia cara e gera debates ambientais intensos, aqui aparece como válvula de escape para um problema de engenharia elétrica que o mercado não conseguiu resolver de outra forma.
O próximo domino
Se esse modelo se consolidar, o impacto vai além da Radius Mining. O curtailment no Brasil tende a crescer. A capacidade instalada de solar e eólica continua em expansão acelerada, enquanto os investimentos em transmissão e armazenamento ficam para trás. Isso significa mais horas de geração cortada — e mais oportunidade para quem estiver posicionado para capturá-la.
O lado positivo para os geradores de renováveis é evidente: cada megawatt que vai para mineração em vez de para o lixo melhora a taxa de retorno do projeto. O risco de inadimplência de contratos de longo prazo com distribuidoras cai. Os projetos que hoje estão no limite da viabilidade financeira ganham uma nova fonte de receita que não existia no modelo original.
O lado incerto é regulatório. A conexão direta entre geração e equipamentos de mineração — sem passar pelo grid — ainda opera numa zona cinzenta. Se a Aneel ou o ONS decidirem regular ou restringir essa modalidade, o modelo perde sua principal vantagem. Um dos primeiros acordos formais de P&D, assinado entre a Radius e a AXIA Energia num parque eólico na Bahia, vai funcionar como teste de estresse regulatório também.
A evidência que vale monitorar é direta: o volume de curtailment no segundo trimestre de 2026, divulgado mensalmente pelo ONS. Se os cortes de geração continuarem acima de 15% da produção renovável, a pressão econômica sobre os geradores se intensifica — e a demanda por alternativas como a mineração de Bitcoin cresce na mesma proporção. Se os cortes caírem abaixo de 10%, o argumento de custo zero perde força e o modelo perde competitividade frente à energia convencional.
O peso das evidências aponta para que o curtailment permaneça alto nos próximos trimestres. A capacidade de geração cresce mais rápido que a infraestrutura de escoamento. Mas o que pode inverter esse cenário é uma aceleração inesperada nos leilões de transmissão — algo que está no radar do MME mas que historicamente demora mais do que o previsto para se materializar.