3tentos TTEN3|Queda de 16% divide versões
O tombo atípico
As ações da 3tentos, a TTEN3, fecharam a terça-feira, 28 de julho, com uma queda de 16,01%. O movimento tirou aproximadamente R$ 900 milhões do valor de mercado da companhia em poucas horas. A queda começou de forma abrupta por volta das 11h20, e às 12h09 o papel já recuava quase 12%, com o volume de negociação quase quatro vezes acima da média diária.
O que chama atenção é o descolamento. Enquanto a 3tentos derretia, o resto do mercado ia na direção oposta. No mesmo horário, o Ibovespa avançava 0,89%, e a soja negociada em Chicago, matéria-prima central do negócio da companhia, subia 0,46%. Não havia notícia macro nem choque setorial que justificasse a queda isolada do papel.
Relatos que circularam entre investidores atribuíram a venda a uma reunião reservada entre a diretoria da 3tentos e analistas do sell side, na qual teriam sido discutidas perspectivas mais fracas para receita, aumento de custos e fretes, além de preocupações com inadimplência e provisões. Se verdadeiro, esse é o tipo de informação que deveria chegar a todo o mercado ao mesmo tempo, não a um grupo restrito.
Duas versões, um mesmo dia
As versões colidem. Fontes próximas à companhia, ouvidas pela reportagem, negaram que qualquer reunião fechada tenha acontecido, atribuindo a queda a uma simples revisão de estimativas pelas casas de análise para o segundo trimestre. Já um gestor que acompanhou os movimentos disse ao Money Times que a 3tentos fez, sim, uma prévia do 2T26 com o sell side nesta terça, e que os números vieram piores do que o esperado.
Segundo esse gestor, o ponto central não é um vazamento, mas a mudança no mix de processamento. Ele resumiu assim: o problema está na margem do crushing, porque há mais soja do que milho neste trimestre. Para ele, não haveria nada de irregular, apenas o processo habitual da companhia de conversar individualmente com analistas.
Seja qual for a versão correta, a Resolução CVM 44 permite reuniões reservadas com analistas, mas exige que informação relevante seja divulgada de forma ampla antes ou ao mesmo tempo da apresentação a um público seleto. A mesma norma obriga o diretor de relações com investidores a apurar oscilações atípicas de preço e volume como a de terça-feira, para verificar se há fato relevante ainda não comunicado ao mercado. Isso desloca a pergunta de quem tem razão para o que a companhia vai divulgar agora.
O que já estava nos números
Mesmo que a reunião fechada não tenha ocorrido como descrito, a preocupação com crédito rural já aparecia nos dados públicos da companhia antes da queda. A carteira da TentosCap, braço de crédito da 3tentos, atingiu R$ 510,8 milhões no primeiro trimestre, alta de 94,9% em um ano. Entre dezembro e março, as provisões cresceram 41%, e as despesas com vendas, gerais e administrativas avançaram 46,5%.
O contraste com a semana anterior reforça a estranheza do movimento. Há poucos dias, o Santander havia elevado o preço-alvo da 3tentos de R$ 20 para R$ 26,60 por ação, mantendo a recomendação de compra, sustentada em etanol de milho, expansão de lojas e avanço da canola. A ação fechou a terça-feira em torno de R$ 13,40, bem abaixo tanto do alvo do banco quanto do preço de apenas alguns dias antes.
A 3tentos divulga o balanço do segundo trimestre em 13 de agosto, e antes da queda o consenso do mercado projetava receita de R$ 4,6 bilhões e lucro de R$ 0,236 por ação. Esse balanço será o primeiro teste concreto entre as duas versões do que aconteceu nesta terça: se os números confirmarem a piora relatada informalmente, a queda terá sido antecipação legítima; se vierem em linha com o consenso anterior, o mercado terá vendido o papel com base em um relato que a própria companhia nega. Até lá, quem já tem a ação enfrenta uma dúvida concreta sobre governança e transparência, não apenas sobre o resultado operacional.