Acordo EUA-Irã|Queda do petróleo e o que muda para os juros

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Petróleo em colapso

O petróleo Brent despencou 7,8% em um único dia, para US$ 101 o barril — ainda acima de US$ 100, ainda suficiente para pressionar inflação global. Só que, ao mesmo tempo, as taxas de juros futuros no Brasil caíram mais de 20 pontos-base em todos os vencimentos. Os dois movimentos, aparentemente contraditórios, têm a mesma origem.

Os Estados Unidos e o Irã estão perto de um memorando de uma página para encerrar o conflito no Golfo Pérsico. A informação, confirmada por fontes paquistanesas e pela agência Bloomberg, chegou ao mercado quarta-feira. Trump confirmou pessoalmente: "Eles querem fazer um acordo." O mercado não esperou pela assinatura.

O ponto de pressão central é o Estreito de Ormuz, pelo qual passa 20% de todo o petróleo e gás comercializado no mundo. Desde o fechamento em março, a produção da OPEP recuou para 20,55 milhões de barris por dia — o menor nível em 36 anos, desde a primeira guerra do Golfo em 1990. O Kuwait sozinho perdeu dois terços da produção. O Irã, 1,5 milhão de barris diários a menos por bloqueio americano.

A lógica que o mercado aplicou é direta: se o Estreito reabrir, o choque de oferta cede, a pressão inflacionária global recua, e os bancos centrais têm mais espaço para cortar juros. No Brasil, as opções de Copom passaram a precificar 50% de probabilidade de novo corte da Selic em junho. Na véspera, essa chance era de 39%.

O risco que esse raciocínio carrega: o acordo ainda não existe. Trump disse "veremos o que acontece." O porta-voz iraniano disse que o governo "avalia" a proposta. A distância entre avaliar e assinar já desfez otimismos parecidos antes — e o petróleo continua acima de US$ 100.

Vale e o minério de ferro

Enquanto Petrobras e Prio tombavam mais de 3% seguindo o petróleo, a Vale subia 4% na mesma sessão. O par não é coincidência — é a separação estrutural que o mercado fez entre quem perde com o fim da guerra e quem ganha.

A tese da Vale tem dois motores separados, e ambos se moveram no mesmo dia. O minério de ferro na bolsa de Dalian fechou em alta de 2,84%, a 816 yuans por tonelada, equivalente a US$ 122. O BTG Pactual elevou o preço-alvo da ação de R$ 85 para R$ 90 e manteve recomendação de compra.

A revisão do BTG não veio apenas do minério. O banco incorporou o cobre como vetor de valor separado: o Ebitda do segmento praticamente dobrou nos últimos anos, mas ainda não estava totalmente refletido no valuation. O segundo argumento é geopolítico, mas em direção oposta ao petróleo. A Vale tem frete contratado e hedge relevante, o que a protege da inflação de custos que afetou os concorrentes. Nas contas do banco, mesmo após alta de 20% no ano, a ação ainda negocia com dividend yield próximo de 9%.

A condição que sustenta a tese: preços do minério resilientes próximos de US$ 100 a US$ 110 por tonelada. Se o acordo EUA-Irã avançar e reduzir a pressão inflacionária global, os custos de frete da Vale também caem — abrindo margem adicional. Se o conflito escalar, o cenário inverte: petróleo alto pressiona custos, atividade global desacelera, e a demanda chinesa por minério pode recuar.

O BTG projeta segundo semestre mais forte, com recuperação de volumes e diluição de custos fixos. Mas isso só vale se a execução dos projetos de cobre entregar o que foi projetado.

Temporada de balanços e o paradoxo dos bancos

O Itaú entregou lucro de R$ 12,2 bilhões no primeiro trimestre de 2026, alta de 10% no ano e ROE de 24,8%. As ações caíram 1%. O Bradesco entregou lucro de R$ 6,8 bilhões, alta de 16% no ano. As ações subiram.

O paradoxo revela o que o mercado está realmente testando nesta temporada. Para o Itaú, o problema não foi o número — foi que o número estava exatamente no lugar esperado, sem surpresa positiva que justificasse reaceleração. A receita de tarifas veio fraca. A inadimplência não piorou, mas também não trouxe a melhora que validaria um re-rating. "Resultado em linha, para o Itaú, nunca é positivo", resumiu um analista ao Seu Dinheiro.

Para o Bradesco, o raciocínio é o inverso. O banco entregou o nono trimestre consecutivo de melhora gradual — e esse é exatamente o sinal que o mercado precisava para confirmar que o turnaround saiu do papel. O ROE de 15,8% ainda está longe dos 24,8% do Itaú, mas avançou 1,4 ponto percentual no ano. O CEO Marcelo Noronha admitiu: "O cenário macro piorou, vimos guerra, e ainda assim gerimos bem os riscos."

O que conecta os dois casos é a qualidade do crédito. Com juros a 14,5% e inadimplência em elevação no agronegócio e em linhas específicas, o mercado está separando quem tem carteira blindada de quem não tem. O BTG colocou o Itaú como "vencedor claro" nesse quesito: 56% da carteira de pessoas físicas é colateralizada. O Bradesco ainda reconstrói a sua.

O ponto de verificação para as próximas semanas: se a inadimplência sistêmica continuar subindo nos dados do Banco Central de abril, os bancos com carteiras menos protegidas sofrerão revisões de estimativa. O Itaú pode parecer caro agora — mas foi exatamente esse conservadorismo na seleção de clientes que o isolou nos últimos ciclos de estresse. A pergunta que o mercado não respondeu hoje é se 2026 será diferente.

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