Aegea perde R 700 mi|nenhum real saiu do caixa

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O número que assustou o mercado

R$ 700 milhões. Foi esse o impacto anunciado pela Itaúsa nesta terça-feira, 14 de abril. A holding informou que ajustes contábeis no balanço da Aegea exigiram uma revisão em seu próprio patrimônio líquido — e o número chegou para o mercado com peso de notícia ruim. Afinal, a Itaúsa tem R$ 89 bilhões em patrimônio, e qualquer sinal de deterioração em uma de suas principais participações atrai atenção. O Ibovespa encerrou o pregão renovando máximas históricas acima dos 199 mil pontos, mas nos bastidores, quem acompanha o setor de saneamento e crédito privado passou o dia decifrando o que aconteceu com a Aegea. A empresa já havia atrasado a divulgação do seu balanço de 2025 por semanas, aguardando uma revisão profunda conduzida pela auditoria KPMG. Quando os números saíram, mostraram alavancagem subindo de 2,96 vezes para 3,78 vezes, o IPO adiado para 2027, e os títulos da companhia negociando a cerca de 80 centavos no dólar. O retrato era o de uma empresa em crise. A pergunta que ficou no ar: o quanto desse rombo contamina quem está ao redor?

O que o número não diz

Aqui está o ponto que o mercado leu errado. Os R$ 700 milhões que saíram do patrimônio da Itaúsa não representam nenhum centavo em caixa. A própria holding foi explícita ao classificar o impacto como "imaterial" — menos de 1% do seu patrimônio total. E não foi um eufemismo corporativo. A revisão foi estritamente contábil. O que a Aegea fez, sob exigência da KPMG, foi mudar a forma como reconhece receita. Antes, a empresa contabilizava faturas emitidas como receita, mesmo quando havia dúvida sobre o recebimento. Depois da revisão, passou a reconhecer apenas o que efetivamente entra no caixa. A mudança foi retroativa e ajustou os balanços anteriores — por isso o impacto pareceu grande. Mas não houve saque. Não houve provisão para cobrir perdas reais. O que ocorreu foi uma limpeza nos registros, não uma deterioração operacional nova. O setor de saneamento ainda tem a mesma receita tarifária de sempre. Os contratos de concessão continuam. O fluxo de caixa operacional da Aegea não desapareceu. O que mudou foi o espelho contábil — e o espelho estava distorcido antes, não agora. Quem leu R$ 700 milhões como perda econômica da Itaúsa leu um número correto com uma interpretação errada.

O que realmente preocupa — e o que não

Separar o ruído do problema real é o que importa daqui para frente. O ajuste contábil em si não é o risco. O risco está em outro lugar: a alavancagem real da Aegea subiu, o IPO foi postergado por pelo menos um ano, e os bonds da empresa estão com deságio significativo. Isso não é sinal de empresa saudável. O CEO Radamés Casseb reconheceu publicamente que a Aegea precisa melhorar a comunicação com o mercado antes de abrir capital. Essa admissão importa. E a Águas do Rio, subsidiária da Aegea, também está sob pressão, com os mesmos critérios contábeis sendo aplicados. O mercado de crédito privado reagiu com cautela, e tem razão em fazê-lo — não por causa do ajuste patrimonial, mas pela alavancagem e pelo atraso na transparência. Para a Itaúsa, o risco real não é o impacto contábil de R$ 700 milhões. É a possibilidade de a Aegea precisar de capital novo em condições desfavoráveis, o que poderia diluir o valor da participação da holding ou exigir injeções adicionais. O indicador para monitorar nos próximos dias é o nível de alavancagem da Aegea — se o índice de 3,78 vezes se estabilizar ou continuar subindo. Se a alavancagem parar de crescer e os bonds voltarem a ser negociados acima de 85 centavos, o mercado terá decidido que o pior já ficou no balanço de 2025. Se o deságio se aprofundar, a história ainda não terminou.

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