Ambev 15%|Copom freia corte da Selic

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Ambev Quebra o Ciclo

A Ambev acumulava dez anos sem uma alta expressiva em bolsa — e em um único pregão, na terça-feira, reverteu essa história. As ações dispararam 15,3%, a segunda maior valorização diária desde a fundação da empresa em 1999. O que mudou não foi só o lucro: foi o que o resultado sinalizou sobre o futuro.

O volume de cerveja no Brasil cresceu 1,2% no primeiro trimestre, um recorde para o período — e o mercado esperava queda de até 2%. A receita por hectolitro avançou 8,3%, impulsionada pela expansão das linhas premium e super premium, que cresceram cerca de 20%. Mais revelador foi o controle de custos: mesmo com o choque inflacionário do petróleo, o custo dos produtos vendidos caiu levemente, de R$ 10,95 bilhões para R$ 10,88 bilhões. O EBITDA ajustado saltou 10,1%, para R$ 7,55 bilhões.

A explicação está numa mudança competitiva que passou despercebida. Em 2026, pela primeira vez, a Heineken repassou aumento de preços antes da Ambev — dando à empresa brasileira margem para ajustar preços sem perder market share. Analistas da LIS Capital apontam que isso indica um reposicionamento competitivo estrutural, não apenas sazonalidade. O BTG Pactual, que mantinha recomendação neutra, admitiu que vai rever a tese após um resultado que entregou "o pacote completo": preço forte, volume positivo e expansão de margem no trimestre mais difícil do ano em custos.

Antes do resultado, cerca de 7% do free float da Ambev estava alugado — posições vendidas apostando na queda. A explosão de 15% forçou um short squeeze que amplificou o movimento. Mas gestores como Daniel Utsch, da Nero Capital, argumentam que o resultado por si só já justificaria revisões positivas para os próximos seis a doze meses. A Copa do Mundo, no segundo e terceiro trimestres, representa um vento favorável adicional que ainda não está precificado. O risco é que a sustentabilidade do crescimento de volumes a partir de 2027 ainda é uma incógnita — e o valuation atual, em cerca de 15 vezes lucro, deixa pouca margem para decepcionar.

Copom Paralisa Cortes

Enquanto a Ambev celebrava sua virada, o Banco Central enviava um recado que esfriou os ânimos no mercado de juros. A ata do Copom, divulgada na mesma terça-feira, revelou que a guerra no Oriente Médio pode atrasar novos cortes na Selic — e os efeitos foram imediatos na curva de juros.

O Tesouro Prefixado com vencimento em 2037 chegou a 14% ao ano, o maior nível em meses. O DI para janeiro de 2029 encerrou em 13,765%, enquanto os vencimentos mais curtos recuaram levemente. O BC não alterou o ritmo de cortes — a Selic segue em 14,50% ao ano após o último ajuste — mas sinalizou que a falta de perspectiva sobre a duração e extensão do conflito no Oriente Médio exige cautela adicional de países emergentes num ambiente de alta volatilidade em commodities.

O mecanismo é direto: o petróleo Brent chegou a US$ 114 o barril em abril, antes de recuar para US$ 109 nesta terça após sinais de cessar-fogo entre EUA e Irã. Cada dólar a mais no Brent pressiona o combustível de aviação, o diesel e os custos logísticos no Brasil — e alimenta a inflação que o Copom tenta controlar. O economista-chefe da XP Investimentos, Caio Megale, identificou na ata um alerta sobre as expectativas de inflação para 2028, abrindo espaço para discussões sobre extensão do horizonte de convergência à meta.

O banco BofA calculou que, num cenário com Brent estável em US$ 93, o impacto bruto sobre as receitas federais chegaria a R$ 137 bilhões por ano — um alívio fiscal relevante para o governo. Mas o benefício líquido é menor: regras de vinculação de receitas limitam o uso imediato dos recursos, e o PLP 114/2026 institucionaliza o vínculo entre receitas do petróleo e desonerações de combustíveis, reciclando parte do ganho de volta para subsídios. O Tesouro Prefixado 2037 a 14% é o termômetro a observar: se o petróleo voltar a subir e o cessar-fogo não se consolidar, esse nível pode se tornar o piso, não o teto.

Balanços Confirmam Solidez

A ata do Copom estabeleceu o pano de fundo macroeconômico — e os balanços do dia mostraram como as empresas brasileiras estão navegando esse ambiente. O Itaú Unibanco e a BradSaúde, estreante na B3, chegaram com números que reforçam uma tese comum: disciplina operacional em ambiente adverso gera retornos excepcionais.

O Itaú reportou lucro recorrente de R$ 12,3 bilhões no primeiro trimestre, alta de 10,4% na comparação anual — dentro das expectativas, mas com um detalhe que se destaca. O ROE chegou a 24,8%, avanço de 2,3 pontos percentuais no ano, muito acima dos 16% do Santander no mesmo período. A carteira de crédito atingiu R$ 1,48 trilhão, crescendo 9% na base anual, enquanto a inadimplência acima de 90 dias permaneceu estável em 1,9% — resultado notável num cenário de juros reais elevados. O CEO Milton Maluhy Filho foi explícito: "2026 exige cautela e disciplina no crédito." O banco aumentou provisões em 7,9% na base anual, antecipando deterioração pontual, mas sem sinalizar deterioração estrutural.

Como contraponto à solidez do crédito, a BradSaúde estreou na B3 sob o ticker SAUD3 com um resultado que superou estimativas. O lucro consolidado do primeiro trimestre foi de R$ 1,3 bilhão, com ROAE de 24,8% — o mesmo nível do Itaú, em seu primeiro trimestre como empresa listada. A sinistralidade da Bradesco Saúde caiu 1,4 ponto percentual, para 79,1%, e a base de beneficiários cresceu 193 mil vidas no trimestre. O BTG Pactual estimava que o resultado representaria cerca de 27% do lucro anual esperado; veio em 32%, sugerindo viés positivo para revisões. A tese central da BradSaúde — integrar planos de saúde, odontologia e hospitais num ecossistema único — ainda não está refletida nos números: 83% do lucro ainda vem da Bradesco Saúde, com a Atlântica Hospitais contribuindo com apenas 1%.

O quadro que emerge é este: num cenário onde o Copom sinaliza cautela e os juros longos pressionam, as empresas com poder de precificação, controle de custos e carteiras defensivas — como Ambev na cerveja premium e Itaú no crédito de qualidade — estão entregando resultados acima do consenso. O dólar recuou para R$ 4,91, o menor nível desde janeiro de 2024, refletindo o fluxo de capital estrangeiro que voltou à bolsa em abril com o melhor saldo desde 2022. Se o cessar-fogo com o Irã se consolidar e o Brent recuar abaixo de US$ 100, o Copom ganha espaço para retomar cortes mais agressivos — e os ativos de risco têm combustível adicional. Se a guerra se prolongar e o petróleo voltar a subir, o prefixado 2037 em 14% e a sinistralidade das seguradoras de saúde são os dois sinais que vão revelar quão resistente esse rali de fato é.

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