Ambev 15% no balanço|Imposto Seletivo pode apagar o rally em 2027
O Balanço que Reverteu Dois Rebaixamentos em Cinco Dias
Na segunda-feira, 2 de junho de 2026, o UBS BB rebaixou a Ambev de neutro para venda. Preço-alvo: R$ 14,50. A ação havia subido 32% nos seis meses anteriores. O banco calculou que a ABEV3 negociava a 16 vezes o lucro projetado para 2026. Esse múltiplo embute crescimento de 18% nos próximos doze meses. A projeção do UBS para esse mesmo período: estabilidade. Um prêmio de 19% sobre a média histórica de cinco anos sem fundamento nos números. Na terça-feira seguinte, 7 de junho, a Ambev saltou 15,3% para R$ 16,65. Maior alta do Ibovespa naquele pregão. A empresa reportou lucro líquido ajustado de R$ 3,8 bilhões no primeiro trimestre de 2026. Alta de 0,3% em relação ao mesmo período do ano anterior. Tecnicamente modesta — o mercado não reagiu a esse 0,3%. O mercado reagiu ao contraste com o que havia sido projetado. Dois bancos posicionavam venda ou neutro antes desse resultado. Ambos viam uma ação cara em relação aos fundamentos. O resultado não mudou os fundamentos estruturais. Mas mudou o posicionamento de curto prazo de forma decisiva. A ABEV3 acumula alta de 14,75% no mês e 20,13% no ano. A pergunta que o rally não responde: a premissa oculta por trás de R$ 16,65 é sustentável?
O Imposto Seletivo — a Bomba que Chega em 2027
Na segunda-feira, 1 de junho, antes do balanço, o BofA publicou um relatório com um aviso direto. Título: risco ainda ignorado pelo mercado. Esse risco tem nome: Imposto Seletivo sobre bebidas alcoólicas. A reforma tributária brasileira está migrando para um modelo de Imposto sobre Valor Agregado. Para a Ambev, a transição tem uma face positiva e uma face negativa. A face positiva: a migração para o IVA pode elevar os preços líquidos da cerveja em até 10%. Esse ganho se acumula até 2033, quando a transição se encerra. A face negativa é onde está o risco real. O Imposto Seletivo ainda não foi regulamentado pelo governo. A alíquota ainda não foi definida. Segundo o BofA, uma alíquota acima de 7% já seria suficiente para zerar todo o ganho do IVA. Essa é a premissa oculta que separa o BTG do UBS BB e do BofA. Os analistas do BofA olharam para México e Chile como referência. Nesses países, impostos seletivos sobre bebidas representaram de 10% a 18% dos preços líquidos. Se o Brasil seguir esse padrão, a Ambev enfrentará uma parede fiscal de proporções diferentes. O banco modelou o impacto: cada 5 pontos percentuais de alíquota reduzem o Ebitda da cerveja brasileira em 4,2% para 2027. Se o Imposto Seletivo chegar a 15%, a Ambev precisaria reajustar preços em 9,6% para manter a rentabilidade. O problema é que o consumidor brasileiro já mostrou o seu limite. Em 2025, o volume da indústria de cerveja caiu 4% — mesmo com preços crescendo apenas em linha com a inflação. A produção total de cerveja no Brasil em 2025 apresentou queda de 8,85%, para 15,688 milhões de hectolitros. O pior resultado do setor em mais de quinze anos. Se a Ambev repassar apenas metade do aumento de custo, com elasticidade de demanda de 0,5, o Ebitda da operação brasileira de cerveja pode cair 17% em 2027. No consolidado da companhia, a redução seria de 8,6%. O mercado comprou o balanço do primeiro trimestre. Mas a regulamentação do Imposto Seletivo ainda não existe. Quem comprou a ABEV3 a R$ 16,65 está apostando que a alíquota será baixa. Sem nenhuma evidência publicada para sustentar essa aposta.
Copa do Mundo, BTG e o Relógio que Corre Contra o Holder
Existe uma narrativa de suporte para a Ambev no curto prazo — e ela é real. A Copa do Mundo começa em 11 de junho de 2026 com México contra África do Sul. O Brasil estreia no sábado, 13 de junho, contra o Marrocos. A Ambev é patrocinadora oficial do torneio pela AB InBev, sua controladora. O BTG elevou a recomendação para compra — treze anos depois de ter rebaixado os papéis. O argumento central do banco é preciso: a Ambev está recuperando participação de mercado. Pela primeira vez em mais de uma década. O BTG identificou que o portfólio da empresa cobre quatro segmentos: core, core plus, entry premium e premium. A Heineken, seu principal concorrente, tem força de marca no premium mas portfólio estreito. Uma pesquisa do Citi mostrou que a Heineken lidera intenção de consumo durante a Copa com 40%. Brahma, Skol e Corona, todas do portfólio Ambev somadas, chegam a 26%. Mas a força da Ambev é capilaridade — e a Copa vai durar até julho de 2026. Aqui está o ponto que o holder de ABEV3 precisa calcular. O bom humor operacional vai durar até o próximo resultado — provavelmente agosto de 2026. A regulamentação do Imposto Seletivo pode chegar durante esse mesmo período ou logo após. Quando a alíquota for publicada, o mercado vai rever tudo que o BofA calculou em junho. O UBS projetou crescimento anual composto de apenas 5% no lucro por ação nos próximos cinco anos. O BofA fixou preço-alvo em R$ 16 — exatamente onde a ação estava antes do rally de 15%. A Copa cria uma janela de curto prazo com suporte real de demanda. A reforma tributária cria uma parede de médio prazo com risco não precificado. O sinal de confirmação desta análise é a publicação da alíquota do Imposto Seletivo pelo governo. Se a alíquota ficar abaixo de 7%, o rally de 15% de hoje terá fundamento de médio prazo. Se ficar acima de 10%, o mercado vai reler os cálculos do BofA — e R$ 16,65 vai parecer caro demais. A decisão ainda não foi publicada. E é um único número ainda indefinido que decide se o balanço de hoje foi o início de uma recuperação estrutural ou o pico de um rally de Copa.
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