Ambev ABEV3|Lucro sobe 24,5%, mas Copa não salvou o volume

· B3

Lucro recorde, ação em queda

A Ambev divulgou nesta quinta-feira um lucro líquido de R$ 3,47 bilhões no segundo trimestre, alta de 24,5% sobre o ano passado. Mas, em vez de subir, as ações da ABEV3 chegaram a cair mais de 4,9% na abertura do pregão, a maior queda intradiária desde dezembro.

A Copa do Mundo de 2026 encheu bares de torcedores e deveria ter sido o principal motor do trimestre para a maior cervejaria da América Latina. O problema é que o resultado veio abaixo do que os analistas projetavam para esse mesmo evento.

A leitura simples diz que lucro maior é sempre boa notícia. Mas parte relevante desse resultado veio de efeitos financeiros e ganhos cambiais, não da venda de mais cerveja. É essa diferença que fez o mercado reagir com desconfiança em vez de comemorar.

O que realmente decepcionou

O volume de cerveja vendido no Brasil cresceu 5% no trimestre, para 21,03 milhões de hectolitros. Analistas do Citi e da XP esperavam entre 6% e 7%, puxados justamente pela expectativa de consumo extra durante a Copa.

A analista do Citi, Renata Cabral, resumiu o problema dizendo que as expectativas para os volumes de cerveja no Brasil estavam simplesmente altas demais. O próprio CEO Carlos Lisboa admitiu que condições climáticas mais amenas que em 2025 compensaram parte do impulso da Copa.

O que sustentou o trimestre foi a margem: o EBITDA ajustado somou R$ 6,37 bilhões, crescimento orgânico de 8,9%, com expansão de margem de 80 pontos-base. A empresa conseguiu segurar custos mesmo com o volume abaixo do esperado, e isso muda parcialmente a leitura do trimestre.

Quatro bancos, quatro leituras

Depois da divulgação, Citi, XP, BTG Pactual e Itaú BBA leram o mesmo balanço de formas diferentes. O BTG Pactual chamou o trimestre de decente, destacando ganho de participação no segmento premium e a manutenção de dividendos robustos. Já o Itaú BBA classificou o resultado como fraco, com receita abaixo do previsto em toda a operação.

O próprio BTG faz uma ressalva importante: parte da expansão de margem decorreu de outras receitas operacionais, como benefícios fiscais, e não necessariamente de uma melhora estrutural do negócio. Essa é exatamente a pergunta que separa quem confia na tese e quem tem dúvidas sobre ela.

Essa divergência entre bancos não é um detalhe de cobertura. Ela mostra que o mercado ainda não decidiu se a Ambev entrega crescimento real de volume e preço, ou se está sustentando margens com fatores que não se repetem trimestre após trimestre.

O teste que ainda não veio

A diferença de leitura aparece também nos preços-alvo. O Itaú BBA, com recomendação neutra, colocou o papel em R$ 17. O BTG Pactual, com recomendação de compra, projeta R$ 20. A distância entre os dois números reflete diretamente a discordância sobre a qualidade do resultado.

O torneio, que terminou em 19 de julho, ainda pode influenciar o próximo relatório, mas com menos intensidade. O verdadeiro teste para a Ambev vem no segundo semestre, quando o efeito Copa desaparece e a empresa precisa provar se consegue crescer volume e margem sem esse impulso pontual. Até lá, a resposta sobre se o trimestre foi vitória ou alerta continua em aberto.

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