Ambev eliminou pela Copa|BTG compra após 13 anos mas ações caem 3,5%
O Brasil saiu da Copa — e as ações da Ambev sentiram na hora
A Ambev (ABEV3) caiu 3,5% na segunda-feira, 6 de julho, no mesmo dia em que o Brasil foi eliminado da Copa do Mundo pela Noruega, com dois gols de Erling Haaland. A eliminação é a primeira vez que o Brasil não chega às quartas de final desde 1990, e os analistas do Morgan Stanley foram rápidos: existe "risco de as vendas do terceiro trimestre na América Latina ficarem aquém das expectativas." O argumento é direto. A maior parte do aumento no consumo de cerveja ocorre quando as equipes avançam para as fases decisivas de um torneio. Com Brasil e México eliminados no mesmo fim de semana, o mercado cervejeiro perdeu os dois maiores mercados da América Latina de uma vez — e a Ambev, dona de Skol, Brahma e Budweiser no Brasil, é a empresa "mais exposta", segundo o Morgan Stanley. A queda de hoje, porém, não é só uma reação ao placar. Cinco dias atrás, o BTG Pactual fez algo que não havia feito em 13 anos: elevou a recomendação das ações da Ambev para compra, com preço-alvo de R$20 — uma alta potencial de quase 22% em relação ao fechamento anterior. O gargalo central da tese não é volume de Copa; é poder de precificação. E é precisamente sobre essa distinção que o mercado está dividido hoje.
A virada do BTG: 13 anos de cautela e uma única variável que mudou
A reversão do BTG é incomum o suficiente para merecer atenção. Os analistas Thiago Duarte e Guilherme Guttilla escreveram: "Treze anos depois, estamos elevando a recomendação de Ambev para compra. Não fazemos isso de forma leviana." O banco defendeu cautela por mais de uma década, resistindo a cada "falso amanhecer" — cada aposta em recuperação da Skol, cada trimestre de recomposição de margens. O que mudou não é volume. É a hierarquia de preços. Entre 2005 e 2015, a Ambev conseguia subir preços 1,5 ponto percentual acima da inflação por ano — o BTG chama de "era de ouro." Depois veio a "década perdida": preços reais negativos até 2020, coincidindo com a ascensão da Heineken, que construiu o único posicionamento premium verdadeiramente escalável no Brasil. Agora, segundo o BTG, a Heineken "está se aproximando dos limites de uma estratégia premium baseada em uma única marca." A Ambev retomou protagonismo de preços em 2025 e início de 2026 — e, crucialmente, a Heineken foi forçada a seguir os reajustes, em vez de liderá-los. O BTG projeta que a Ambev capturará 1,4 ponto percentual ao ano de precificação real no segmento de cerveja no Brasil nos próximos anos, com ROIC recuperado para 31% em 2025 e estimado em 37% até o fim da década. Esse repasse de preços ocorre com "capital incremental mínimo" — a receita cresce, o capital investido fica essencialmente estável. O paradoxo de hoje é este: se a tese do BTG se apoia em precificação e não em Copa, por que as ações caem 3,5% por uma eliminação esportiva? A resposta está em quem ainda não comprou a tese.
O Citi neutro e a exigência que o BTG escolheu ignorar
O Citi manteve recomendação neutra para a Ambev hoje — no mesmo pregão em que Morgan Stanley alertou para o risco de volumes e o BTG carregava sua nova recomendação de compra. O banco americano projeta alta de 5,8% nas vendas de cerveja no Brasil no segundo trimestre, "impulsionado por uma base de comparação excepcionalmente fraca em junho e pela Copa do Mundo." A ressalva é precisa: "acreditamos que o próximo passo para fortalecer a tese de investimento será comprovar que a recuperação dos volumes pode se manter mesmo após o fim das comparações favoráveis." Este é o ponto que o BTG escolheu desconsiderar como condição prévia. O BTG apostou que o poder de precificação já estava comprovado — e que a Heineken, ao ser forçada a seguir os reajustes, confirmou que a Ambev reconquistou protagonismo. O Citi, por sua vez, quer ver volumes crescendo sem Copa, sem base fraca, sem evento externo como muleta. O que a eliminação do Brasil fez hoje foi destruir o argumento de base comparável para o 3T26. O terceiro trimestre terá Copa, sim — mas sem Brasil, sem México, com o foco no mercado americano, que, como o Morgan Stanley admitiu, tem "história mais curta do futebol" e benefícios ainda "não amplamente comprovados." O Citi também esperava EBITDA consolidado crescendo 3,6% no 2T, com custos desacelerando no segundo semestre. Esses números não mudaram com a eliminação — mas a interpretação do que eles provam mudou. Um volume de 5,8% no 2T com Copa e base fraca não responde à pergunta do Citi. Só o 3T, agora sem Brasil, dará a resposta real.
O balanço 2T26 como divisor de águas — mas a prova vem depois
O balanço do segundo trimestre da Ambev chegará em breve, e o mercado o lerá com mais atenção do que de costume. O Citi projeta crescimento de volume de 5,8% e EBITDA de +3,6% na comparação anual. Se os números chegarem dentro ou acima dessas projeções, o debate imediato sobre a Copa se encerrará — a precificação terá funcionado independentemente da questão de volumes. Mas o balanço 2T não é o teste decisivo. O verdadeiro teste é o 3T26 — o trimestre que começa agora, sem Brasil na Copa, com base comparável menos favorável. Quem comprou a tese do BTG precisa ver se a recuperação de margens e preços se sustenta sem o impulso esportivo. Quem ficou neutro como o Citi precisa ver exatamente isso para mover a recomendação. O risco para o titular de ABEV3 hoje não é que a eliminação reduza o consumo regular de cerveja — Morgan Stanley foi explícito: "o impacto negativo é principalmente uma ausência de crescimento incremental." O risco é que o 3T26 confirme que a recuperação da Ambev dependia de fatores temporários — Copa, base fraca, clima favorável — e não de poder de precificação estrutural. Se os volumes do 3T crescerem mesmo sem Brasil na Copa, a tese do BTG se confirma, e R$17 foi o ponto de entrada para um ativo que o banco projeta em R$20. Se encolherem com a saída do Brasil, o Citi tinha razão em esperar — e a queda de hoje foi só o começo do ajuste. O sinal mais antecipado para essa resposta é o volume de julho, que chegará antes do balanço formal: variações de dados de indústria e distribuição de cerveja em julho indicarão se o consumo resistiu ao fim do sonho do Hexa.
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