Assaí clientes sob juros|Fluxo vira crescimento?

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Fluxo e clientes

O Assaí terminou o segundo trimestre com mais de 40 milhões de clientes por mês, alta de 3,4%, e ganhou participação em mesmas lojas. A leitura provisória é positiva, mas incompleta: o fluxo está defendendo a operação, enquanto o consumidor ainda compra menos por visita. A questão é saber se as novas frentes transformarão frequência em crescimento rentável.

Carrinho sob pressão

A receita bruta avançou 2,4%, para R$ 21,4 bilhões, mas a receita líquida cresceu apenas 0,9%. As vendas mesmas lojas subiram 0,9%, e o consumidor concentrou compras no começo do mês, migrando para itens mais baratos. Juros altos, endividamento familiar e outras despesas do orçamento pressionaram o tamanho do carrinho.

Novas frentes

É nesse ponto que farmácias e serviços digitais mudam a interpretação do balanço. As duas primeiras Assaí Farma abriram em julho, aproveitando o fluxo já existente nas lojas para tentar aumentar a frequência e capturar uma parcela maior do gasto do cliente. O canal digital cresceu 237% no trimestre, superou R$ 100 milhões em vendas mensais com o iFood e entrou em teste de fulfillment no Mercado Livre.

Hipótese operacional

Mas isso ainda é uma hipótese operacional, não uma prova de novo motor de crescimento. A companhia pretende chegar a 25 farmácias neste ano, e ampliar a categoria de bem-estar de 93 para cerca de 300 lojas até o fim do terceiro trimestre. Só que as primeiras unidades ainda estão em fase de rampa, sem demonstração pública de quanto acrescentam à margem ou de quanto das vendas é realmente incremental.

Lucro e alavancagem

A segunda leitura vem do lucro. O resultado recorrente chegou a R$ 344 milhões, alta de 93,6%, e a alavancagem caiu para 2,37 vezes, menor nível desde 2021. Isso reduz a pressão financeira e dá mais espaço para testar formatos. Porém, parte relevante da melhora veio de créditos tributários e da queda do custo da dívida, enquanto o Ebitda ajustado recuou 0,7% e a margem ficou em 5,6%.

Custos e caixa

A operação também não ficou mais leve em todos os sentidos. As despesas com vendas, gerais e administrativas cresceram 5,1%, acima da receita, e passaram a representar 11,6% da receita líquida. A geração de caixa operacional caiu cerca de R$ 600 milhões em um ano, e o caixa final, sem considerar descontos de recebíveis, recuou de R$ 650 milhões para R$ 433 milhões.

Clientes e marcas próprias

Isso limita uma conclusão apressada. O Assaí não está simplesmente perdendo clientes: está atraindo mais pessoas, ganhando participação e mantendo a margem bruta mesmo em um ambiente difícil. A companhia também ampliou marcas próprias, uma resposta ao orçamento apertado das famílias. Mas o aumento de penetração dessas marcas ainda parece mais uma recuperação do consumo do que uma expansão consolidada.

O teste para o acionista

Para o acionista, o ponto a reconsiderar é o peso dado ao lucro trimestral. Para quem acompanha a ação, a variável decisiva será a conversão do fluxo em venda recorrente, margem e caixa — não apenas a abertura de novos serviços. O futuro das farmácias e do digital dependerá de saber se eles elevam a frequência sem acrescentar despesas mais rapidamente que a receita.

Metas de execução

A própria administração estabeleceu um teste observável: espera levar a alavancagem para abaixo de duas vezes até o fim do ano. Ao mesmo tempo, a execução das 25 farmácias e a expansão digital devem mostrar se essas iniciativas são complementares ao atacarejo ou apenas novas camadas sobre uma operação de margem estreita.

Transição ainda incompleta

A evidência disponível aponta para uma transição, ainda não para uma mudança estrutural comprovada. O Assaí ganhou circulação e fortaleceu o balanço, mas o crescimento continua condicionado ao poder de compra do cliente e à capacidade de transformar visitas em cestas maiores ou mais frequentes. O que permanece desconhecido é quanto do novo fluxo será permanente e quanto do lucro continuará vindo de efeitos financeiros e tributários.

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