Banco do Brasil BBAS3 e crédito agro de R 210 bi|inadimplência não para e analistas cortam lucro em 22%
O banco que caiu 10% no ano e ainda negocia caro
O Banco do Brasil encerrou o primeiro semestre com queda acumulada de aproximadamente 10% nas ações, mesmo período em que o Ibovespa avançou 6,7%. A contradição não está na queda em si — ela está no múltiplo. O banco negocia a 6,3 vezes o lucro estimado para 2026, acima de sua média histórica de 4,5 vezes. Em outras palavras: o papel caiu, mas ficou mais caro em relação aos fundamentos.
A explicação está na matemática das estimativas. A XP Investimentos reduziu a projeção de lucro líquido do BBAS3 de R$ 23,3 bilhões para R$ 18,3 bilhões, queda de 22%, e cortou o preço-alvo de R$ 25 para R$ 21. O retorno sobre o patrimônio projetado recuou de 12% para 9,4%. O múltiplo não subiu porque o papel se valorizou — subiu porque o lucro esperado desabou mais depressa que o preço.
O ponto que separa portadores de observadores não é a perda acumulada. É o que vem depois. A XP vê custo de risco elevado até 2026 e 2027, com normalização relevante apenas a partir de 2028. O CFO do banco sinalizou que 2026 é um ano de transição, com primeiro semestre pressionado e recuperação esperada no segundo. A questão é se essa recuperação chega dentro da janela que os analistas estimaram ou se o ciclo se estende mais uma vez.
Por que o agro não vira e por que o banco continua emprestando
A carteira de agronegócio é o núcleo do problema. Preços de commodities deprimidos, real mais forte, despesas financeiras elevadas e custos de produção persistentes comprimem as margens dos produtores. Os dados de abril mostraram nova aceleração nos pedidos de recuperação judicial entre produtores rurais, revertendo sinais iniciais de estabilização que haviam surgido no começo do ano.
O banco reconhece o diagnóstico. A própria gestão adotou critérios mais rígidos nas safras recentes, exigindo garantias mais robustas e reavaliando o enquadramento nas linhas. Mas há um intervalo inevitável entre a carteira nova e a carteira legada. A carteira antiga ainda absorve os efeitos defasados do ciclo ruim — e os analistas da XP são diretos: ela vai continuar pressionando a qualidade dos ativos por mais tempo do que o esperado.
O ponto que o consenso subestimou é a transmissão para pessoas físicas. Clientes ligados à atividade rural apresentam deterioração crescente em produtos sem garantia, como cartões de crédito e cheque especial. A inadimplência do setor agro migra para o balanço de varejo do banco por um caminho que os modelos anteriores não haviam incorporado plenamente.
Diante disso, o banco anunciou R$ 210 bilhões em crédito rural para a safra 2026/27, volume 8,7% menor que o ciclo anterior mas ainda maciço. Ao mesmo tempo em que analistas cortam estimativas porque a carteira existente ainda sangra, o banco compromete novo capital ao mesmo setor. A leitura interna é de concessão responsável, com foco em qualidade e garantias. A leitura externa é de que a carteira legado vai continuar acumulando perdas até que o ciclo se resolva — e o banco está adicionando exposição antes que isso aconteça.
Dividendos cortados, valuation elevado e o gatilho que decide a tese
O Banco do Brasil reduziu o payout de 45% para 30% a partir de 2026. A decisão foi uma resposta à queda de resultados e à necessidade de manter capital interno. Para quem comprou o banco pelos dividendos, o rendimento de proventos deixou de ser o argumento central — o banco hoje negocia a cerca de 4% de dividend yield projetado, patamar que o BTG classificou como pouco atraente para os padrões históricos da instituição.
A tesouraria é o contraponto que sustenta os resultados dentro do guidance. Em ambiente de juros elevados, as receitas de tesouraria compensam parte da pressão das provisões. Sem esse amortecedor, os números de 2026 seriam piores. O Itaú BBA projeta lucro de R$ 2,9 bilhões no segundo trimestre, queda de 25%, com retorno sobre patrimônio de apenas 5,8%.
O contra-argumento real que existe no pool é o do CFO do banco: o segundo semestre deveria trazer recuperação, à medida que as safras mais recentes, originadas com critérios mais rígidos, começam a gerar retorno. Esse é o único cenário em que o múltiplo atual de 6,3x faz sentido. Se o 2T26 confirmar que a carteira nova responde como esperado e os pedidos de recuperação judicial de produtores estabilizam, a tese de recuperação gradual permanece intacta.
Se, ao contrário, os dados de 2T26 mostrarem que o estresse de abril nos produtores rurais se converteu em inadimplência longa — e que a carteira de pessoas físicas ligadas ao agro agrava o cenário — o ciclo se estende além de 2027 e o múltiplo de 6,3x se torna uma armadilha. O portador que aguarda a virada e o observador que considera entrar precisam acompanhar o mesmo indicador: o custo de risco do 2T26 e a evolução dos pedidos de recuperação judicial do setor agro nos próximos dados mensais, que chegam antes do resultado trimestral. Se o custo de risco estabilizar e os pedidos de recuperação pararem de acelerar, o segundo semestre de recuperação se torna crível. Se não pararem, a normalização em 2028 da XP pode estar sendo otimista.
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