Banco do Brasil|MP de R 100 bi não fecha o buraco de 40%

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O desconto que o mercado recusa

O Banco do Brasil negocia próximo de R$ 20, com desconto de aproximadamente 40% sobre o valor patrimonial por ação. Para quem olha só o múltiplo, parece barato — o P/VP está em torno de 0,63, o que significa que o mercado paga R$ 0,60 por cada R$ 1,00 de patrimônio contábil. Mas o mercado vem recusando essa aparente barganha, e os números da carteira rural explicam o motivo: a inadimplência acima de 90 dias no crédito rural saltou para 6,2% no primeiro trimestre de 2026, partindo de 2,76% um ano antes.

O banco não parou de gerar receita. A margem financeira bruta cresceu quase 14,8% em termos anuais, e a administração revisou a projeção de crescimento para uma faixa entre 7% e 11% em 2026. O paradoxo é que esse crescimento está sendo devorado pelas provisões contra calotes — o custo de crédito saltou de uma estimativa inicial de R$ 53 a 58 bilhões para R$ 65 a 70 bilhões, e a projeção de lucro líquido ajustado caiu de R$ 22 a 26 bilhões para R$ 18 a 22 bilhões.

A questão central não é se o banco está barato pelo P/VP. É se o mercado está certo ao recusar o desconto — ou se já exagerou na punição. A resposta depende de quanto tempo a inadimplência rural vai pressionar as provisões, e essa variável é exatamente o que a nova medida provisória do governo tenta influenciar.

O que a MP cobre e o que fica de fora

A Medida Provisória 1.376/2026, publicada em 15 de julho, cria um programa de reestruturação de dívidas rurais com estimativa de até R$ 100 bilhões em renegociações. Os produtores elegíveis são aqueles com perdas de ao menos 30% em duas safras entre 2019 e 2025. As condições incluem dois anos de carência, sem exigência de entrada, e juros entre 5% e 12% ao ano conforme o perfil do tomador e o tipo de perda — climática ou de mercado.

Para o Banco do Brasil especificamente, o Bank of America estima que o programa pode beneficiar cerca de 10% da carteira de crédito do banco, o equivalente a aproximadamente 60% dos empréstimos inadimplentes e renegociados combinados — assumindo que o BB concentre 50% das operações, em linha com sua participação de mercado no crédito rural. A medida também deve contribuir para reduzir os empréstimos no Estágio 3, favorecendo a margem financeira líquida, já que esses créditos deixam de reconhecer receita de juros enquanto permanecem nessa classificação.

O ponto de virada está aqui: o programa resolve o problema de caixa dos produtores no pico de vencimentos entre abril e setembro, mas não toca nas causas estruturais que levaram a carteira rural ao estado atual. O BofA, ao mesmo tempo que vê impacto positivo no curto prazo, mantém recomendação underperform, citando que margens reduzidas e alto nível de alavancagem dos produtores devem persistir e limitar o crescimento do crédito agrícola nos próximos um a dois anos.

O Safra levantou o ponto mais incômodo: esta é a terceira renegociação de dívidas rurais em dois anos, e cada rodada reforça no produtor a expectativa de que haverá uma próxima. Esse risco moral pode estar produzindo um efeito perverso — antecipando a inadimplência técnica de produtores que optaram por não pagar à espera de condições melhores, como ocorreu durante o segundo trimestre de 2026. Somado a isso, o capital regulatório CET1 do banco, em 11,6%, está próximo do piso confortável, o que restringe a capacidade de absorver novos choques sem comprometer dividendos ou exigir emissão de capital.

Três casas, três leituras — e o que cada uma vê que as outras ignoram

A divisão entre as casas não está em se a MP é positiva — todas concordam que é. A divisão está em quanto dessa melhoria já foi precificada e se o banco tem capacidade de recuperar o lucro rápido o suficiente para justificar a entrada agora. O Safra observa que a medida era amplamente esperada, com o Projeto de Lei nº 5.122/2023 em debate público no Senado há meses, e por isso parte do alívio já estava refletida no preço antes da publicação.

Os analistas do Safra calcularam que o Banco do Brasil deve lucrar cerca de R$ 3,8 bilhões no segundo trimestre, totalizando R$ 7,2 bilhões no primeiro semestre. Para atingir a projeção mais conservadora de R$ 18 bilhões no ano, o banco precisaria elevar o lucro trimestral em cerca de 50% no segundo semestre — um cenário descrito como muito improvável. O JPMorgan acrescentou que a suspensão temporária dos pagamentos no curto prazo pode reduzir a entrada de caixa e postergar o reconhecimento de inadimplência para o terceiro trimestre, piorando o balanço antes de melhorar.

O ponto em que as três casas convergem, apesar das recomendações diferentes, é este: a qualidade de crédito do banco só ficará clara a partir do balanço do terceiro trimestre. Até lá, a ação negocia com desconto real, mas sem o catalisador de resultado que forçaria uma reavaliação de múltiplos. O holder está em terra de ninguém — o valuation atrai, mas o timing de recuperação permanece incerto.

O que decide antes do balanço de agosto

O balanço do segundo trimestre será divulgado em 12 de agosto, e os analistas já estabeleceram o que monitorar antes: a inadimplência da carteira rural acima de 90 dias, atualmente em 6,2%. Se esse número começar a ceder — sinal de que os produtores que optaram por não pagar estão voltando ao serviço da dívida — a dinâmica de provisões pode se normalizar antes do esperado. Se permanecer no mesmo patamar ou subir, o custo de crédito pode superar o guidance atual de R$ 65 a 70 bilhões, deteriorando ainda mais o capital CET1.

Para quem já detém BBAS3, a postura racional é aguardar o balanço de 12 de agosto: a divulgação da inadimplência rural no segundo trimestre é o primeiro dado que pode confirmar ou refutar o piso de deterioração. Uma redução na inadimplência rural, mesmo que marginal, transformaria o desconto atual em setup de entrada — o sinal de que o pico do custo de crédito ficou para trás. Uma manutenção ou alta da inadimplência indicaria que o banco ainda não passou pelo ciclo completo de reconhecimento de perdas, e o desconto de 40% no P/VP pode não ser suficiente para absorver provisões adicionais.

Para quem ainda não entrou, a MP abriu uma janela, não uma certeza. O programa elimina o incentivo dos produtores de adiar pagamentos indefinidamente — o que significa que o segundo trimestre pode ser o pior ponto da inadimplência antes de uma estabilização. Se o balanço de 12 de agosto mostrar que a inadimplência rural parou de subir, o desconto de 40% se torna uma tese com catalisador visível. Se mostrar nova deterioração, o banco ainda carrega o peso de um ciclo de crédito não concluído — e o P/VP de 0,63 não é barato o suficiente para esse risco.

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