BB e Nubank Sangram|Agro ou Crescimento Quem Paga a Conta?
O BB Que Não Viu
O Banco do Brasil entrou no primeiro trimestre com a promessa de que o pior do agronegócio já havia passado. O que o balanço revelou foi o oposto — e um sinal mais incômodo ainda.
O lucro líquido ajustado caiu 53,5% na comparação anual, para R$3,4 bilhões, em linha com o consenso da Bloomberg. Mas o consenso não é o problema. O problema é que a própria projeção do BB para 2026 foi cortada — de R$22 a 26 bilhões para R$18 a 22 bilhões. O teto anterior virou o novo piso.
O custo do crédito disparou 85,8% em relação ao 1T25, chegando a R$18,9 bilhões. A inadimplência acima de 90 dias subiu para 5,05%, contra 3,63% um ano antes. No agronegócio especificamente, o índice atingiu 6,22% — e na linha de custeio rural, chegou a 10,56%.
O que mudou a leitura do mercado não foram esses números. Era o que veio junto com eles: a inadimplência de pessoa física em estágio inicial subiu 90 pontos-base no trimestre e 200 pontos-base em relação ao ano anterior. O consignado privado, que era o único portfólio crescendo sem comprometer a qualidade, agora também mostra sinais de deterioração.
A transmissão do agro para o varejo bancário é a mudança estrutural que o mercado não havia precificado. No pregão de quinta-feira, BBAS3 abriu em queda de 4,91%, a R$19,74 — mínima intradia — enquanto o Ibovespa subia 1%. O fluxo de saída de pessoas físicas e fundos de dividendos foi absorvido parcialmente por compra técnica institucional em torno de R$20, nível que historicamente serviu como suporte. Mas o fechamento estável a R$20,76 não apagou o volume recorde de R$1,44 bilhão negociado em um único pregão — sinal de mão trocando de lado, não de convicção.
A presidente Tarciana Medeiros afirmou que o banco dobrou as judicializações nos primeiros meses de 2026 em relação a todo o ano passado. Mas o BTG Pactual apontou o problema central: o BB revisou o guidance cinco vezes consecutivas desde o 1T25. Credibilidade revisável não é credibilidade. O que fica em aberto é se a inadimplência do consignado privado, que ainda está em estágio inicial, vai se materializar no NPL 90+ dos próximos dois trimestres — e em que ritmo.
Nubank: Crescer ou Lucrar
A mesma semana que expôs o risco de uma carteira velha e deteriorada no BB colocou em teste a tese oposta: uma carteira nova, crescendo 40% ao ano, pode ser saudável mesmo quando as provisões disparam?
O Nubank reportou lucro de US$871 milhões no 1T26 — alta de 41% em relação ao ano anterior. A receita ultrapassou US$5,3 bilhões pela primeira vez. No México, atingiu o breakeven após seis anos de operação. Em tese, são números que sustentam a narrativa de expansão sem precedentes no setor.
Mas o consenso esperava US$980 milhões de lucro. A diferença — US$109 milhões — foi consumida pelas provisões para perdas de crédito, que saltaram 76% em doze meses, para US$1,79 bilhão. O CFO Guilherme Lago explicou a lógica: a política contábil obriga o reconhecimento antecipado de provisões quando a carteira cresce acima do esperado. Crescimento acelerado não é gratuito no balanço.
A inadimplência de 15 a 90 dias subiu para 5,0% no trimestre, ante 4,1% no quarto trimestre de 2025. A de 90 dias ou mais recuou levemente, de 6,6% para 6,5%. Lago atribuiu o movimento à sazonalidade do primeiro trimestre — padrão histórico de pico na inadimplência inicial. Mas a comparação com o BB é inevitável: lá, a mesma sazonalidade virou deterioração estrutural.
No after market de Nova York, as ações NU tombaram mais de 10% logo após o balanço. O fluxo de saída veio de fundos quantitativos e hedge funds americanos que reposicionaram para baixo com base no miss de lucro e no ROE de 29% — abaixo dos 31% projetados e dos 33% do trimestre anterior. O BDR ROXO34 acompanhou no pregão doméstico.
A questão que fica sem resposta no balanço é se o modelo de provisão antecipada é um mecanismo de prudência ou um sinal de que o mix de crédito está migrando para perfis de risco mais alto. O Nubank tem 7% de market share em rentabilidade no varejo brasileiro — e afirma que o setor cresce 50% nos próximos cinco anos. Mas se o crescimento da carteira continuar exigindo provisões acima do ritmo de expansão da receita, o ROE vai comprimir mesmo com a base de clientes subindo.
O Ibovespa Entre Dois Medos
BB e Nubank representam vetores opostos do setor financeiro brasileiro — um banco estatal com carteira rural deteriorada, uma fintech digital com crescimento acelerado e provisões pesando. Que os dois decepcionaram na mesma semana comprime a leitura setorial e coloca o Ibovespa em posição peculiar.
Enquanto o crédito doméstico testava o mercado, a cúpula Trump-Xi em Pequim movia o apetite a risco global. O S&P 500 e o Nasdaq fecharam em recorde. A China confirmou a compra de 200 jatos da Boeing. Xi disse que não fornecerá armas ao Irã — que aceitou não desenvolver arsenal nuclear, segundo Trump. O petróleo Brent manteve-se acima de US$100 o barril, sustentado pela indefinição do Estreito de Ormuz.
Para o Brasil, o canal de transmissão é duplo. O apetite a risco global favorece fluxo para emergentes — e o Ibovespa fechou em alta de 0,72% na quinta, após queda de quase 2% na véspera com o escândalo político doméstico. Mas o petróleo acima de US$100 reedita a pressão inflacionária global que já está reposicionando as apostas de corte de juros do Fed — com Kevin Warsh indicado para substituir o presidente do Fed após a saída de Stephen Miran.
Warsh é conhecido por posições hawkish. Se assumir o Fed mantendo juros elevados, o diferencial de taxas entre Brasil e EUA comprime — o que reduz a atratividade relativa dos ativos domésticos para capital externo. O Ibovespa acima de 178 mil pontos reflete a recuperação de curto prazo, mas dois variáveis determinam o próximo movimento: se o NPL 90+ do BBAS3 superar 5,5% no 2T26, o setor bancário doméstico vai arrastar o índice; se o Fed manter os juros inalterados na próxima reunião, o fluxo externo sustenta o patamar atual.
O risco é que os dois se materializem juntos — deterioração do crédito doméstico e aperto monetário global simultâneos. A leitura que desafiaria esse cenário é se as provisões do Nubank, com crescimento de carteira de 40%, indicarem qualidade, não risco — e se o BB conseguir estabilizar a inadimplência do consignado antes do 3T26. A ausência de dividendos extraordinários do BB em 2026 já é consenso. O que ainda não está precificado é se o teto do novo guidance — R$22 bilhões — também vai virar piso.
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