BofA sai, XP compra Brasil a 8,4x lucro com R140 bi de bomba fiscal

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O Brasil mais barato em anos — e os grandes saindo pela porta

O Ibovespa fechou ontem, dez de junho, aos 168.619 pontos, marcando a oitava semana consecutiva de queda. Para encontrar uma sequência tão prolongada na história da bolsa brasileira, é preciso voltar a 1972, quando o índice caiu por dez semanas seguidas. Desde a máxima histórica de 199.354 pontos, registrada em abril deste ano, o recuo já passa de 15%.

O número que mais chama atenção, porém, não é o da queda. É o do preço. O múltiplo preço sobre lucro do Ibovespa foi comprimido de 10,5 vezes para 8,4 vezes. A XP Investimentos chama isso de pessimismo extremo e manteve sua projeção de 205 mil pontos para o final de 2026 — 22% de alta a partir do fechamento de ontem.

Ao mesmo tempo, o Bank of America rebaixou o Brasil de overweight para marketweight na sua carteira de América Latina. A equipe liderada por David Beker comunicou aos clientes que o ciclo de corte da Selic será, nas palavras do relatório, mais desafiador e limitado. O BofA, que antes projetava Selic em 13,25% no final de 2026, agora trabalha com 14,25% — apenas um corte em junho, seguido de uma pausa longa. Os riscos de inflação estão inclinados para cima, segundo o banco, por conta da fraqueza do real e da volatilidade que o calendário eleitoral tende a trazer.

O UBS já havia cortado sua recomendação para o Brasil de atrativa para neutra no fim de maio. O BofA seguiu o mesmo caminho. No portfólio revisado, o banco americano mantém preferência por Bradesco, Itaú Unibanco e BTG Pactual, trocou Copel por Equatorial e retirou Sabesp, Ecorodovias e Anima da carteira recomendada.

A XP e o BofA observam os mesmos dados. Chegam a conclusões opostas. A premissa não declarada do BofA é que um ciclo de Selic mais alto por mais tempo remove o principal catalisador doméstico da bolsa. A premissa não declarada da XP é que o valuation em 8,4 vezes lucro já precifica esse cenário adverso e cria margem de segurança suficiente para entrada. Essas duas premissas não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo — e o capital estrangeiro, que saiu, ainda não escolheu um lado.

Stuhlberger zerou o real — o Senado aprovou R$140 bilhões sem o aval do governo

Luis Stuhlberger, gestor do Fundo Verde, zerou suas posições em real em maio. O motivo declarado não foi doméstico. Em carta aos investidores, a Verde Asset argumenta que o excepcionalismo americano voltou: a economia dos Estados Unidos mostrou resiliência, o Federal Reserve pode manter juros elevados por mais tempo, e o avanço da inteligência artificial concentra capital nos ativos americanos. O fundo descreve esse retorno como a reversão de um ciclo de diversificação que havia trazido dinheiro estrangeiro para mercados como o Brasil em 2025 e no início de 2026.

O Ibovespa caiu 7,22% em maio. O Verde atribui essa queda diretamente à saída desse fluxo de repatriação. O fundo encerrou o mês com alta de 0,33%, contra CDI de 1,07%, mas no acumulado do ano sobe 7,76% contra CDI de 5,66%.

Enquanto Stuhlberger ajustava sua carteira com base no Fed e na dinâmica da inteligência artificial, o Senado brasileiro votava, no mesmo dez de junho, o Projeto de Lei 5.122 de 2023. A votação foi simbólica. O texto cria uma linha de crédito com recursos do Fundo Social do Pré-Sal para renegociação de dívidas rurais de produtores que tiveram perdas em pelo menos duas safras entre 2019 e 2025, com queda mínima de 30% na renda esperada.

O Ministério da Fazenda estima impacto de até 140 bilhões de reais nos próximos anos. A equipe econômica calculou que o volume total de operações envolvidas alcança 817 bilhões de reais ao longo de 13 anos. O ministro Dario Durigan fez um apelo direto ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, pedindo que a votação fosse adiada. Alcolumbre votou mesmo assim, citando compromisso público com os senadores. O texto agora retorna à Câmara dos Deputados, e o governo avalia vetar ou recorrer ao Supremo Tribunal Federal.

No mesmo plenário, a Comissão de Constituição e Justiça aprovou a PEC 65 de 2023, que transforma o Banco Central em entidade pública de natureza especial, insere o Pix na Constituição e proíbe a taxação de pessoas físicas na plataforma. A PEC ainda precisa de votação no plenário, sem data definida.

A sequência do dia revela a pressão de posição que os gestores domésticos enfrentam: a saída do capital estrangeiro por razões externas — o excepcionalismo americano de Stuhlberger — agora se combina com uma deterioração fiscal ativa por razões internas. Os dois vetores apontam na mesma direção para o real e para os juros longos. O que ainda não está resolvido é se o valuation em 8,4 vezes já incorpora essa combinação ou se ela ainda vai se aprofundar.

Petrobras nada contra a corrente — e o Brasil espera um gatilho para voltar

Em um dia em que o Ibovespa recuou 0,70% e as units do BTG Pactual lideraram as perdas com queda de 3,24%, a Petrobras apontou em direção oposta. As ações ordinárias, PETR3, subiram 1,50%. As preferenciais, PETR4, avançaram 1,17%. A estatal anunciou a aquisição de 50% do Bloco Itaimbezinho da norueguesa Equinor na Bacia de Campos, valor não divulgado, reforçando sua estratégia de recomposição de reservas após 2030. O petróleo tipo Brent fechou a 93,10 dólares por barril, alta de 1,8%, depois de o presidente Donald Trump declarar que o Irã demorou demais nas negociações.

O Itaú BBA mantém a Petrobras como preferência no setor frente à PRIO3, argumentando que a estrutura de capex da estatal suporta projetos mesmo com o barril a 45 dólares. A projeção central do banco é 85 dólares por barril ao final de 2026. Se o conflito no Oriente Médio se resolver ainda este ano — cenário-base do BBA —, o preço cede, mas o nível estrutural permanece acima do que se estimava no início do ano.

A Copasa tem a precificação do seu follow-on marcada para hoje. A oferta atraiu cerca de 200 ordens e demanda próxima de 50 bilhões de reais, múltiplas vezes o volume ofertado. O apetite existe, mas está concentrado em ativos específicos com tese clara — privatização, recomposição de reservas, proteção cambial via commodities.

A pesquisa Genial e Quaest mostrou Lula com 44% das intenções de voto contra 38% de Flávio Bolsonaro no segundo turno. O dado alimentou a negatividade sobre o mercado ao longo do pregão, segundo operadores, adicionando prêmio de risco eleitoral à curva.

O quadro que fica para os próximos dias é o seguinte: a bolsa está no valuation mais comprimido em anos, mas três forças simultâneas — saída do capital estrangeiro, deterioração fiscal sem acordo e repricing da Selic para 14,25% — mantêm o fluxo comprador afastado. A condição de continuidade da queda é a confirmação de que o ciclo de cortes da Selic está encerrado: se o Focus de segunda-feira elevar ainda mais as projeções para a Selic terminal, o prêmio de risco permanece alto e o múltiplo pode comprimir além de 8 vezes. A condição de reversão, pelo lado oposto, não é um único evento — é uma combinação: desescalada no Oriente Médio que derrube o petróleo e reduza a pressão inflacionária, mais um sinal fiscal concreto do governo antes de a pauta-bomba voltar à Câmara.

Stuhlberger zerou o real por causa do excepcionalismo americano, não por causa da bomba fiscal. Mas agora as duas forças operam juntas. O que o mercado ainda não precificou com clareza é se elas são cumulativas — ou se uma delas vai ceder primeiro.

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