Bradesco BBDC4|Compra do próprio banco que recomenda, mas mercado desconfia
O maior debate do setor
O Bradesco negocia hoje próximo de uma vez o seu valor patrimonial e a seis vezes o lucro, um múltiplo que o Itaú BBA considera barato demais para o crescimento que projeta. A própria casa que recomenda a compra da ação, com preço-alvo de vinte e dois reais, chama o papel de o maior debate entre os grandes bancos do país.
A pergunta que o próprio relatório levanta é direta: desta vez será diferente? Porque a mesma equipe que assina a recomendação de compra reconhece, no mesmo texto, que boa parte dos investidores segue cética em relação à tese do banco.
O Itaú BBA projeta um lucro por ação crescendo cerca de quinze por cento, com melhora do retorno sobre patrimônio, e mantém uma estimativa de lucro seis por cento acima do consenso de mercado para este ano e quatro por cento acima para o ano seguinte. É uma aposta explicitamente contra a média das expectativas do setor.
Por que o mercado desconfia
A tese otimista do BBA se apoia em dois pilares: uma carteira de crédito que a casa considera menos cíclica do que no passado, e o segmento de seguros, que já responde por mais de quarenta por cento dos lucros do Bradesco e segue crescendo em ritmo de dois dígitos.
Só que essa mesma equipe de análise admite, no relatório, que o mercado tem pouco conforto com a projeção do Bradesco para a expansão da margem ajustada ao risco neste ano, e menos conforto ainda com a perspectiva para dois mil e vinte e sete caso a economia desacelere de forma mais abrupta.
Em outras palavras, a tese de compra do BBA só se sustenta se o Bradesco não sofrer revisões negativas de resultado adiante. O ceticismo do mercado, portanto, não é sobre o presente do banco, mas sobre uma premissa futura que ainda precisa se confirmar trimestre a trimestre.
A preocupação com o ciclo de crédito até diminuiu um pouco, puxada por dados de inflação mais moderados, mas o próprio BBA reconhece que essa nuvem continua sobre o setor inteiro. O que muda o quadro para o Bradesco especificamente é como ele se compara aos pares.
O contraste com os concorrentes
Depois de dispararem em abril, as ações dos grandes bancos devolveram boa parte dos ganhos. O Banco do Brasil caiu quase sete por cento, o Santander recuou dezoito por cento, enquanto o Bradesco terminou o trimestre praticamente estável, no zero a zero.
Para Banco do Brasil e Santander, o Itaú BBA mantém uma visão explicitamente negativa e não descarta uma nova rodada de piora nas expectativas para os dois papéis. A diferença é que, para múltiplos parecidos de preço sobre valor patrimonial e preço sobre lucro, e com dividendos ainda maiores, a casa afirma preferir estar no Bradesco.
O argumento por trás dessa preferência é que o Bradesco carrega hoje o portfólio de crédito menos cíclico dos três bancos, o que reduziria sua exposição caso a economia desacelere mais do que o esperado no próximo ano. É essa característica que sustenta a aposta relativa contra Banco do Brasil e Santander.
O que decide a tese
A variável que decide se essa tese se confirma não é um único balanço, mas a execução trimestral consistente da expansão da margem ajustada ao risco que o BBA já embutiu em sua estimativa de lucro seis por cento acima do consenso. É esse número, resultado após resultado, que confirma ou derruba a premissa.
O próprio Itaú BBA afirma que, se a execução continuar no caminho certo, espera que o ceticismo dos investidores diminua gradualmente e que a ação passe por uma reprecificação. Esse é o cenário que transforma o atual desconto em oportunidade de entrada.
Para quem já tem o papel, o ponto de observação é se a margem ajustada ao risco confirma a trajetória de crescimento em cada trimestre que passa. Para quem está de fora e considera entrar contra o consenso do mercado, o sinal de alerta é uma desaceleração econômica mais abrupta em dois mil e vinte e sete, o cenário que a própria casa reconhece como a condição que transformaria essa aposta otimista em armadilha.