Bradesco lucro sobe, ação cai|A virada já perdeu força?
A queda não encerra a recuperação
A queda de 2,33% da BBDC4 depois de um lucro recorrente de R$ 7,05 bilhões não significa que a recuperação acabou. O que o segundo trimestre mudou foi o foco: o Bradesco voltou a provar que consegue gerar receita, mas ainda não provou que o custo do crédito ficará sob controle. A dúvida é se a piora dos indicadores de crédito é um ruído específico ou o começo de uma pressão capaz de consumir a recuperação nos próximos trimestres.
O balanço operacional ainda avançava
No segundo trimestre, o lucro recorrente cresceu 16,2% em um ano, o ROAE chegou a 16,2% e o banco completou dez trimestres consecutivos de expansão do resultado. A carteira de crédito avançou 11,6%, para cerca de R$ 1,14 trilhão, enquanto a margem financeira bruta cresceu 15,7%. Receitas maiores, spreads resilientes e despesas operacionais sob controle reforçaram a leitura de que a reestruturação do banco continuava funcionando.
A tese positiva já estava no preço
Essa era justamente a interpretação que vinha ganhando força. A XP havia projetado o Bradesco como uma das principais surpresas positivas entre os grandes bancos, apostando em crescimento saudável nas linhas com garantia e estabilidade na qualidade dos ativos. Na semana anterior, porém, o aumento de capital de até R$ 10 bilhões já havia dividido os analistas entre duas leituras: o banco poderia estar aproveitando uma oportunidade para crescer, mas também poderia estar reforçando o balanço porque seus índices de capital estavam mais apertados.
O crédito trouxe a conta
O balanço trouxe a parte que essa narrativa ainda não resolvia. A inadimplência acima de 90 dias subiu para 4,3%, ante 4,2% no trimestre anterior. Entre pessoas físicas, chegou a 5,5%; nas micro, pequenas e médias empresas, ficou em 4,4%. Ao mesmo tempo, as despesas com provisões cresceram 21,4% em um ano, para quase R$ 10 bilhões, e o índice de cobertura caiu de 161% para 152,3%. Um lucro maior, portanto, não veio acompanhado de uma melhora equivalente na proteção contra perdas futuras.
Lucro hoje, provisão amanhã
É por isso que a reação negativa da ação não contradiz necessariamente o resultado. A receita cresce quando o banco empresta mais e cobra spreads melhores. Mas, se parte dessa expansão amadurece em um ambiente de renda comprometida e juros ainda elevados, o crédito que impulsionou a margem pode produzir provisões mais adiante. O mercado não está olhando apenas para o lucro realizado; está tentando estimar quanto dele permanecerá depois que os contratos de maior risco forem reconhecidos.
A explicação pode ser temporária
Há uma segunda leitura, menos pessimista, que impede uma conclusão precipitada. O Bradesco atribuiu parte da alta do custo do crédito à dinâmica de provisionamento de programas emergenciais, a operações ligadas ao FGI e ao FGO e à carteira de crédito rural. A administração também afirmou ter direcionado o crescimento para linhas mais garantidas, como consignado, financiamento imobiliário e veículos. Nas grandes empresas, a inadimplência permaneceu em apenas 0,4%. Se essa explicação prevalecer, a deterioração atual pode ser concentrada e temporária, enquanto a mudança no perfil da carteira reduz o risco à frente.
Mas a defesa ainda não prova nada
Mas essa defesa ainda não encerra a questão. Os dados disponíveis não quantificam quanto da piora veio desses programas específicos e quanto reflete uma deterioração mais ampla entre pessoas físicas e pequenas empresas. Também não mostram, neste momento, se a queda da cobertura será interrompida no próximo trimestre ou se continuará acompanhando a expansão da carteira. A explicação do banco é plausível, mas não é uma prova de que o problema ficará restrito a poucos contratos.
O próximo teste está no guidance
O próprio guidance ajuda a definir o próximo teste. O Bradesco espera que o crescimento da carteira desacelere gradualmente e convirja, até dezembro, para a faixa de 8,5% a 10,5% prevista para 2026. Isso significa que o banco não pretende simplesmente acelerar o volume para sustentar o lucro. O ponto decisivo será observar se essa desaceleração reduz a pressão sobre provisões sem derrubar a margem financeira e a rentabilidade.
A virada precisa de qualidade
Para quem já acompanha o papel, a principal revisão é abandonar a leitura de que dez trimestres de lucro crescente bastam para confirmar uma virada completa. A recuperação operacional existe, mas agora precisa ser acompanhada pela qualidade dessa recuperação: inadimplência, custo do crédito, cobertura e composição das novas operações. Para quem está apenas observando, o preço descontado e o ROAE acima do custo de capital podem explicar o interesse de parte dos analistas, mas não eliminam o risco de execução no crédito.
A recuperação ainda é condicional
O julgamento mais forte que os dados permitem hoje é condicional: o Bradesco está recuperando sua capacidade de gerar resultado, mas o segundo trimestre mostrou que essa recuperação ainda depende de o banco atravessar um ciclo de crédito difícil sem transformar crescimento em perdas. O próximo balanço poderá fortalecer essa tese se a cobertura estabilizar e o custo do crédito recuar; poderá enfraquecê-la se a inadimplência continuar subindo apesar da maior concentração em linhas garantidas. O que permanece desconhecido é justamente a parcela da deterioração que é específica e passageira — e a parcela que representa uma pressão estrutural sobre a carteira.
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