Braskem BRKM5|Spreads disparam, mas prazo de 3 semanas decide o destino
O paradoxo do 2T26
A Braskem anunciou nesta semana que suas vendas caíram no segundo trimestre de 2026, mas os chamados spreads petroquímicos, a diferença entre o preço do produto final e o custo da matéria-prima, dispararam 69% em resinas e 67% nos principais químicos no Brasil. As ações fecharam em alta de 3,7%, cotadas a R$ 5,93, superando o Ibovespa no dia. É o tipo de resultado que parece contar uma história de recuperação.
Mas o outro lado do resultado incomoda quem olha com mais cuidado. As vendas de principais químicos caíram 5%, as de resinas 8%, e as de polietileno verde no Brasil recuaram 19%. No México, a queda foi de 20%. A taxa de utilização das instalações no país caiu de 74% para 70% no período. A empresa mesma admitiu que manteve os níveis de produção apesar da volatilidade internacional, sem saber quanto tempo o conflito que sustenta os spreads vai durar.
O resultado operacional melhorou de forma real e mensurável. Isso é fato. A pergunta que fica em aberto é se essa melhora é suficiente para mudar o destino financeiro da companhia, ou se ela resolve apenas um sintoma, deixando intacto o problema mais grave que a Braskem carrega.
A guerra que turbina os spreads
A origem do choque está fora do Brasil. O início do conflito no Oriente Médio elevou a volatilidade nos preços de energia e nas matérias-primas petroquímicas em todo o mundo, impactando positivamente os spreads internacionais da Braskem, segundo o próprio CEO da companhia, Roberto Ramos. É um vento a favor vindo de fora, não uma melhora estrutural da empresa. Enquanto isso, a alavancagem financeira da Braskem encerrou o primeiro trimestre em 16,81 vezes medida em dólares, ante 7,98 vezes um ano antes.
Analistas do Bradesco BBI avaliam que o Ebitda recorrente da Braskem pode ultrapassar 2 bilhões de dólares neste ano, caso a guerra se estenda até o segundo semestre. Só que essa projeção depende de um evento geopolítico fora do controle da empresa e de seus credores continuarem, o que significa que a melhora operacional que anima o mercado hoje está amarrada a uma variável que ninguém consegue prever ou controlar.
Por isso a melhora nos spreads, mesmo sendo real, não resolve sozinha o problema de fundo. Uma dívida da magnitude que a Braskem carrega não se resolve com um trimestre favorável impulsionado por um conflito externo; ela se resolve com uma reestruturação de capital, e é exatamente aí que a história trava.
O impasse com os credores
Os detentores de títulos de dívida em dólar, os bondholders, insistem que a empresa precisa se desalavancar imediatamente e propõem aportar recursos, mas exigem em troca a entrega de praticamente todos os ativos da companhia como garantia. Do outro lado, os atuais acionistas, a gestora IG4 Capital e a Petrobras, sinalizam que não pretendem colocar dinheiro novo na Braskem. A Petrobras, segundo apurou o Valor, não quer elevar sua participação para evitar consolidar passivos adicionais em seu balanço.
O tom das negociações é duro. Uma fonte próxima à empresa afirmou que estão prontos para ir para a recuperação judicial e derreter o valor dos bonds. Já uma fonte ligada aos bondholders rebateu que os credores não querem reestruturação, querem o dinheiro de volta. Uma proposta extrajudicial anterior, que previa três anos de carência e cinco anos adicionais de prazo sem descontos, já foi rejeitada pelos principais detentores dos títulos.
A situação hoje é a seguinte: os bancos estão mais favoráveis à proposta em discussão, mas sozinhos não alcançam o um terço da dívida total necessário para que o acordo seja assinado. É preciso convencer os bondholders relutantes a topar o acordo, ou pelo menos a aceitar estender as negociações por mais três meses.
O prazo que decide
Segundo coluna publicada nesta sexta-feira, a negociação da Braskem com os credores precisa ser fechada em até três semanas. A empresa está protegida desde o fim de junho por uma tutela cautelar de 60 dias, que já permitiu adiar cerca de 2,7 bilhões de reais em obrigações financeiras ligadas a títulos internacionais. Esse prazo é o verdadeiro relógio da história, não o resultado trimestral.
Para quem acompanha as reuniões de perto, o cenário mais provável não é a recuperação judicial, e sim a Braskem conseguir o aval para uma recuperação extrajudicial, ganhando mais 90 dias para fechar um acordo definitivo. Mas essa leitura pressupõe convencer bondholders que até agora rejeitaram a proposta anterior, o que continua sendo o ponto mais incerto de toda a negociação.
No fim, a Braskem entrega neste trimestre exatamente o tipo de número que costuma acalmar o mercado, mas o desfecho da empresa não vai ser definido pelos spreads que a guerra no Oriente Médio empurrou para cima. Vai ser definido nas próximas três semanas, na mesa de negociação com os bondholders, onde a melhora operacional pesa menos do que a disposição dos credores em ceder.
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