BRKM5 com proteção de 60 dias|Citi aponta mais -50% e credores ainda podem acionar vencimento antecipado

· B3

O alívio que não é alívio

A Braskem conseguiu 60 dias de proteção judicial contra cobranças de credores financeiros — e as ações caíram mais 11% no mesmo pregão. O paradoxo tem uma explicação precisa: a proteção judicial não é o que parece. O juiz Guilherme Lamêgo suspendeu execuções e bloqueios por 60 dias, mas negou expressamente o pedido de impedir que credores acionem cláusulas contratuais de vencimento antecipado ou rescisão. Isso significa que um credor pode declarar o vencimento antecipado de seu contrato agora mesmo — o que não pode fazer é executar a cobrança enquanto a proteção vigorar. A distinção é fundamental para quem segura BRKM5, porque o gatilho mais perigoso do passivo de R$54,8 bilhões permanece acessível aos credores durante os próximos 60 dias. Não é uma janela de paz; é uma janela de contenção parcial, com o relógio correndo. O Citi atualizou sua análise no dia 27 de junho e rebaixou a recomendação de neutra para venda com risco elevado, reduzindo o preço-alvo de R$11,50 para R$4,50 — uma queda implícita de quase 50% sobre o fechamento anterior. O banco argumenta que o Projeto Catalyst produziu efeito oposto ao pretendido: ao ser rejeitado pelos credores e forçar a busca de proteção judicial, a proposta elevou as dúvidas sobre a capacidade de atravessar a crise sem uma reestruturação de amplitude muito maior. Esse é o ponto de entrada para entender por que o impasse com os credores chegou a este nível.

Por que o Projeto Catalyst foi rejeitado e o que os documentos revelam

A Braskem apresentou aos credores o Projeto Catalyst com três frentes: estender todos os vencimentos em cinco anos, reduzir o cupom em 2 pontos percentuais e ter a opção de pagar 100% dos juros em PIK — diferindo o desembolso em dinheiro até dezembro de 2028. Em troca, a empresa não oferecia dinheiro novo, não dava garantia sobre ativos e não aceitava qualquer redução de principal. O comitê ad hoc de bondholders — que reúne Capital Group, AllianceBernstein, Elliott Investment Management e Strategic Value Partners — chamou a proposta de "wholly unsatisfactory" e afirmou que reduzir cupom em uma reestruturação corporativa seria algo "inaudito", questionando a seriedade com que a Braskem conduziu as negociações. A posição dos credores era oposta em quase todos os aspectos: qualquer concessão em prazo precisaria ser compensada com aumento de cupom, não redução. O JPMorgan foi direto: a proposta não ataca o problema central, que é a alavancagem de 6,4 vezes dívida líquida sobre EBITDA projetada para os próximos anos — nível que permaneceria elevado mesmo após a aprovação do plano. Aqui está a assunção enterrada que ninguém nomeou abertamente: o Projeto Catalyst presume que o problema da Braskem é de liquidez de curto prazo, não de solvência estrutural. Os credores rejeitam exatamente essa premissa. Enquanto a Braskem argumenta que precisa de fôlego para atravessar um ciclo petroquímico difícil, os bondholders enxergam uma empresa com dívida líquida de US$8,5 bilhões e patrimônio líquido negativo de R$16,5 bilhões cujo período de ciclo favorável pode não ser suficiente para reequilibrar o balanço. A entrada de Elliott e SVP — fundos especializados em situações de distress — comprou posição justamente para negociar condições mais duras, não para facilitar um acordo. Essa divergência de diagnóstico é o que tornou três rodadas de negociação improdutivas e é o que torna as próximas semanas decisivas. Sem que um dos lados mude de premissa — ou que um terceiro ator entre com uma contribuição concreta — o impasse se perpetua.

Petrobras como variável não declarada — e o prazo que decide tudo

Os credores colocaram uma exigência explícita nas negociações: a Petrobras, como acionista controladora com 47% da empresa, deve participar diretamente e contribuir com algum tipo de burden-sharing. O JPMorgan nomeou o ponto com precisão: apesar de maior presença na governança após a entrada da IG4, a Petrobras ainda não apresentou contribuições concretas para a reestruturação financeira ou melhora das condições operacionais. A estatal fornece cerca de 50% da nafta utilizada pela Braskem no Brasil — melhores condições comerciais de prazo ou volume garantido poderiam aliviar diretamente a pressão de capital de giro sem exigir injeção de caixa. Não há indicação nos artigos de que a Petrobras tomou qualquer decisão nesse sentido até agora. Isso significa que a variável que mais pode mover o desfecho das negociações é a que está mais silenciosa no debate público. O prazo imediato é 5 de julho — data que a Braskem definiu para medir a adesão inicial de pelo menos 33% dos credores por classe de dívida. Sem esse patamar mínimo, o plano de recuperação extrajudicial não pode ser protocolado e a empresa apontou explicitamente que, nesse cenário, a recuperação judicial se torna o caminho a considerar. Na recuperação judicial, o poder de barganha dos credores aumenta significativamente — todas as dívidas entram no processo e a interferência judicial é maior. Para o holder de BRKM5, o gatilho a observar antes de qualquer decisão não é o fechamento das ações nos próximos dias. É se a Petrobras faz algum movimento concreto de burden-sharing antes de 5 de julho — ou se os bondholders sinalizam flexibilização sobre a exigência de aumento de cupom. Se um desses dois movimentos ocorrer, a tese de reestruturação extrajudicial permanece viva e o piso de R$4,50 do Citi pode se mostrar conservador. Se nenhum dos dois ocorrer, o mercado passa a precificar recuperação judicial — e nesse cenário, com dívida preferencial de R$54,8 bilhões antes dos acionistas, o valor residual para BRKM5 se aproxima de zero.

Link copied