BTG Pactual top pick Itaú BBA|Selic 14,5% e risco de crédito R 99 bi

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O Setor Financeiro que se Partiu em Dois

O primeiro semestre de 2026 produziu uma fratura incomum no setor bancário brasileiro. De um lado, BTG Pactual e Itaú acumulam altas de 3,52% e 2,24% no ano. Do outro, Santander despenca 16,52%, Nubank derrete 23,78% e Inter perde 27,59%. Essa não é uma diferença marginal. É uma ruptura estrutural na percepção de risco. O motivo de fundo é o fluxo de capital estrangeiro. Nos primeiros quatro meses de 2026, investidores estrangeiros trouxeram R$ 56,5 bilhões para a B3. Janeiro foi o maior mês de entrada da série histórica, com R$ 27,7 bilhões em um único mês. Esse fluxo concentrou-se nas large caps de maior liquidez, beneficiando principalmente as grandes posições do índice. Mas em maio o sinal inverteu. Até meados de maio, estrangeiros já haviam retirado R$ 10,5 bilhões da bolsa. O impacto não foi uniforme. Bancos como Santander, que já vinham com balanços abaixo do esperado, amplificaram as perdas. O banco espanhol havia reportado resultados fracos no quarto trimestre de 2025 e no primeiro trimestre de 2026. A inadimplência subiu. As provisões pesaram. A reação do mercado foi severa. No Bradesco, as despesas com provisões para devedores duvidosos saltaram 26,5% no confronto anual, chegando a R$ 9,7 bilhões. O lucro líquido conjunto dos quatro grandes bancos caiu 5,83% no primeiro trimestre de 2026. Foi a primeira retração trimestral desde o quarto trimestre de 2023. Nesse ambiente de deterioração relativa, o BTG se destacou como exceção. E o mercado agora se pergunta se essa exceção está sendo precificada corretamente.

Os Quatro Catalisadores que Elevaram o BTG

O Itaú BBA publicou relatório nesta semana em que elevou o BTG Pactual à condição de principal aposta do setor financeiro brasileiro. A decisão não foi baseada em um único fator. Foram pelo menos quatro linhas de tese que convergem ao mesmo tempo. A primeira é a diversificação de receita em um ambiente de desaceleração. Enquanto XP Inc. depende fortemente de renda variável — segmento que perdeu tração em 2026 — o BTG compensou com crédito corporativo, gestão de patrimônio e banco de investimento. A divisão de negociação de ativos financeiros teve desempenho sólido em meio à volatilidade do mercado. A segunda é a expansão acelerada em crédito consignado privado. O Itaú BBA classifica o BTG como um dos participantes mais relevantes nesse segmento no Brasil. A carteira de crédito ao consumidor, impulsionada pela consolidação do Banco Pan e pela plataforma Meu Tudo, deve alcançar R$ 99 bilhões em 2026 e R$ 125 bilhões em 2027. Isso representaria uma fonte adicional de lucros relevante em um ciclo de juros ainda elevados. A terceira é a revisão de earnings. Os analistas do Itaú BBA aumentaram em 3% as projeções de lucro do BTG. A estimativa agora é de lucro ajustado de R$ 20,5 bilhões em 2026 e R$ 23,5 bilhões em 2027. A quarta é o valuation relativo. Com BTG negociando próximo às mínimas do ano e múltiplos abaixo da média histórica, o Itaú BBA avalia que o desconto atual não reflete o ritmo de crescimento e a rentabilidade do banco. Somados, esses quatro vetores constroem a tese de que o BTG está em posição estruturalmente diferenciada. O mercado de capitais pode ter perdido força, mas o BTG diversificou o suficiente para não depender apenas desse vetor. Há uma premissa implícita nessa tese, no entanto, que vale nomear. O Itaú BBA assume que a expansão em crédito ao consumidor do BTG ocorrerá sem deterioração significativa da inadimplência. Essa premissa é razoável no crédito consignado privado, onde o débito em folha reduz o risco. Mas ela pressupõe que o ciclo de juros não se prolongue além do que o mercado já precifica. E é exatamente esse ponto que o Copom de junho vai testar.

O Copom de Junho e o Risco que a Tese Ainda Não Precificou

A reunião do Comitê de Política Monetária marcada para os dias 16 e 17 de junho não é uma formalidade. É o ponto de inflexão mais relevante para o setor financeiro brasileiro neste momento. O IPCA de maio veio em 0,58%, superando as projeções do mercado, que variavam entre 0,52% e 0,55%. No acumulado de doze meses, a inflação atingiu 4,72%, rompendo o teto da meta de 4,5%. Em abril, esse número era de 4,39%. A inflação não apenas permanece acima do teto. Ela voltou a acelerar. Alimentos e bebidas subiram 1,33%, respondendo por praticamente metade da inflação do mês. Energia elétrica residencial subiu 3,67%, pressionada pela bandeira tarifária amarela. Do lado positivo, combustíveis trouxeram alívio e o grupo de serviços mostrou desaceleração marginal. A média dos cinco principais núcleos de inflação recuou de 0,50% em abril para 0,45% em maio. Esse dado benigno nos serviços é o que divide o mercado. Uma ala acredita que abre espaço para um corte final de 0,25 ponto percentual. A outra ala, reforçada agora pelo BofA, defende que junho deve ser o último corte — ou que não deve haver corte algum. O BofA revisou sua projeção e passou a enxergar a Selic terminando 2026 em nível mais elevado do que o previsto anteriormente. O próprio BTG Pactual, em análise macroeconômica desta semana, destacou que o conflito no Oriente Médio tornou o balanço de riscos mais complexo para os bancos centrais. As taxas dos DIs saltaram mais de 40 pontos-base e atingiram o maior nível em mais de um ano. O dólar fechou a R$ 5,15, o maior patamar em dois meses, impulsionado pelo payroll americano de 172 mil vagas em maio, acima do esperado. Esse conjunto de dados cria o risco de segunda ordem que a tese de expansão do BTG ainda não precificou completamente. Uma carteira de crédito ao consumidor de R$ 99 bilhões é uma fonte de lucro relevante. Mas também é exposição a inadimplência em um ambiente de juros altos por mais tempo. O crédito consignado privado tem proteção pelo desconto em folha. Mas outros segmentos da carteira do Banco Pan não têm essa proteção. Se o Copom sinalizar pausa prolongada com discurso duro, o diferencial do BTG em crédito de alto retorno precisará ser reavaliado contra o risco implícito nessa carteira. Se o corte vier com sinalização cautelosa e os núcleos de serviços seguirem desacelerando, o BTG mantém a posição de ativo mais bem posicionado do setor. O mercado está precificando a primeira leitura com dúvida e a segunda com cautela. O IPCA de junho, divulgado antes do próximo Copom, e a decisão de 16 e 17 de junho são os dois pontos de verificação concretos para avaliar se a tese do Itaú BBA se sustenta ou se a expansão em crédito ao consumidor importou um risco que o upgrade ainda não capturou.

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