CEAB3 e RIAA3 sob pressão|Shein já ganhava sem o imposto

· B3

A vantagem que já existia

A narrativa mais óbvia sobre o fim da taxa das blusinhas é que Shein e Shopee recuperaram uma vantagem de preço que haviam perdido. Essa narrativa está incompleta — e essa incompletude é o que importa para quem carrega posição em CEAB3 ou RIAA3.

O dado que reorganiza o argumento é este: mesmo com o imposto de 20% em plena vigência, a Shein operava 6% mais barata que a Riachuelo, 10% abaixo da Renner, e 13% abaixo da C&A, segundo levantamento do BTG Pactual. O imposto não eliminava a vantagem competitiva das plataformas asiáticas — ele apenas a reduzia.

Isso significa que a proteção tarifária nunca foi suficiente para nivelar o campo. O custo de fabricação na China é estimado em cerca de um terço do custo no Brasil, uma assimetria estrutural que o imposto de 20% cobria apenas parcialmente.

O que a revogação faz, portanto, não é inverter uma situação de equilíbrio — é ampliar um desequilíbrio que já existia. Para o capital posicionado em CEAB3 e RIAA3, a mudança relevante é de grau, não de direção.

A escala do retrocesso fica clara quando se olha para o volume de remessas internacionais: antes da taxação, mais de 18 milhões de encomendas de baixo valor chegavam ao Brasil por mês. Com o imposto, o volume caiu para 11 milhões no fim de 2024. Mas as plataformas absorveram parte dos custos, e o volume já havia voltado para uma faixa entre 15 e 17 milhões mensais — ainda com o imposto ativo. Agora, sem o imposto, o patamar de 18 milhões não é um teto: é o piso de referência para a nova demanda.

O CEO da Riachuelo, André Farber, foi direto: "É impossível falar em competição justa quando o Brasil impõe custos cada vez maiores para quem produz, emprega e investe localmente." Farber descreve a situação como "um incentivo chinês dentro do mercado brasileiro" — e a frase não é retórica. Empresas instaladas no Brasil pagam 35% de imposto de importação, mais 11,25% de PIS/Cofins, mais toda a carga trabalhista local. O cross border segue acessando o mercado brasileiro em condições estruturalmente mais favoráveis.

O que isso força como pergunta seguinte não é se CEAB3 e RIAA3 estão sob pressão — isso já estava precificado parcialmente. A questão é se o mercado está calibrando corretamente a magnitude dessa pressão sobre os múltiplos dessas ações. E é aí que os analistas divergem.

O repricing de risco

O Bank of America foi o primeiro banco a traduzir o evento em revisão de múltiplos, e a intensidade dos cortes sinaliza que o mercado estava precificando um cenário mais favorável do que o que se materializou.

O BofA rebaixou Lojas Renner de compra para neutro, reduzindo o preço-alvo de R$ 20 para R$ 16 — uma compressão de múltiplo de 11 para 9,5 vezes o lucro, com desconto explícito em relação à média histórica e aos pares globais. O argumento central do analista Robert Ford é que "a acessibilidade de preços terá forte apelo junto aos consumidores de renda baixa e média da Renner, especialmente à medida que as ofertas ganham escala." Em outras palavras: o problema não é pontual. É estrutural e se aprofunda à medida que as plataformas internacionais ampliam penetração.

Para a Riachuelo, o vetor de pressão mais imediato é a combinação de uma base de consumidores sensível a preço com uma exposição de produto que compete diretamente na faixa de até US$ 50 — o coração do segmento atacado pela revogação. O IDV, instituto que representa o varejo, é categórico: a carga tributária sobre produtos nacionais nessa faixa chega a 92%, contra zero de imposto federal para o importado de até US$ 50. Se essa assimetria não for corrigida por outros mecanismos, ela se torna um teto sobre a capacidade de repassar custos de CEAB3 e RIAA3.

O BTG Pactual, por sua vez, mantém uma leitura menos pessimista do que o BofA — e esse conflito entre bancas é o sinal mais relevante do momento. O BTG reconhece que a mudança "reabre o debate sobre a assimetria competitiva," mas argumenta que o varejo brasileiro está mais preparado do que estava em 2023 e 2024. Gestão de estoque melhorou, disciplina em promoções avançou, integração entre lojas físicas e digital progrediu. A questão é se esses ganhos operacionais são suficientes para compensar um repricing de preços que agora ocorre em um patamar menor de proteção tarifária.

A perda fiscal estimada pela equipe econômica do governo confirma a escala do que está em jogo: R$ 1,94 bilhão só em 2026, subindo para R$ 3,54 bilhões em 2027 e R$ 4,24 bilhões em 2028. Esses números representam a transferência de poder de compra que migra para plataformas internacionais — e que sai da base potencial de receita do varejo nacional.

O BTG e o BofA concordam em um ponto: a disputa já não é só de vestuário. Beleza, acessórios eletrônicos, decoração e artigos esportivos já estão no perímetro de competição das plataformas asiáticas. Para CEAB3 e RIAA3, isso significa que a diversificação de mix — estratégia que ambas vinham perseguindo — enfrenta pressão simultânea em múltiplas categorias.

Mas aqui surge o ponto que o fluxo de rebaixamentos ainda não está endereçando diretamente.

O que o mercado ainda não precificou

O risco que está sendo precificado agora é o risco de competição — mais remessas, preços mais baixos, pressão de margem. Esse risco é real. Mas existe um segundo vetor de risco que não aparece nos relatórios do BofA ou do BTG, e que é potencialmente mais corrosivo para CEAB3 e RIAA3 no médio prazo: o risco de instabilidade regulatória.

A Medida Provisória 1.357 tem força de lei imediata, mas exige aprovação do Congresso em até 120 dias para se tornar definitiva. Caso o Congresso não a aprove, a cobrança volta automaticamente. Esse cenário não é apenas hipotético: 53 entidades representando varejo, indústria e trabalhadores já se posicionaram publicamente contra a revogação. O manifesto inclui CNI, CNC, IDV e centrais sindicais — uma coalizão política com peso real em Brasília.

O que isso cria para os investidores de CEAB3 e RIAA3 é um ambiente de incerteza regulatória com ciclo curto e decisões de alta visibilidade eleitoral. Ricardo Motta, especialista em direito do consumidor, aponta o problema estrutural: o Brasil não consegue regular mercados digitais sem oscilar. O imposto foi criado em 2024, revogado em 2026, e pode voltar ainda em 2026 dependendo do Congresso. Cada oscilação cria um custo real de planejamento para varejistas nacionais — e um prêmio de risco adicional para seus acionistas.

Este é o ponto que a maioria das análises ainda não está endereçando diretamente: a volatilidade regulatória não é só um risco de curto prazo. É um sinal sobre a qualidade do ambiente competitivo de longo prazo no qual CEAB3 e RIAA3 operam.

Há um dado que ancora esse argumento: a taxa das blusinhas arrecadou R$ 9,6 bilhões desde agosto de 2024. Esse volume fiscal estava crescendo — R$ 1,78 bilhão só nos quatro primeiros meses de 2026, alta de 25% sobre o mesmo período de 2025. O governo está abrindo mão de uma fonte de arrecadação em expansão, em um contexto em que a meta fiscal para 2026 é de superávit de 0,25% do PIB. Essa tensão entre popularidade eleitoral e disciplina fiscal é o vetor que pode forçar uma reversão da MP no Congresso — ou gerar pressão por outras compensações que recaem sobre o setor produtivo nacional.

Para CEAB3 e RIAA3, portanto, o cenário não é binário entre "imposto volta" ou "imposto não volta." É um cenário de incerteza prolongada sobre as regras do jogo, que por si só deprime o apetite de capital para o setor.

Cenários e onde está o piso

O cenário consensual — que o mercado já está parcialmente descontando — é de pressão contínua sobre margens de CEAB3 e RIAA3, com recuperação condicionada à capacidade de cada empresa de diferenciar produto e experiência de compra para além da competição de preço puro.

O BTG aponta que o varejo brasileiro hoje está mais disciplinado do que em 2023: estoque mais enxuto, promoções mais controladas, digital avançando. Esse argumento sugere que o piso de rentabilidade de CEAB3 e RIAA3 é mais alto hoje do que era na primeira onda de expansão das plataformas asiáticas. Se a tese do BTG estiver correta, e se o Congresso aprovar a MP tornando a revogação permanente, o setor precifica um ajuste de nível — mas não uma degradação estrutural irreversível.

O cenário adverso, que o BofA implicitamente sinaliza ao cortar múltiplo para 9,5 vezes na Renner, é de que o consumidor de renda baixa e média migra com velocidade maior do que as varejistas conseguem reter via diferenciação. Nesse cenário, a perda de participação de mercado se torna autorreforçante — queda de receita comprime margem, que comprime investimento em digital e diferenciação, que acelera migração de consumidores.

O threshold que diferencia esses dois caminhos é observável: o volume mensal de remessas internacionais. Se o volume, que estava entre 15 e 17 milhões ao mês com o imposto, voltar ao patamar de 18 milhões ou ultrapassá-lo nos próximos trimestres, o cenário adverso se confirma. Se as plataformas internacionais simplesmente recuperarem parte da margem que estavam comprimindo para absorver o imposto — sem expansão significativa de volume — o impacto sobre CEAB3 e RIAA3 é menor do que os rebaixamentos do BofA sugerem.

A condição de reversão para CEAB3 e RIAA3 também existe, e ela passa por dois caminhos distintos. O primeiro é o Congresso: se a MP não for aprovada em 120 dias, a taxa de 20% volta, e o setor recupera parte do diferencial competitivo. O segundo é o câmbio: o dólar fechou a R$ 4,89 em maio de 2026, queda de 10,81% no ano. Um real mais forte barateia importações — mas também reduz a vantagem de custo da produção nacional em termos relativos. Se o real se depreciar novamente, parte da vantagem competitiva das plataformas asiáticas se dissolve por um mecanismo externo ao debate tributário.

O que nenhum dos cenários elimina é a pressão estrutural sobre o modelo de negócio. A Riachuelo paga 35% de imposto de importação sobre seus insumos; a Shein os compra na China a um terço do custo brasileiro. Essa equação não muda com câmbio nem com MP — ela exige uma resposta estratégica que vai além do lobby por proteção tarifária. O CEO da Riachuelo tem razão quando diz que o Brasil é a única cadeia têxtil completa do Ocidente. Mas essa qualidade só se converte em vantagem competitiva se houver política industrial consistente para sustentá-la — e a oscilação regulatória dos últimos dois anos é o sinal mais claro de que essa consistência ainda não existe.

Os R$ 9,6 bilhões arrecadados pelo governo desde agosto de 2024 são o número que vai aparecer no debate do Congresso. Esse é o ponto de ancoragem fiscal que pode forçar uma revisão da MP — e é o número que os investidores de CEAB3 e RIAA3 devem monitorar como termômetro do risco regulatório daqui pra frente.

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