Compass PASS3 com 6 bancões comprando|Ação -7% do IPO enquanto Edge ainda não é precificada

· B3

A maior onda de recomendações de compra da bolsa brasileira — e o papel que não sobe

A Compass (PASS3) terminou esta semana com seis grandes bancos recomendando compra, preços-alvo entre R$ 34 e R$ 38, e potencial de alta de até 52% segundo o BTG Pactual. O papel negocia a R$ 25,50 — 7% abaixo do preço de IPO de R$ 28, que já havia sido precificado no piso da faixa indicativa em maio. O resultado é uma equação que incomoda qualquer investidor: seis análises independentes apontam valor não capturado, e o mercado responde caindo. A questão não é se os bancos estão erros ou certos. É entender qual parte da empresa o mercado está disposto a comprar — e qual ele está descartando. Itaú BBA, Bradesco BBI, BTG, JPMorgan, Citi e agora o Santander, que iniciou cobertura hoje com alvo de R$ 34,05, convergiram para a mesma estrutura analítica: a Comgás sustenta o valuation, e a Edge carrega o upside. Mas o preço de mercado atual sugere que apenas a Comgás está sendo paga. A Edge, que o Santander precifica em R$ 14,52 por ação, vale zero no preço atual. Esse é o paradoxo que nenhum relatório resolve — e que o contrato assinado ontem pela Edge começa a testar.

Comgás paga os dividendos; Edge decide se o upside existe

A Comgás é a maior distribuidora de gás canalizado do Brasil. Desde a aquisição pela Cosan em 2012, o Ebitda cresceu em média 9% ao ano. O negócio opera com concessões de longo prazo, tarifas indexadas à inflação e revisões tarifárias periódicas que preservam a remuneração dos ativos. O JPMorgan estima que a Comgás vai gerar R$ 1,5 bilhão por ano em dividendos entre 2026 e 2030 — um fluxo previsível em um cenário de Selic a 14,25% ao ano. Esse braço, isolado, já justificaria parte relevante do preço atual. O Santander atribui R$ 19,28 por ação à distribuição. Com a ação a R$ 25,50, o mercado está pagando a Comgás com desconto de aproximadamente 32% — e tratando a Edge como custo zero. Aqui está o ponto que a análise convencional ignora: a Compass negocia a 6,3 vezes o EV/Ebitda projetado para 2027, com desconto de 35% em relação aos pares setoriais. Esse desconto não vem de fraqueza na Comgás, cujos fluxos são regulados e previsíveis. Ele vem da incerteza sobre se a Edge vai concretizar o crescimento projetado — um Ebitda com CAGR de 20% nos próximos cinco anos, segundo o JPMorgan, mas com apenas 40% de probabilidade precificada pelo mercado. O mercado não está comprando a Edge. O Citi usa a expressão exata: "mal precificada". O BTG qualifica o negócio de distribuição como "entediante, mas entediante é bom". As duas afirmações descrevem a mesma assimetria: o mercado exige prova de que a Edge existe antes de pagar por ela.

O primeiro contrato fora da rede — a Edge sai do plano de negócios para o mundo real

Em 24 de junho, a Edge assinou seu primeiro contrato de mobilidade off-grid com GNL — um acordo de dez anos com o Grupo Nimofast e a Green Cargo para fornecimento de gás natural liquefeito a uma frota de caminhões pesados da JAC Motors. O GNL sairá do Terminal de Regaseificação de Santos, que tem capacidade de 14 milhões de metros cúbicos por dia e opera com contrato de longo prazo com a TotalEnergies até 2033. A operação começa com 60 caminhões em 2026 e prevê expansão da frota. A substituição do diesel pelo GNL, complementada por biometano da Onebio — a maior planta de purificação de biometano do Brasil, localizada em Paulínia — reduz emissões de CO2 em até 25% e material particulado em até 90%. O Itaú BBA descreveu o anúncio como positivo e sublinhou que os volumes devem crescer gradualmente, à medida que a frota se expande. A ressalva importa: o contrato prova que existe demanda. Não prova que os volumes serão suficientes para justificar o preço-alvo de R$ 14,52 por ação que o Santander atribui à Edge. O CEO da Edge afirmou que o GNL "será um dos principais vetores de transformação do transporte pesado brasileiro nos próximos anos" e que a Edge está "posicionada para contribuir de forma relevante". A linguagem é de convicção estratégica. O contrato é de 60 caminhões. A distância entre as duas coisas é o risco que o mercado está cobrando — e que ainda não foi eliminado.

O que o holder e o observador devem monitorar agora

A Compass pagará R$ 405,5 milhões em dividendos em 29 de junho — referentes ao exercício de 2025, com base acionária anterior ao IPO. O Bradesco BBI calcula que o papel negocia a 12,8 vezes o lucro projetado, com desconto de 35% em relação aos pares. O principal risco para a tese não é a Comgás: seus fluxos são regulados e seu Ebitda cresceu por catorze anos consecutivos. O risco é a execução da Edge — se os contratos off-grid crescerem aquém do esperado, o desconto de 35% estará justificado, e o upside de 52% não se concretiza. O holder deve observar dois sinais: contratos sequenciais da Edge ao longo do segundo semestre de 2026, que demonstrem escala além dos 60 caminhões iniciais, e o resultado da revisão tarifária da Comgás, que consolida o fluxo de dividendos. O observador que ainda não está posicionado enfrenta uma janela em que seis bancões compraram antes do mercado se mover — mas a Edge ainda precisa provar que o mercado de GNL fora da rede tem demanda suficiente para justificar R$ 14,52 por ação. A verificação acontece nos próximos contratos. Enquanto a Edge não escala, o desconto de 7% abaixo do IPO não é anomalia — é o preço da incerteza sobre um braço que representa mais da metade do upside projetado.

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