Compass PASS3 queda 7% pós-IPO|5 bancos do deal recomendam compra com 50% de upside

· B3

O ativo que o mercado recusa comprar, mesmo com cinco analistas gritando compra

A Compass (PASS3) encerrou esta quarta-feira a R$ 25,50 por ação, uma queda de 7% em relação ao preço de IPO de R$ 28. A contradição está em quem recomenda a compra: BTG Pactual, Itaú BBA, Bradesco BBI, JPMorgan e Citi iniciaram cobertura com unanimidade de "compra" e alvos entre R$ 34 e R$ 38. O upside implícito varia de 33% a 49%. A taxa interna de retorno real implícita está em 16%, segundo a SpaceMoney. A tese central é a Comgás — maior distribuidora de gás canalizado do Brasil, ativo regulado, tarifas indexadas à inflação, crescimento de 9% ao ano no Ebitda desde 2012. O BTG descreveu o negócio como "entediante, mas entediante é bom — muito frequentemente, o chato gera juros compostos." Se a análise está correta, o desconto de 35% em relação aos pares internacionais seria uma das maiores assimetrias disponíveis na bolsa brasileira hoje. Mas o mercado não está comprando. E essa divergência é o ponto que precisa ser explicado.

Por que cinco recomendações de compra não convencem o mercado

O Seu Dinheiro levantou um fato que os relatórios de analistas não mencionam: os cinco bancos que iniciaram cobertura com compra foram exatamente os mesmos que coordenaram o IPO da Compass em maio. A restrição que impede coordenadores de emitir relatórios sobre a empresa que acabaram de listar dura exatamente um mês. Os relatórios vieram no primeiro dia útil possível após esse prazo. Isso não torna as análises incorretas. Mas estabelece o conflito de interesse como dado concreto, não como especulação. O mercado precifica esse conflito. A ação, em vez de subir com as recomendações, recuou nos dias seguintes, chegando a -7% do IPO. A hipótese que o mercado parece testar é esta: se o desconto de 35% vs pares fosse evidente, compradores independentes já teriam entrado. O fato de que a compra veio apenas dos coordenadores — no primeiro momento em que puderam falar — não é prova de viés, mas é exatamente o sinal que investidores institucionais independentes aguardam para descontar. A Comgás entrega fluxo de caixa previsível em qualquer cenário. O que está em disputa não é o ativo em si — é a credibilidade do preço de entrada.

A Edge e o que o mercado precifica com apenas 40% de probabilidade

O JPMorgan estimou que o mercado está precificando a Edge — subsidiária de comercialização de gás natural liquefeito e biometano — com apenas 40% de probabilidade de materializar seu potencial. Isso é um número incomum em análise financeira: o analista Arthur Pereira quantificou explicitamente o desconto probabilístico do mercado sobre esse ativo. A Edge opera o terminal de regaseificação de GNL em Santos, com capacidade de 14 milhões de m³ por dia, sob contrato de longo prazo com a Total. O crescimento projetado para o Ebitda da Edge é de 20% ao ano composto pelos próximos cinco anos, segundo o JPMorgan. Se esse cenário se concretizar, o desconto atual de 35% vs pares deixa de ser valuation conservador e passa a ser erro de precificação. Mas o gatilho que decidiria essa probabilidade ainda não está disponível: os primeiros contratos com termelétricas e clientes industriais — apontados pelo Bradesco BBI como o catalisador principal — ainda não foram assinados. A Cosan, controladora da Compass, sinalizou também que pode vender nova fatia da Compass para reduzir sua dívida, após captar R$ 1,85 bilhão com a venda de terras da Radar. Uma venda adicional de participação pela Cosan criaria pressão vendedora adicional no papel — o oposto do que os relatórios de buy projetam. O que decide a tese, portanto, não é o ativo regulado da Comgás — esse já está precificado de forma conservadora. O que decide é se a Edge assina contratos antes que a Cosan venda nova fatia.

O que fazer antes e depois do pagamento de dividendos de 29 de junho

Em 29 de junho, a Compass paga R$ 405,5 milhões em dividendos — R$ 0,568 por ação. O detalhe relevante: o direito a esse dividendo se encerrou em 4 de maio, antes do IPO. Quem comprou ações após a estreia em 11 de maio não recebe esse pagamento. Isso significa que o dividendo de 29/06 não é catalisador para o comprador atual. Ele é um sinal de estrutura de capital — a empresa pagou R$ 1,5 bilhão por ano em dividendos aos acionistas históricos antes de listar. O verdadeiro gatilho para quem está avaliando entrar hoje é o resultado operacional do 2T26 — o primeiro trimestre completo com dados abertos ao mercado, sem o filtro dos coordenadores de IPO. Se o Ebitda da Comgás se comportar conforme o crescimento histórico de 9% ao ano, e se a Edge sinalizar novos contratos, o desconto de 35% vs pares terá fundamento para se fechar. Se o resultado mostrar deterioração, ou se a Cosan anunciar nova venda de fatia antes disso, a tese dos cinco bancos perde o piso independente que ainda não tem. Quem já detém o papel deve monitorar o comunicado de contratos da Edge — não o pagamento de 29/06, que não os beneficia. Quem está fora deve aguardar o resultado do 2T26 antes de validar que o desconto é assimetria real, não precificação de conflito de interesse.

Link copied