Copel lucra 42% e evita leilão|Crescimento ou cautela?

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Lucro forte, sinal de cautela

A Copel entregou exatamente o tipo de balanço que costuma animar o investidor: lucro líquido recorrente de R$ 645,1 milhões no segundo trimestre, alta de 42,6% em um ano, ebitda recorrente de R$ 1,6 bilhão e mercado faturado 7,2% maior. Mas o dado mais importante talvez esteja fora do lucro. Enquanto o resultado melhora, a administração sinaliza que provavelmente não participará do primeiro leilão brasileiro de baterias.

Crescer sem aceitar qualquer retorno

Essa não é uma decisão final, mas revela uma mudança relevante na leitura da empresa. A Copel continua crescendo, só que não aceita qualquer crescimento. O presidente Daniel Slaviero disse que a competição no leilão deve ser intensa e que os retornos podem ficar abaixo do esperado, inclusive abaixo de um dígito.

Para o acionista, a pergunta deixa de ser apenas quanto a companhia lucrou e passa a ser onde ela está disposta a colocar o próximo real.

Espaço para investir

Até recentemente, a Copel vinha sendo apresentada como uma elétrica em um grande ciclo de expansão. A companhia tinha um plano de investimentos de R$ 17,8 bilhões até 2030 e acrescentou mais R$ 5 bilhões depois de vencer projetos no leilão de reserva de capacidade realizado em março. A alavancagem terminou o trimestre em 2,9 vezes a dívida líquida sobre o ebitda, dentro da faixa considerada adequada pela própria empresa. Ou seja: havia espaço no balanço para investir.

O tamanho da disputa

O novo fato qualifica essa história. Ter capacidade financeira não significa que a Copel vá disputar todas as oportunidades disponíveis. O leilão de baterias recebeu 6.091 projetos, que somam quase 297 mil megawatts cadastrados, embora apenas uma parte passe pela habilitação técnica. O governo pretende contratar entre 5 e 6 gigawatts, em duas etapas marcadas para dezembro, com contratos previstos a partir de 2028 e duração de 15 anos. A procura enorme aumenta a importância da tecnologia, mas também sugere uma disputa agressiva pelo retorno.

Baterias ou usinas reversíveis

O mecanismo é direto: baterias armazenam energia quando a oferta é maior e devolvem eletricidade quando a demanda aumenta ou a geração renovável cai. A Copel, porém, enxerga uma alternativa mais adequada aos seus ativos: as usinas reversíveis, que bombeiam água entre reservatórios e oferecem armazenamento por mais tempo. Na avaliação do comando da empresa, baterias são mais rápidas, mas têm duração menor; as usinas reversíveis seriam mais compatíveis com uma estratégia de prazo longo. É uma preferência baseada em retorno esperado, não uma rejeição definitiva à tecnologia.

O que já gera resultado

O balanço também mostra por que a companhia pode se dar ao luxo de ser seletiva. A distribuidora foi o principal motor do trimestre, beneficiada por maior atividade econômica no Paraná, expansão da base de clientes e temperaturas mais altas. Na comercialização, a gestão ativa do portfólio gerou cerca de R$ 75 milhões, usando modulação hidrelétrica e diferenças de preço entre submercados. Esses são negócios que já estão dentro da estrutura da Copel e conseguem transformar ativos existentes em resultado.

O custo do curtailment

Mas há uma contrapartida. Na geração eólica, o curtailment — o corte de produção determinado pelo operador do sistema — subiu de 15,7% para 23,7% e custou R$ 34,8 milhões no trimestre. A mesma transição elétrica que cria demanda por armazenamento também impõe limites à capacidade de vender toda a energia produzida. Portanto, o lucro forte não prova que qualquer novo ativo de geração ou armazenamento terá retorno elevado.

Crescimento com disciplina

Para quem já tem Copel, a leitura mais prudente é não transformar o crescimento de 42,6% em uma extrapolação automática. O resultado mostra eficiência operacional, força da distribuição e capacidade de capturar oportunidades no mercado de energia. A recusa provável ao leilão mostra disciplina de capital. Para quem observa a ação, o ponto decisivo será saber se essa disciplina preservará retornos ou se fará a companhia perder uma nova frente de crescimento.

As datas que testam a tese

Há datas concretas para acompanhar essa interpretação. A EPE deve divulgar em 28 de setembro a capacidade de escoamento disponível para os projetos, concluir a habilitação técnica até 17 de novembro e realizar os leilões em 2 e 4 de dezembro.

Se a oferta habilitada continuar muito acima da demanda e a Copel permanecer fora, a tese de cautela seletiva ganhará força. Se a empresa avançar em usinas reversíveis com investimentos e retornos mais claros, o crescimento poderá se mostrar estrutural.

Maior não basta: é preciso criar valor

Ainda não há, nas informações disponíveis, um cálculo detalhado do retorno esperado para as baterias ou dos projetos reversíveis da Copel. Também não está claro quanto dos ganhos de comercialização pode se repetir em outros trimestres. O que o balanço permite concluir hoje é mais específico: a Copel está crescendo, mas quer escolher o ciclo de investimento em que crescerá. Para o acionista, essa pode ser justamente a diferença entre uma empresa apenas maior e uma empresa que cria valor.

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