CURVA DI|SELIC A 15,10% PRECIFICADA EM 1 SESSÃO
A sessão que reescreveu a curva de juros
Em menos de oito horas de negociação, 52 pontos-base foram adicionados ao DI janeiro de 2028 — um movimento que normalmente leva semanas para se consolidar e que encerrou o dia em 14,89%, partindo de 14,37%. O DI janeiro de 2027 fechou em 14,515%, contra 14,295% da véspera, e o DI janeiro de 2031 avançou para 14,82%, saindo de 14,44%. O Ibovespa cedeu 0,92%, encerrando aos 185.600,12 pontos, enquanto o dólar subia 0,32%, a R$ 4,9677. A manhã havia começado com certa acomodação nos mercados globais, mas o cenário virou completamente após o discurso do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e os relatos de fechamento de aeroportos no Irã, que reacenderam o risco geopolítico no Oriente Médio. Segundo analistas da Monte Bravo, foram exatamente os rumores de reversão do cessar-fogo que produziram a volatilidade mais aguda da tarde. Ao mesmo tempo, a LATAM Airlines anunciou corte de 2% a 3% nos voos de junho e 3% em julho, com tarifas já subindo entre 20% e 30%, resultado de um impacto estimado de mais de US$ 700 milhões em combustível no segundo trimestre — um sinal direto de que o choque externo já atravessa o preço ao consumidor brasileiro. No campo fiscal, o governo federal cancelou o leilão de petróleo que movimentaria R$ 31 bilhões, mesmo num contexto em que a arrecadação federal com royalties e participações especiais de petróleo cresceu 264,5% no acumulado de janeiro a abril e 541% apenas no mês de abril. A pergunta que o mercado não consegue responder ainda hoje à noite é: se a pressão inflacionária está chegando por dentro e por fora, qual é o piso real da curva de juros daqui para frente?
O mecanismo por trás da inversão da Selic
Durante meses, o consenso de mercado era de que o Banco Central brasileiro navegava num ciclo de cortes relativamente previsível, ancorado em desinflação doméstica e expectativas de convergência para a meta. Esse consenso foi o que a sessão de hoje desfez. A economista-chefe da Mirae Asset declarou que "a tendência de elevação de juros é o movimento natural" diante do quadro que se forma. O economista-chefe do BMG, Flávio Serrano, foi mais preciso: a Selic terminal agora está mapeada em 14,80% ainda em 2026, com 70% de probabilidade de manutenção na reunião de junho e 30% de corte, mas com precificação de alta entre setembro de 2026 e março de 2027, levando os juros a 15,10%. O mecanismo é direto: o choque de petróleo causado pela escalada no Oriente Médio eleva o custo do combustível, que a LATAM já está repassando em tarifas de 20% a 30% acima do nível anterior, e essa pressão se difunde por toda a cadeia de transporte e logística. O Brent subiu em resposta às tensões geopolíticas, e a projeção interna do governo para o barril já foi revisada de US$ 71,09 para US$ 91,25, o que gerou a necessidade de manter o subsídio de R$ 0,44 por litro na gasolina — uma contenção artificial de preços que tem custo fiscal. É aqui que o nó se aperta: o governo, ao cancelar o leilão de R$ 31 bilhões em receitas de petróleo e ao sustentar subsídio de combustível, retira do lado fiscal o amortecedor que poderia dar ao Banco Central mais margem para cortar. A premissa que estava implícita no ciclo de afrouxamento — de que a política monetária doméstica era relativamente isolada de choques geopolíticos externos — foi diretamente contestada em uma única sessão de negócios. O que se precifica agora não é mais o fim do ciclo de cortes; é a possibilidade concreta de reversão.
Condições, limites e o que monitorar até setembro
Para que a curva DI recue e o mercado volte a precificar cortes, pelo menos três condições precisam se materializar de forma simultânea: o petróleo Brent precisa arrefecer de maneira sustentada abaixo do nível que pressiona a projeção doméstica de US$ 91,25 por barril, as leituras de inflação ao consumidor nas próximas semanas precisam mostrar que o repasse tarifário da LATAM e de outros setores de transporte não está contaminando o núcleo do IPCA, e o governo precisaria sinalizar recomposição fiscal — seja pela retomada de receitas de leilões de petróleo, seja pelo recuo do subsídio ao combustível. Na direção oposta, a alta a 15,10% se torna mais provável se o conflito no Oriente Médio escalar para novos fechamentos de rotas aéreas e marítimas, se o IPCA de maio ou junho surpreender para cima, ou se o dólar romper R$ 5,00 de forma consistente, adicionando pressão cambial à inflação importada. O benchmark concreto a acompanhar é a reunião do Copom de junho: se o Banco Central mantiver a Selic e sinalizar vigilância simétrica — mencionando tanto a possibilidade de corte quanto de alta — o mercado interpretará como confirmação do cenário de 15,10% até março de 2027. Um paralelo histórico não é ocioso aqui: em 2021, o mercado também demorou a precificar a extensão do ciclo de alta que levou a Selic de 2% a 13,75%, subestimando a persistência do choque de commodities. A pergunta que fica, portanto, não é se o Copom vai agir em junho — é se, quando agir em setembro, o movimento será suficiente para que a curva volte a acreditar que 15,10% é o teto, e não apenas mais um degrau.
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