Dólar a R 4,95 com Selic a 14,50%|O que o mercado já precificou que o Brasil ainda não viu

· B3

Abril terminou, e o real foi o ativo que ninguém esperava

O dólar fechou abril a R$ 4,95. Menor nível em mais de dois anos. No mês, a moeda americana recuou 4,4% frente ao real.

Para entender o que isso significa, basta lembrar o cenário: guerra no Irã elevando o petróleo a máximas de quatro anos, Fed mantendo juros inalterados pela terceira reunião consecutiva, PIB americano crescendo abaixo do esperado no primeiro trimestre. Emergentes estavam sob pressão. O Brasil deveria estar no mesmo barco.

Não estava.

O Ibovespa oscilou 8% ao longo de abril, chegou a superar 199 mil pontos pela primeira vez na história, e fechou o mês praticamente no zero — queda de apenas 0,08%. Na última sessão do mês, subiu 1,39% e voltou aos 187 mil pontos com a Vale puxando mineradoras e os juros futuros recuando em toda a curva.

O Copom entregou o que o mercado esperava: corte de 0,25 ponto percentual, levando a Selic de 14,75% para 14,50% ao ano. É a segunda redução consecutiva do mesmo tamanho. Os juros futuros — como o Tesouro prefixado para 2029, que chegou a 13,74% — cederam após a decisão.

E o desemprego no primeiro trimestre ficou em 6,1%. Subiu em relação aos 5,8% do trimestre anterior, mas é o menor nível já registrado para um primeiro trimestre em toda a série histórica da PNAD Contínua, iniciada em 2012.

A Selic no maior nível em 20 anos — e o real mais forte em 2 anos

Aqui está o dado que não fecha à primeira vista.

A taxa Selic está em 14,50% ao ano. É o patamar mais alto desde antes de 2006. O Banco Central está no meio de um ciclo de cortes, mas lento — de 0,25 ponto por reunião. Em paralelo, a guerra no Irã adicionou incerteza ao cenário global, o petróleo chegou a US$ 126 o barril antes de recuar, e o Fed americano manteve os juros parados.

Em tese, esse cenário deveria enfraquecer moedas de países emergentes. Capital foge para segurança. Mas o real fez o caminho inverso.

O mecanismo começa pelo petróleo. O Brasil, pelo lado da Petrobras, é exportador líquido. A estatal registrou produção recorde no primeiro trimestre de 2026 — 3,23 milhões de barris diários, alta de 16,1% na base anual. As exportações de petróleo dispararam 61%. Com o barril mais caro e o volume exportado maior, o fluxo de dólares para o Brasil aumentou.

Tem mais. A Petrobras reativou nesta semana a unidade Ansa, no Paraná, retomando a produção de ureia após seis anos hibernada. O investimento foi de R$ 870 milhões. A estatal agora estima cobrir 20% do mercado brasileiro de ureia, reduzindo importações num momento em que a guerra no Irã dobrou os custos de fertilizantes no mundo. É menos dólar saindo do país.

Do lado fiscal, o Morgan Stanley publicou análise onde seu economista-chefe afirma que o Brasil está "protegido" dos efeitos mais severos do conflito e vê caminho para a Selic chegar a 12%. Não em meses — mas o mercado precifica expectativas, não fatos. E essa perspectiva de queda estrutural dos juros atrai capital de longo prazo.

Daqui vem o ponto que quebra a leitura óbvia: juros altos costumam atrair capital especulativo de curto prazo, que foge na primeira turbulência. O que segurou o real em abril não foi o carry trade convencional. Foi o fluxo de commodities e a reavaliação do risco Brasil por grandes casas estrangeiras.

Há uma condição, porém. Esse fluxo depende do petróleo se manter elevado. Se o conflito no Oriente Médio se resolver ou se a Opep+ acelerar a produção — o bloco já sinalizou um aumento simbólico após a saída dos Emirados —, o suporte de commodities ao real diminui.

O que o dólar a R$ 4,95 está dizendo sobre o que vem pela frente

A última vez que o dólar ficou abaixo de R$ 5,00 de forma consistente foi em 2024. Naquele período, a Selic também estava em processo de queda. A diferença agora é que o ponto de partida dos juros é mais alto e o contexto externo é mais instável.

O Morgan Stanley projeta Selic a 12%. Para isso acontecer, o Copom precisaria manter o ritmo de cortes — ou acelerá-los — ao longo de 2026 e 2027. O próprio Copom sinalizou, segundo o economista Fabio Kanczuk, que continuará cortando mesmo se a guerra durar mais. A ata da reunião será o próximo documento de referência do mercado.

Dois caminhos estão abertos.

No primeiro, o petróleo se mantém elevado, o fluxo de exportações da Petrobras continua forte, e o diferencial de juros em relação ao resto do mundo emergente segue favorável ao Brasil. Nesse cenário, o dólar pode testar R$ 4,80 ou abaixo nos próximos meses. A Selic chegaria a 13% ainda em 2026 se o Copom mantiver o ritmo.

No segundo, o conflito no Oriente Médio esfria mais rápido do que o esperado, o petróleo cede, e o fluxo de commodities reverte. Combinado a qualquer dado de inflação acima do esperado no Brasil — o IPCA de abril sai nos próximos dias —, esse cenário forçaria o Copom a reduzir o ritmo de cortes. O dólar voltaria à faixa de R$ 5,10 a R$ 5,20.

A evidência hoje pesa para o primeiro caminho. O desemprego no mínimo histórico para o período sustenta consumo. A Petrobras em recorde de produção garante fluxo. O Morgan Stanley mudando o discurso sobre o Brasil é sinal raro de revisão estrutural de expectativas, não conjuntural.

Mas a confirmação ou refutação desse cenário chegará antes do que parece. O IPCA de abril, a ata do Copom e os próximos dados de produção da Petrobras são as três variáveis que dirão se R$ 4,95 foi um piso ou apenas uma passagem.

Link copied