DIs em máxima de 1 ano|Ibovespa 8ª queda fim do ciclo Selic precificado?

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A semana em que o mercado brasileiro reavaliou tudo

O Ibovespa fechou esta sexta-feira em queda de 0,77%, aos 169.019 pontos, completando a oitava semana consecutiva no vermelho. Trata-se da pior sequência desde o Plano Real, em 1994. Mas o número que realmente moveu o mercado não estava na bolsa — estava na curva de juros.

As taxas de DI saltaram mais de 40 pontos-base durante a sessão, atingindo o maior nível em mais de um ano. O DI para janeiro de 2027 fechou a 14,43%, ante 14,275% no pregão anterior. O gatilho foi o payroll americano de maio, que criou criou criou a expectativa de manutenção da taxa dos EUA mais alta por mais tempo — e esse movimento cruzou o Atlântico em questão de horas.

O dólar disparou 1,78%, fechando a R$5,1572, maior nível em dois meses. Na semana, o acúmulo foi de 2,27%. A Nasdaq despencou 4,18% em Nova York — a maior queda intradia desde abril do ano passado, quando Trump anunciou o tarifaço global. O índice de semicondutores da Filadélfia caiu mais de 10%.

No Brasil, o CSN (CSNA3) liderou as perdas com queda de quase 10%, e a Vale (VALE3) recuou 3,96%. A Braskem (BRKM5) derreteu 6% mesmo após a conclusão da mudança de controle para IG4 e Petrobras. Um contra-sinal isolou a Embraer (EMBR3), que subiu mais de 6% após a Azorra confirmar pedido firme de 15 jatos E195-E2 — elevando o total de pedidos do programa E2 para mais de 500 aeronaves. Em qualquer outra sessão, seria o destaque positivo do dia. Hoje ficou enterrado.

O dado que muda o enquadramento desta semana, contudo, não é o payroll nem a Nasdaq. É que, perto do fechamento, a curva de juros futuros precificava 68% de probabilidade de Selic estável na reunião do Copom de 17 de junho. Na semana passada, a probabilidade de corte ainda era maioria. Em uma semana, o consenso virou.

Quando o fluxo que sustentou o rali vira ao contrário

O Ibovespa chegou à máxima histórica de 199.355 pontos em 14 de abril com uma narrativa clara: fluxo estrangeiro maciço, valorização do real e rotação global para emergentes. De 2 de janeiro até aquela data, o investidor estrangeiro esteve em 70 pregões e encerrou apenas 17% deles com saldo negativo. A entrada líquida acumulada foi de R$69 bilhões na B3.

Desde 15 de abril, o movimento inverteu em velocidade e consistência raramente vistas. Em 23 pregões, apenas dois registraram saldo positivo para o estrangeiro. Nos outros 21, o resgate acumulado chegou a quase R$24 bilhões — aproximadamente R$1 bilhão por sessão. Esse ritmo de saída não encontra paralelo recente no mercado brasileiro.

O que não estava na tese original do rali é que Petrobras e Vale respondiam por uma parcela desproporcional do avanço. Segundo levantamento da Elos Ayta, as ações PETR3 e PETR4, juntas, respondem por 22.151 pontos do Ibovespa. No acumulado do ano, o índice subiu 16.525 pontos — menos do que toda a contribuição da estatal no período. Retirada a Petrobras, o Ibovespa teria registrado alta modesta de 5,8%.

Isso significa que o rali tinha base estrutural mais estreita do que o número de 23,7% de ganho até abril sinalizava. Quando o estrangeiro começou a desmontar posições, não havia amplitude de mercado para absorver a pressão — o volume saiu do índice concentrado e não havia rede de suporte nos ativos que tinham ficado para trás.

A premissa que sustentou o fluxo estrangeiro era que o Banco Central continuaria cortando a Selic e as taxas longas brasileiras seguiriam convergindo para baixo. O payroll de hoje contradiz essa premissa em dois passos: primeiro, taxas americanas mais altas por mais tempo fortalecem o dólar e reduzem o diferencial de retorno ajustado ao risco nos emergentes. Segundo, o BofA revisou nesta semana sua projeção para a Selic terminal em 2026 — de 13,25% para 14,25% ao ano — prevendo apenas mais um corte em junho, seguido de pausa até meados de 2027.

Essa não é mais uma revisão de projeção isolada de um banco. É o sinal de que o capital que entrou apostando em convergência de juros está reavaliando a velocidade e o tamanho do ciclo. O DI em 14,43% para janeiro de 2027 não é apenas uma taxa de mercado — é o preço que uma fatia crescente do mercado está disposta a pagar para sair da posição em renda variável e migrar para a renda fixa.

O que complica essa leitura é que o investidor local começou a entrar justamente quando o estrangeiro saía. Nos últimos 20 pregões, a pessoa física acumulou R$7,8 bilhões em compras líquidas de ações, segundo levantamento da Argon Investimentos. Dois fluxos opostos, simultâneos, com premissas diferentes sobre o mesmo ativo. Esse tipo de assimetria de timing raramente fecha de forma simultânea — um dos dois grupos está entrando na posição do outro.

O que decide se os 169 mil pontos são piso ou passagem

A questão que essa semana deixou em aberto não é se o Ibovespa vai cair mais — é qual dos dois fluxos vai encontrar o erro de premissa primeiro.

O estrangeiro que está saindo assume que taxas globais mais altas por mais tempo tornam os emergentes menos atrativos — e que o diferencial de juros do Brasil não compensa o risco cambial quando o dólar está se fortalecendo globalmente. Se o Copom de 17 de junho confirmar pausa, esse fluxo provavelmente acelera. O DI a 14,43% já está precificando isso.

O investidor local que está comprando assume o oposto: que o nível atual de preços já absorveu o repricing de juros, que a Petrobras como hedge geopolítico do petróleo protege o índice de quedas adicionais, e que a balança comercial de petróleo do Brasil — projetada em cerca de US$50 bilhões de superávit este ano — é um colchão estrutural que o estrangeiro está ignorando.

Em 2015, o Ibovespa tinha balança de petróleo praticamente zerada. Agora essa balança representa mais de 70% do superávit comercial total do país. Esse dado não apareceu nos payrolls americanos, nem nos modelos dos estrangeiros que saíram. É o argumento não precificado que o comprador local está usando.

O paralelo histórico mais próximo é o segundo semestre de 2018, quando o Ibovespa passou por sequência semelhante de saída estrangeira em ciclo de aperto global do Fed. Naquele período, o índice encontrou piso apenas após o mercado local acumular posição suficiente para absorver o fluxo de saída sem colapso de preços — o que levou cerca de três meses.

Para a tese do piso se confirmar, o indicador a monitorar é o DI para janeiro de 2027 recuando abaixo de 14,20% nas sessões seguintes à decisão do Copom de 17 de junho. Esse recuo sinalizaria que a pausa estava precificada e o mercado não vê novo ciclo de alta. Se o DI avançar para 14,60% ou acima após a decisão, a premissa do comprador local enfrenta pressão direta — o diferencial de retorno entre renda fixa e variável se amplia além do ponto que histórico de alocação da pessoa física conseguiu sustentar por períodos prolongados.

Há um terceiro vetor que nenhum dos dois grupos está posicionando explicitamente: a reunião de Lula com Trump em Washington, cuja agenda envolve tensões comerciais entre os dois países que o Estadão noticiou nos últimos dias como fator de risco cambial de curto prazo. Se a viagem resultar em redução de incerteza tarifária, o real pode se valorizar o suficiente para reabrir janela para o estrangeiro — antes que o fluxo doméstico tenha completado a absorção. Essa sequência, se ocorrer, é o cenário em que o comprador local e o estrangeiro terminam na mesma posição por razões diferentes. O que permanece em aberto é se a assimetria de timing que separa os dois fluxos hoje ainda estará lá quando essa janela abrir.

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