Embraer bate recorde de 16 anos em entregas|ação cai 13% no mês
O melhor segundo trimestre em 16 anos e a ação que recuou
A Embraer entregou 65 aeronaves no segundo trimestre de 2026, o melhor desempenho da companhia nesse período desde 2010. O resultado veio 48% acima do primeiro trimestre e 7% acima do mesmo período de 2025, num setor onde volume de entrega é o sinal mais antecipado de receita e ocupação industrial. Ainda assim, as ações da fabricante brasileira acumulam queda de 13% no último mês, enquanto Airbus recuou 6% e o S&P 500 cedeu 4% no mesmo intervalo. A contradição não está no número de aviões — está no que o mercado acredita que esse volume converte em lucro.
O Itaú BBA qualificou as entregas como "levemente positivas" e apontou a ação como oportunidade atrativa de compra. O BTG Pactual manteve recomendação de compra com potencial de valorização estimado em até 57% para os ADRs negociados em Nova York. O JPMorgan calculou que o mix do trimestre implica receita de aproximadamente US$ 2,05 bilhões, cerca de 8% acima do consenso de mercado de US$ 1,91 bilhão. Três grandes bancos com preços-alvo entre US$ 70 e US$ 84 por ADR, e a ação caiu. Esse descasamento é o que precisa de explicação.
A resposta provisória está no custo. O querosene de aviação subiu 40,5% no acumulado de 2026, pressionado pelo conflito no Oriente Médio desde fevereiro. Com combustível mais caro, companhias aéreas contêm expansão de frota no curto prazo, e o mercado antecipou impacto nos pedidos da Embraer — mesmo com o backlog em US$ 32,1 bilhões, recorde histórico. O bottleneck que o mercado pesa é simples: volume de entrega sem margem é rotatividade, não lucro.
O que o mercado está precificando: lucro comprimido no 1T e combustível como variável-chave
No primeiro trimestre de 2026, a Embraer registrou receita de US$ 1,4 bilhão, crescimento de 31% na comparação anual — o maior resultado já alcançado pela empresa em um primeiro trimestre. O lucro líquido ajustado, contudo, somou US$ 27,7 milhões, queda de 44,6% frente ao mesmo período de 2025. Receita recorde com lucro despencando: a margem foi o problema.
O mecanismo é direto. O querosene de aviação é o principal custo operacional das companhias aéreas. Quando o QAV sobe 55% em abril e mais 18% em maio, como ocorreu após o bloqueio do Estreito de Ormuz, as operadoras reduzem encomendas de novas aeronaves para preservar caixa. A Embraer continua entregando pedidos já contratados — daí o volume recorde — mas a pergunta dos investidores é quantos novos pedidos essa demanda comprimida vai gerar nos próximos trimestres.
Esse é o ponto onde o mercado diverge dos analistas. O BBA reconhece que a sazonalidade mais fraca na aviação comercial se confirmou no 1T26, "porém em ritmo mais atenuado em relação a anos anteriores". O mercado pesa o "mais atenuado" como insuficiente diante de um custo de insumo 40,5% mais alto. A ação negocia a 8,1 vezes o EV/EBITDA projetado para 2027 — abaixo da Airbus a 12,1 vezes, da Bombardier a 14,6 e da Boeing a 24,3 vezes. O desconto existe porque o mercado não acredita que a margem vai recuperar na velocidade que os analistas projetam. Esse é o desacordo real.
Mas o mercado pode estar olhando para a variável errada. O QAV não parou de cair.
O ponto que o consenso ignora: combustível em queda e mix executivo
Em julho, a Petrobras aplicou redução de 14,5% no preço do querosene de aviação vendido às distribuidoras — o segundo corte consecutivo. Em junho, a queda havia sido de 14,2%. Depois de uma sequência de altas entre março e maio, o QAV está recuando. A pressão que o mercado precificava como estrutural está cedendo, e as companhias aéreas que travaram orçamento de frota agora têm espaço para retomar conversas de pedidos.
Aqui entra o mix do segundo trimestre da Embraer. Das 65 aeronaves entregues, 45 foram jatos executivos — avanço de 55% frente ao primeiro trimestre e de 18% sobre o 2T25. A aviação executiva é menos sensível ao ciclo do QAV do que a comercial: o comprador de jato executivo não é uma companhia aérea com custo de combustível como principal variável de decisão. O Bradesco BBI apontou que o forte desempenho da divisão executiva pode resultar em revisão para cima da estimativa de receita do trimestre em até US$ 45 milhões para o consenso. A composição das entregas importa porque o jato executivo carrega margem diferente do comercial.
O ponto que o mercado convencionou tratar como pano de fundo é a estrutura de custo comparativo da Embraer frente aos pares. A companhia negocia a 0,36 vez o EV sobre backlog — abaixo da média de 0,40 vez observada no acumulado do ano. Isso significa que o mercado está pagando menos pela carteira de pedidos firmes da Embraer do que pagava meses atrás, mesmo com o backlog em recorde histórico de US$ 32,1 bilhões. O desconto de múltiplo diz que o mercado não acredita na conversão do backlog em lucro. O argumento dos analistas é que essa conversão começa no resultado do 2T26.
Postura: o que confirma a tese e o que a quebra
A Embraer tem um contraponto legítimo ao otimismo dos analistas: o lucro ajustado de US$ 27,7 milhões no 1T26 com receita de US$ 1,4 bilhão representa margem líquida de aproximadamente 2%. Nessa base, mesmo com a receita implícita de US$ 2,05 bilhões no 2T26, qualquer pressão adicional de custo ou mix desfavorável derruba o lucro. O mercado não está errado ao exigir evidência de margem — está errado se assumir que o cenário do 1T (QAV no pico, tensão geopolítica máxima) se repete no 2T.
O BBA adverte que "o crescimento de aproximadamente 20% nas entregas do primeiro semestre sugere expansão mais moderada no segundo". Isso significa que a aceleração de 48% vista no 2T é improvável de se repetir no 2S. O piso de volume está garantido pelo backlog, mas o teto de crescimento está se aproximando. O titular que mantém posição precisa checar se a margem recuperou junto com o volume, não apenas o volume isolado.
O resultado financeiro do 2T26, previsto para agosto, é o verificador mais direto. Se a margem EBIT ajustada — que subiu de -1,6% para 17% no 1T26 com efeito de itens pontuais — confirmar recuperação sustentada com custo de QAV mais baixo e mix executivo mais pesado, a tese dos analistas se consolida e o desconto de múltiplo começa a fechar. Se a margem voltar a comprimir apesar do volume recorde, o mercado estava certo ao vender 13% no mês e o backlog de US$ 32,1 bilhões não é proteção suficiente. A postura para o titular é manter até o resultado de agosto checando margem EBIT ajustada, não volume. Para o observador, a entrada só se justifica se agosto confirmar a recuperação de margem — antes disso, o desconto existe por razão documentada, não por equívoco do mercado.
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