Embraer bate recorde em 16 anos|desconto de 55% frente à Bombardier

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O recorde que o mercado não consegue precificar

A Embraer entregou 65 aeronaves no segundo trimestre de 2026, o melhor desempenho para o período em 16 anos.

O número de entregas superou as estimativas do JPMorgan, que projetava 61 unidades, e a receita implícita calculada pelo banco chegou a US$ 2,05 bilhões — cerca de 8% acima do consenso de mercado de US$ 1,91 bilhão.

No mesmo dia, o BTG incluiu a Embraer em sua carteira recomendada, e as ações subiram cerca de 1,68%, negociadas a R$ 84,50 na abertura da sessão.

Mas a tensão está exatamente onde o mercado não está olhando.

A Embraer negocia a 8,1 vezes o EV/Ebitda projetado para 2027 — abaixo da Airbus a 12,1 vezes, da Bombardier a 14,6 vezes e da Boeing a 24,3 vezes.

Um fabricante de aviões que bate recordes operacionais há 16 anos vale menos, na métrica mais usada pelo setor, do que todos os seus concorrentes de referência.

O bottleneck não está na demanda nem na execução industrial. Está na composição do que foi entregue — e o que isso significa para a margem que ainda não foi divulgada.

Por que o desconto persiste mesmo com execução superior

O desconto da Embraer frente aos pares não é novo, mas o trimestre atual revela com mais clareza qual é sua origem.

Das 65 aeronaves entregues no 2T26, 45 foram jatos executivos e apenas 20 foram aeronaves comerciais.

Isso é relevante porque o múltiplo de empresas aeroespaciais tende a refletir a previsibilidade e o porte dos contratos futuros, e a aviação executiva — embora mais rentável por unidade — carrega contratos menores, clientela mais volátil e menor visibilidade de longo prazo do que a aviação comercial de grande escala.

A Airbus e a Boeing constroem múltiplos altos porque vendem centenas de aeronaves de fuselagem larga a companhias aéreas com cronogramas de entrega de anos à frente.

A Embraer vende jatos regionais e executivos com carteiras sólidas, mas num nicho que o mercado global ainda não aprendeu a valorizar da mesma forma.

O jornal francês Le Monde chamou a Embraer de "pérola brasileira" e a posicionou como a terceira maior fabricante do mundo — mas o mesmo artigo observou que a empresa "permanece distante de Airbus e Boeing em faturamento, carteira de pedidos e capacidade de investimento."

A crítica estrutural existe dentro do próprio elogio.

O desconto não é uma distorção passageira. É o mercado precificando o tamanho do nicho, não a qualidade da execução dentro dele.

O que o mercado ainda não sabe sobre este trimestre

A Embraer divulgou o número de entregas, mas não divulgou a composição da carteira de clientes por contrato.

Esse detalhe muda tudo.

O Bradesco BBI foi explícito: "a composição da base de clientes também influencia a rentabilidade e ainda não foi divulgada."

Quando 45 dos 65 jatos entregues são executivos, o preço médio por aeronave — e portanto a receita real — depende de qual combinação de Phenom 300, Phenom 100, Praetor 600 e Praetor 500 foi entregue e a que condições contratuais.

O JPMorgan calculou que o mix atual implica receita de US$ 2,05 bilhões, 8% acima do consenso.

Mas o BBI é mais cauteloso: projeta revisão de receita de apenas 1% para o próprio banco e 2% para o consenso.

Dois bancos com análises diferentes do mesmo evento, com a mesma informação de base — e a diferença entre eles é exatamente o que ainda não foi revelado.

O nivelamento de produção que a Embraer tem executado ao longo do ano distribuiu as entregas de forma mais equilibrada.

Na aviação executiva, o percentual entregue no semestre atingiu 45% da meta anual, ante uma média histórica de 34% no mesmo período.

Isso sugere que o 2S26 pode ser mais moderado — o Itaú BBA já sinalizou que "o crescimento de aproximadamente 20% nas entregas do primeiro semestre sugere uma expansão mais moderada no segundo semestre."

A variável que decide o múltiplo não está nas 65 aeronaves entregues. Está na margem que elas vão gerar — e esse número só aparece no resultado financeiro do 2T26.

Postura para holder e observador

A Embraer entregou execução. O mercado respondeu com alta de 1,68% e entrada do BTG na carteira.

Mas o desconto estrutural de 55% frente à Bombardier não desaparece com um trimestre de recorde operacional.

O risco relevante que o pool sinaliza não é de demanda — é de margem não confirmada.

Se o resultado financeiro do 2T26 mostrar que as 45 entregas executivas vieram de contratos de alto valor médio com boa diluição de custo fixo, o desconto começa a ter explicação mais difícil de sustentar, e o múltiplo tem espaço para se aproximar da Airbus.

Se vier com margens abaixo do esperado pelo JPMorgan — sinalizando que o mix de Phenom 300 e jatos médios não compensou o menor volume de E2 — o desconto se consolida como estrutural, e a alta de hoje vira realização pontual de um dado operacional.

Para o holder: o monitoramento mais eficaz não é o preço da ação, mas a margem Ebitda e a abertura de receita por segmento no resultado do 2T26.

Para o observador: a entrada só faz sentido se a margem confirmar que o volume executivo do 1S26 se traduziu em rentabilidade acima do custo de capital — sem essa confirmação, o desconto vs pares não é oportunidade, é aviso de que o nicho ainda não foi reconhecido pelo mercado global.

O ponto de verificação é o resultado financeiro do 2T26, esperado para o 3º trimestre de 2026.

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