Embraer E2 500 pedidos BTG top pick|risco Irã adiando encomendas
A convergência rara: BTG e Itaú BBA escolhem o mesmo papel ao mesmo tempo
No mercado financeiro, raridade tem valor. O que aconteceu esta semana com a Embraer é, de fato, raro. O BTG Pactual e o Itaú BBA — os dois maiores bancos de investimento do Brasil — chegaram de forma independente à mesma conclusão. Ambos colocaram a Embraer como sua principal escolha de ação, o chamado top pick, para o ciclo que se abre agora. Isso não é recomendação automática nem análise coordenada. São duas equipes distintas, com metodologias distintas, que analisaram balanços, contratos e cenário geopolítico — e chegaram ao mesmo endereço. O argumento central dos dois é parecido: a Embraer usou 2025 como ano de consolidação operacional. A empresa organizou a produção, estabilizou entregas, firmou contratos. Agora, em 2026, as condições estão criadas para começar a destravar valor. Ou seja: o mercado ainda não precificou o que a operação já entrega. Mas o que especificamente eles estão enxergando? É exatamente isso que vamos destrinchar — capítulo por capítulo, com os dados que saíram esta semana.
Os marcos concretos: 500 jatos, o primeiro Gripen brasileiro e a Índia na fila
Enquanto os analistas publicavam suas recomendações, a Embraer estava acumulando marcos operacionais concretos — o tipo de evento que não é projeção, é fato. Primeiro marco: a família E-Jets E2 cruzou a marca de 500 unidades encomendadas. O pedido que fechou essa conta veio de uma empresa americana. O E2 compete diretamente com o Airbus A220 no segmento de jatos regionais de 70 a 150 assentos. É um segmento que cresce globalmente porque aéreas buscam eficiência em rotas curtas e médias — exatamente onde o E2 se destaca. Quinhentas unidades encomendadas é uma carteira que garante receita previsível por anos. Segundo marco: o primeiro caça F-39 Gripen produzido em solo brasileiro foi apresentado em Gavião Peixoto, no interior de São Paulo. Essa aeronave é fruto da parceria com a sueca Saab — e marca a primeira vez que o Brasil produz um avião supersônico dentro do próprio território. Mais de 200 caças Gripen já estão em discussão envolvendo o Brasil como produtor, com perspectiva de exportação para países terceiros. Terceiro marco: a Embraer está em negociações ativas com a Índia sobre uma licitação de jatos militares de carga. O CEO Francisco Gomes Neto sinalizou que espera avanços nesse processo. A Embraer já chegou a negociar com a Força Aérea americana sobre a substituição do C-130 Hércules — o avião de transporte mais usado do mundo. Entrar nesse mercado seria transformador para o perfil de receita da empresa. E ainda tem a LATAM: os primeiros jatos E2 com a pintura da LATAM começam a ser entregues à filial brasileira no segundo semestre de 2026. A aérea planeja usar o E2 para abrir até 35 novos destinos em rotas que antes não eram viáveis com aeronaves maiores.
O risco que o CEO admitiu: combustível caro e a guerra no Irã travando pedidos
Aqui é onde a honestidade é necessária — porque nenhuma análise séria ignora o risco. O CEO da Embraer, Francisco Gomes Neto, disse publicamente nesta semana algo que merece atenção direta. A escalada no custo de combustível, agravada pela guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã e pelo bloqueio do Estreito de Ormuz, está levando companhias aéreas a adiar decisões de encomenda de novos aviões. Estimativas apontam que o conflito no Irã elevou o custo de combustível das aéreas globalmente em algo próximo a US$ 100 bilhões. Quando o combustível fica muito caro, aéreas primeiro cortam rotas, depois adiam investimentos. Comprar aviões novos é um dos maiores investimentos que uma aérea faz — e esse é o produto principal da Embraer. No curto prazo, o ritmo de novas encomendas pode desacelerar. Aéreas que estavam próximas de fechar contratos podem pedir mais tempo. Mas existe um contraponto importante que os analistas apontam. A Embraer já tem uma carteira de pedidos firmes robusta — as 500 unidades do E2 são contratos assinados, não intenções. A receita de curto e médio prazo está em grande parte garantida. O risco está mais no crescimento futuro da carteira do que na receita já contratada. Aqui está a divergência de leituras que torna essa análise não óbvia. Alguns analistas veem o combustível caro como ameaça direta à tese de crescimento da Embraer. Outros enxergam um paradoxo: o E2 é exatamente o avião mais eficiente em combustível para rotas regionais. A LATAM sinalizou isso — escolheu o E2 parcialmente como resposta ao petróleo mais caro. O mesmo problema que atrasa pedidos no curto prazo pode acelerar a migração para frotas mais eficientes no médio prazo. A variável a monitorar é clara: se o conflito no Irã caminhar para um acordo — e havia sinais esta semana de negociações avançando — o custo de combustível cai, as aéreas voltam a tomar decisões, e o pipeline de pedidos da Embraer se reabre.
Eve, China e LATAM: os gatilhos que podem destravar o papel nos próximos 90 dias
Os analistas do BTG e do Itaú BBA não colocaram a Embraer como top pick olhando apenas para o passado. Eles estão mapeando uma série de catalisadores concretos que podem se materializar nos próximos 90 dias. O primeiro é a Eve, subsidiária da Embraer focada em aeronaves elétricas de decolagem e pouso vertical. Nesta semana, a Eve concluiu 59 voos de teste bem-sucedidos. Esses voos calibraram sistemas de controle, comportamento térmico das baterias e efeitos aerodinâmicos dos rotores. Cada teste bem-sucedido aproxima a Eve da certificação regulatória — o evento que abre o caminho para contratos comerciais reais. A certificação, quando vier, representa um rerating potencial para a ação. O segundo catalisador é a China. O CEO da Embraer sinalizou que há conversas em andamento com companhias aéreas chinesas sobre a expansão do E2 no país. A China é o maior mercado de aviação em crescimento do mundo. Um contrato relevante com uma aérea chinesa seria um catalisador de grande porte para as ações. O terceiro, de prazo mais imediato, é o início das entregas para a LATAM no segundo semestre. Cada entrega gera receita reconhecida, melhora o fluxo de caixa e confirma a capacidade operacional da empresa. Isso é o que os analistas chamam de execução — e é o que o mercado mais quer ver para confirmar a tese. O quarto é geopolítico: o avanço nas negociações militares com Índia e EUA. Um anúncio de contrato nessa frente colocaria a Embraer em outro patamar como empresa de defesa global. A convergência de todos esses fatores é o que BTG e Itaú BBA estão chamando de destravar valor. Não é um evento único — é uma sequência de confirmações ao longo dos próximos trimestres. O sinal de confirmação para monitorar: se o acordo EUA-Irã avançar e as aéreas retomarem decisões de compra, o próximo update de carteira de pedidos da Embraer vai dizer se a tese dos analistas está se materializando ou se o risco macro pesou mais.
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