Embraer EMBJ3 melhor 2T em 16 anos|ação cai 6% no semestre

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O recorde que o mercado não comprou

A Embraer entregou 65 aeronaves entre abril e junho de 2026, o melhor resultado para um segundo trimestre nos últimos 16 anos. Na comparação com o primeiro trimestre, o crescimento foi de 48%. Em seis meses, a companhia acumulou 109 aeronaves entregues, cerca de 20% acima do registrado no mesmo período de 2025. O recorde operacional tem uma contraparte desconcertante: a ação da Embraer encerrou o primeiro semestre em queda de 6,2%. O gargalo não está no volume de entregas. Está na pergunta que os dados de entrega não respondem: se o volume cresce 20% mas o lucro ajustado caiu 44,6% no primeiro trimestre, o que está destruindo a margem, e o segundo trimestre conseguiu reverter esse movimento? O Banco Safra avaliou as entregas comerciais com cautela, estimando 16 jatos comerciais no trimestre — recuo de 11% ante o mesmo período de 2025 — e chamou atenção para um ritmo de execução do guidance mais lento que o ano anterior. O BTG Pactual manteve recomendação de compra com potencial de valorização de 57% e destacou que a companhia negocia com desconto frente a concorrentes globais. Dois bancos, o mesmo relatório de entregas, leituras opostas. A divergência revela o ponto cego da análise de superfície: o número total de aeronaves inclui jatos executivos e de defesa, enquanto a aviação comercial — o segmento com maior impacto sobre receita e previsibilidade de demanda — cresceu apenas 5% ante o segundo trimestre de 2025.

Receita recorde, lucro comprimido — onde o dinheiro está vazando

No primeiro trimestre de 2026, a Embraer registrou a maior receita de um primeiro trimestre da história: US$ 1,4 bilhão, crescimento de 31% em relação ao mesmo período de 2025. O lucro líquido ajustado foi de US$ 27,7 milhões — queda de 44,6% ante os US$ 50 milhões do primeiro trimestre de 2025. Mais receita, menos lucro. O mecanismo por trás dessa divergência está na composição do custo operacional da Embraer e de seus clientes. O querosene de aviação acumulou alta de 40,5% em 2026, após a eclosão do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã em fevereiro. Companhias aéreas com custos de combustível comprimindo margens tendem a adiar pedidos de aeronaves novas e a rever projeções de frota. Essa contenção da demanda no lado das clientes da Embraer pressiona preços de venda, mix de contratos e volume de reconhecimento de receita nos programas comerciais. O Safra identificou que o mix de entrega do segundo trimestre foi mais favorável — menos modelos E1 de menor margem e menos clientes de baixa rentabilidade — mas ressaltou que isso não compensa a desaceleração do volume comercial. O JPMorgan calculou que o mix do trimestre sugere receita de cerca de US$ 1,33 bilhão, cerca de 5% acima de sua estimativa, mesmo considerando um volume comercial abaixo do esperado. A lógica de compensação entre volume e mix é o ponto de tensão central: se o segundo semestre não acelerar as entregas comerciais, a Embraer terá que depender de um mix de alta margem para sustentar o resultado. O backlog total atingiu US$ 32,1 bilhões no primeiro trimestre — recorde histórico, mais de 20% acima do mesmo período de 2025. Uma carteira de pedidos recorde com execução comercial lenta é tanto um ativo quanto um alerta: o capital já está comprometido, mas a conversão em receita e caixa depende do ritmo de entrega no segundo semestre.

O QAV caiu 14,5% em julho — o alívio chega a tempo?

A Petrobras anunciou em 1º de julho uma redução de 14,5% no preço do querosene de aviação vendido às distribuidoras, o segundo recuo consecutivo após a queda de 14,2% em junho. A justificativa foi a atenuação dos efeitos do conflito no Oriente Médio sobre os derivados do petróleo. O alívio é real, mas parcial. Mesmo com os dois cortes, o combustível ainda acumula alta de 40,5% em 2026, com o litro custando R$ 1,39 a mais do que no final de 2025. O tráfego global de passageiros medido em passageiros-quilômetros recuou 2,2% em maio na comparação anual, segundo dados da IATA citados pelo Safra — aprofundamento da retração de abril. Nos Estados Unidos, mercado central para os jatos E1 da Embraer, o tráfego doméstico recuou 1,9%. No mercado brasileiro, o crescimento foi de 2,8%, sinalizando resiliência relativa. A queda do QAV em julho reduz a pressão sobre as aéreas, mas o efeito sobre a demanda por aeronaves novas tem defasagem: companhias aéreas reveem pedidos trimestralmente, e a decisão de reativar encomendas contidas depende de mais de um mês de alívio no combustível. O prazo relevante é o segundo semestre de 2026, quando a Embraer precisa acelerar entregas comerciais para atingir o piso do guidance de 80 aeronaves comerciais no ano — e no acumulado até junho eram 26, equivalente a apenas 33% do piso. A redução do QAV é o sinal que o mercado estava esperando para reabrir o ciclo de pedidos. Mas ela chegou tarde para recuperar o primeiro semestre.

Backlog recorde vs guidance em execução lenta — o que decide a tese

A Embraer negocia a 9,9 vezes EV/EBITDA estimado para 2026, frente a 10,7 vezes da Airbus, 12,8 vezes da Bombardier e 36,8 vezes da Boeing, segundo o JPMorgan. Em valor da firma sobre backlog, está em 0,36 vez, abaixo da média histórica do ano de 0,39 vez. O desconto existe. A questão é se ele reflete um problema estrutural de margem ou uma janela de compra enquanto o ciclo de combustível se normaliza. O Itaú BBA reiterou a Embraer como top pick com preço-alvo de US$ 75 por ADR, mesmo após a ação cair 13% no último mês. O BBI tem preço-alvo de R$ 110 para EMBJ3. O contra-argumento concreto vem do Safra: no acumulado até junho, a Embraer entregou 26 jatos comerciais, número estável em relação ao mesmo período de 2025 e equivalente a 33% do piso da projeção anual, levemente abaixo do ritmo de 34% registrado no mesmo estágio de 2025. Um guidance de 80 a 85 aeronaves comerciais no ano, com 26 entregues no primeiro semestre, exige entre 54 e 59 entregas nos seis meses restantes — aceleração de mais de 100% em relação ao ritmo do primeiro semestre. Essa execução é viável no histórico da companhia, mas não está garantida em um ambiente de demanda aérea ainda pressionada. Para o holder, o gatilho que confirma a tese é o ritmo de entregas comerciais do terceiro trimestre: se a companhia atingir ao menos 25 aeronaves comerciais entre julho e setembro, estará no caminho para o piso do guidance, validando o backlog como ativo líquido. Se o volume comercial do terceiro trimestre ficar abaixo de 20 aeronaves, a tese de recuperação de margem no segundo semestre torna-se improvável dentro do ano, e o desconto atual deixa de ser uma janela de compra para se tornar reflexo de um problema de execução. Para o watcher, a entrada se justifica quando o ritmo de entregas comerciais do terceiro trimestre confirmar que a aceleração do segundo semestre está em curso — não antes.

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