Embraer EMBR3|Isenta do tarifaço, recorde de US 34,5 bi
O recorde que ninguém tarifou
A Embraer fechou o segundo trimestre de 2026 com uma carteira de pedidos recorde de US$ 34,5 bilhões, sétimo recorde consecutivo, avanço de 7% sobre o trimestre anterior e de 16% em um ano. A fabricante entregou 65 aeronaves no período, 48% a mais que nos três meses anteriores. Defesa e Segurança cresceu 42%, puxada pelo maior pedido internacional já registrado do cargueiro C-390 Millennium, feito pelos Emirados Árabes Unidos.
No mesmo momento em que a companhia crescia, o governo dos Estados Unidos ampliou o tarifaço contra o Brasil, atingindo cerca de 3 mil produtos brasileiros, segundo a Amcham. Mas as aeronaves da Embraer ficaram de fora das novas sobretaxas, ao lado de café e carne bovina. A pergunta que se impõe é por que justamente a maior exportadora industrial do país escapou de um tarifaço desenhado para pressionar o Brasil.
A resposta não está em boa vontade política, mas em cálculo econômico americano. Segundo Vinícius Vieira, professor da FAAP e da FGV, a Embraer ocupa posição estratégica porque importa componentes fabricados nos Estados Unidos, monta os jatos no Brasil e revende principalmente ao mercado americano, líder mundial em jatos regionais e executivos. Taxar esse fluxo penalizaria fornecedores e empregos americanos tanto quanto a própria Embraer. A isenção protege a cadeia produtiva dos dois lados, não apenas a empresa brasileira.
A blindagem que já existia antes da tarifa
Dias antes do novo tarifaço, o Itaú BBA já havia destacado a Embraer como principal escolha em bens de capital para investidores que buscam proteção contra a volatilidade do dólar. Analistas do banco citaram a operação dolarizada da companhia e o crescimento esperado em aviação executiva e em serviços como os pilares dessa recomendação, ao lado de nomes como Petrobras, Vale e Suzano.
O raciocínio do BBA parte de uma lógica simples: empresas com receita em moeda forte e custo em reais se beneficiam quando o real se valoriza ou quando o dólar fica mais caro, dependendo do ponto de entrada do investidor. Como a Embraer vende a maior parte de sua produção no exterior e mantém parte relevante dos custos no Brasil, ela funciona como hedge cambial dentro de uma carteira de ações locais, algo que a coloca em posição diferente da maioria das empresas expostas apenas ao mercado doméstico brasileiro.
A convergência entre a isenção tarifária e a recomendação como proteção cambial revela que a Embraer carrega duas camadas de blindagem simultâneas: uma política e comercial, vinda do interesse americano em não interromper sua própria cadeia produtiva, e outra estrutural, vinda do modelo de negócio dolarizado da companhia. Isso ajuda a explicar por que a carteira de pedidos seguiu batendo recordes mesmo em um trimestre marcado por tensão comercial crescente entre Brasil e Estados Unidos.
O que o recorde ainda não resolve
Olhando para dentro do resultado, a divisão de Aviação Comercial somou US$ 15,1 bilhões em pedidos, impulsionada por uma nova encomenda firme de 15 jatos E195-E2 da companhia de leasing Azorra. A Aviação Executiva alcançou US$ 7,8 bilhões, com alta anual de 5%, enquanto Serviços e Suporte atingiu nível recorde de US$ 5,5 bilhões. A companhia entregou 109 aeronaves no primeiro semestre, 20% acima do mesmo período do ano passado.
O ponto que o recorde não resolve é a durabilidade dessa isenção. As fontes consultadas apontam que o critério americano é puramente de interesse próprio, não de estabilidade diplomática entre os dois países, e o governo dos Estados Unidos já demonstrou disposição para aprofundar o tarifaço contra outros setores brasileiros, como madeira, açúcar, aço e alumínio. Se a disputa comercial escalar ainda mais, nada garante que a exceção concedida à Embraer hoje continue amanhã, especialmente em um cenário eleitoral americano que recompensa medidas protecionistas. Para quem acompanha ou detém a ação, o recorde de carteira mostra a força atual do negócio, mas a decisão de manter ou reforçar posição depende de acompanhar se essa isenção se sustenta conforme a queda de braço tarifária evolui.
- [exame.com] Café, carne e peças de aeronave: por que Trump poupou esses produtos d…
- [msn.com] Embraer (EMBJ3): carteira de pedidos alcança sétimo recorde seguido e…
- [estadao.com.br] Embraer (EMBJ3) eleva carteira de pedidos em 16% no 2T26 - Money Times
- [valor.globo.com] Carteira da aviação comercial da Embraer cresceu 1% no 2º tri, para US…
- [infomoney.com.br] BBA aposta em exportadoras e vê Embraer, Petrobras e Vale como proteçã…