Embraer na mira do Farnborough|A conta que o mercado já fez antes do anúncio

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O pedido que a Gol ainda não confirmou

A Abra, holding que controla a Gol, está perto de fechar um pedido de até vinte jatos da família E2 com a Embraer. Segundo pessoas com conhecimento do assunto, o anúncio pode sair já na próxima semana, durante o Farnborough International Airshow, um dos maiores eventos da aviação mundial.

O timing não é acidental. A Embraer chega ao evento em Farnborough logo depois de divulgar seu Market Outlook 2026, relatório que projeta demanda global de oito mil e quinhentos jatos comerciais de até cento e cinquenta assentos até 2045, um mercado estimado em seiscentos e cinquenta bilhões de dólares. A companhia tem posição forte justamente nesse segmento.

Mas o pano de fundo não é só otimismo. As ações da Embraer, negociadas como EMBR3 na bolsa brasileira, caíram mais de onze por cento após o resultado do primeiro trimestre de 2026, pressionadas por compressão de margens. É nesse cenário de correção recente que o possível pedido da Gol chega — como um catalisador que pode confirmar ou desmentir a tese dos analistas mais otimistas.

A matemática que os bancos já fizeram

O JPMorgan colocou número nisso. Segundo o banco, cada um bilhão de dólares em novos pedidos pode representar uma valorização de cerca de quatro por cento nas ações da Embraer, com base no múltiplo atual de valor da empresa sobre carteira de pedidos, de zero vírgula trinta e oito vez. No cenário mais otimista, com até três bilhões de dólares em encomendas, principalmente em defesa, o banco projeta alta de até onze por cento para o papel.

A XP vê o momento como uma assimetria favorável. Segundo a corretora, boa parte do mercado já espera uma atividade mais limitada de anúncios neste Farnborough, tanto na aviação comercial quanto no cargueiro militar C-390 Millennium, por causa de incertezas macroeconômicas e geopolíticas. Justamente por isso, expectativas mais baixas abririam espaço para uma reação mais forte caso a Embraer confirme um pedido relevante.

O ponto de virada não é se a Gol vai comprar os jatos — é que o mercado já precificou um leque de cenários antes mesmo da confirmação. A pergunta deixou de ser "a Embraer vai vender" e passou a ser "quanto, e a que múltiplo isso se traduz em ação". Cada bilhão de dólares agora tem um preço de bolsa embutido antes mesmo de virar contrato assinado.

O que fica depois do Farnborough

Por trás do evento pontual, há uma tese estrutural em andamento. A carteira de pedidos da Embraer fechou o primeiro trimestre de 2026 em recorde de trinta e dois vírgula um bilhões de dólares, alta de vinte e dois por cento em um ano — com a aviação comercial sozinha somando quinze bilhões de dólares, crescimento de cinquenta por cento no período.

O BTG Pactual lembra que a companhia chega a este Farnborough com uma carteira de pedidos bem mais robusta que em eventos anteriores, especialmente na família E2 — a mesma linha que a Gol estaria negociando. Se o padrão se repetir como no Paris Air Show do ano passado, quando as ações reagiram fortemente à antecipação de anúncios, o evento desta semana pode funcionar como gatilho, não como fim de história.

No fim, o pedido da Gol é só a ponta visível de uma equação maior: uma fabricante que projeta demanda de oito mil e quinhentos jatos até 2045, mas cuja ação ainda reage trimestre a trimestre a onze por cento de queda ou alta. Farnborough não decide o futuro da Embraer — só mostra, em tempo real, se o mercado e a companhia estão lendo a mesma tese.

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