Embraer o pedido de US 366 milhões que revela o verdadeiro prazo da tese

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A tese e o prazo

A Embraer continua recebendo notícias que parecem confirmar uma tese simples: a demanda está forte, a carteira bate recordes e a empresa finalmente entrou em uma nova fase de crescimento. Mas o contrato colombiano do KC-390 mostra que a história é mais interessante — e também mais lenta — do que a manchete sugere.

O contrato colombiano

Em 31 de julho, a Colômbia finalizou os detalhes para assinar a compra de dois cargueiros KC-390, em um pacote de US$ 366,4 milhões que inclui suporte e equipamentos de reabastecimento. O primeiro avião deve ser entregue até outubro de 2029; o segundo, até novembro de 2030. Os pagamentos também foram distribuídos no tempo: US$ 94 milhões em 2027, US$ 88 milhões em 2028 e o restante entre as entregas de 2029 e 2030.

Carteira não é receita

O fato reforça a expansão da divisão de Defesa, mas qualifica a interpretação mais imediata do mercado. Nos últimos dias, a Embraer vinha sendo apresentada como uma companhia com visibilidade de receitas até o fim da década. A carteira chegou a US$ 34,5 bilhões no segundo trimestre, alta de 16% em um ano e o sétimo recorde consecutivo. A XP também destacou uma relação entre pedidos e entregas acima de uma vez em todas as divisões, com índice de 2,6 vezes em Defesa e carteira militar de US$ 6,1 bilhões após o contrato com os Emirados Árabes Unidos.

O ciclo ainda precisa ser executado

O pedido colombiano, porém, deixa claro que carteira não é o mesmo que receita imediata, muito menos que lucro imediato. O dinheiro chega antes das entregas, o que pode ajudar a financiar parte do ciclo de produção, mas a companhia ainda precisa fabricar as aeronaves, cumprir o cronograma e administrar custos de fornecedores, mão de obra e capital de giro. Como o preço inclui suporte e equipamentos, o corpo da notícia não permite calcular qual será a margem efetiva da Embraer nesse contrato.

Essa é a mudança importante para o investidor. A tese deixou de depender apenas de uma recuperação cíclica da aviação comercial. A Embraer está construindo uma combinação de negócios comerciais, executivos, serviços e defesa, com contratos que se estendem por vários anos. A XP estima margens de 10% a 12% para Defesa entre 2026 e 2028, mas isso é uma projeção de analistas, não um resultado já comprovado pelo contrato colombiano.

O entusiasmo tem limites

Também existe uma explicação alternativa para o entusiasmo. Parte do impulso vem de fatores que podem não durar para sempre: Airbus e Boeing acumulam filas enormes de pedidos, a demanda por jatos executivos permanece aquecida e os governos elevaram os gastos militares. A própria valorização já foi expressiva. Desde 2021, as ações subiram cerca de dez vezes, e, após o recorde da carteira, os papéis avançaram 5,33% em uma sessão. O JPMorgan observou que a Embraer negociava a cerca de 0,35 vez o valor da empresa sobre a carteira, acima da média histórica de 0,28 vez.

Por isso, a pergunta não é mais se a Embraer tem pedidos. Ela tem. A pergunta é quanto desses pedidos será convertido em entregas, margem e caixa sem exigir um salto excessivo de investimento. A empresa pode até discutir um avião maior para enfrentar Airbus e Boeing, mas a própria cobertura que levantou essa possibilidade lembra que um projeto desse porte poderia custar cerca de US$ 10 bilhões e que a Bombardier quase quebrou ao tentar entrar nesse mercado. A Embraer diz que não tem pressa, e isso parece coerente com a oportunidade de aprofundar o nicho em que já possui vantagem.

O que o pedido realmente confirma

Para quem já tem a ação, o contrato colombiano é uma confirmação da relevância internacional do KC-390, mas não justifica tratar todo o valor anunciado como resultado dos próximos trimestres. Para quem observa de fora, o ponto de entrada depende menos da manchete do pedido e mais do preço pago por uma empresa cuja execução ainda precisa acompanhar o otimismo.

O próximo teste objetivo será a divulgação dos resultados do segundo trimestre, marcada para 10 de agosto. Ela poderá mostrar se o crescimento da carteira já está aparecendo nas entregas, nas margens e na geração de caixa. Ainda permanecem desconhecidos o momento exato da assinatura definitiva do contrato colombiano, a margem do pacote e os riscos de execução até 2030. A Embraer parece estar em um ciclo de crescimento duradouro, mas o pedido de US$ 366 milhões também lembra que, nessa história, o futuro chega em parcelas.

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