Embraer US 32 bi em Pedidos|6 Recordes Seguidos no Meio da Turbulência
O dia em que o Ibovespa recuou — e a Embraer bateu mais um recorde
O Ibovespa fechou em queda de 0,61% nesta segunda-feira, perdendo os 190 mil pontos. O dólar recuou a R$ 4,98, mas os juros futuros subiram com o impasse nas negociações entre Estados Unidos e Irã e com o Copom na mira dos investidores da semana. As construtoras lideraram as perdas — Tenda caiu 8,6%, Cury recuou 7,7%, MRV cedeu mais de 5%. A alta dos juros futuros castigou o setor de habitação.
Foi nesse ambiente que a Embraer divulgou seus números do primeiro trimestre de 2026.
A carteira de pedidos atingiu US$ 32,1 bilhões. Um aumento de 22% em relação ao mesmo período de 2025. O sexto recorde histórico consecutivo da companhia.
Enquanto o mercado olhava para o Oriente Médio e para Brasília, a fabricante brasileira de aviões enfileirava mais um recorde como se o cenário global volátil fosse ruído de fundo — não uma ameaça real.
Por que a Embraer cresce quando o mundo encolhe
A resposta está em onde os pedidos estão vindo. A aviação comercial da Embraer cresceu 50% na carteira em um ano, chegando a US$ 15 bilhões dos US$ 32,1 bilhões totais. Isso não acontece por acaso num mundo de tarifas, tensão geopolítica e dólar instável.
A Embraer opera em um nicho específico: jatos regionais de 70 a 150 assentos. São aeronaves para rotas secundárias, onde a Boeing e a Airbus não competem diretamente. E é exatamente esse mercado que está em expansão. Companhias aéreas de mercados emergentes — América Latina, sudeste asiático, África — precisam de aviões menores para ligar cidades intermediárias. A Embraer é praticamente a única opção.
As entregas no trimestre foram de 44 aeronaves, alta de 47% em relação ao primeiro trimestre de 2025. Isso corresponde a 16% do total previsto para o ano inteiro — quatro pontos percentuais acima da média histórica de 12% para o primeiro trimestre.
O recorde anterior era de US$ 31,6 bilhões, registrado no quarto trimestre de 2025. Cada trimestre, a barra sobe. Cada trimestre, a Embraer passa por cima.
Mas há um ponto que precisa de atenção. A carteira de pedidos reflete intenções de compra, não receita realizada. A execução — entregar as aeronaves no prazo, manter margens, absorver custo de insumos com o câmbio — é onde a história pode mudar de direção.
O que vem a seguir — e o que pode interromper a sequência
Seis recordes consecutivos numa indústria de ciclos longos é uma trajetória fora do comum. O último ciclo de expansão comparável da Embraer aconteceu entre 2012 e 2014, quando a carteira de pedidos da aviação executiva impulsionou os números. Naquela época, o pico foi seguido por uma desaceleração abrupta quando o mercado corporativo norte-americano esfriou.
O ciclo atual é diferente em base: é aviação comercial, não executiva. Pedidos de companhias aéreas tendem a ter contratos mais firmes e menor taxa de cancelamento. Isso dá mais previsibilidade à receita futura.
A tendência atual se mantém enquanto as companhias aéreas de mercados emergentes continuarem expandindo rotas regionais e enquanto a Embraer conseguir entregar dentro do cronograma comprometido. O guidance de 240 a 255 entregas para 2026 permanece. Se o ritmo do primeiro trimestre se repetir, a empresa pode superar o teto.
O risco que pode quebrar a sequência é duplo. Do lado macro: uma desaceleração abrupta em mercados emergentes, que são hoje o principal comprador, reduziria encomendas novas. Do lado operacional: gargalos na cadeia de fornecedores — um problema que a indústria aeronáutica global ainda não resolveu completamente após 2022.
A verificação mais próxima será no segundo trimestre. Se as entregas ficarem acima de 12% da meta anual — a média histórica para o período — o argumento de aceleração estrutural ganha força. Se recuarem para esse patamar ou abaixo, o recorde do primeiro trimestre pode ter sido apoiado por adiantamentos de produção.
A Embraer fechou mais um recorde num dia em que o mercado perdeu pontos. A questão é se isso é resiliência estrutural ou antecipação de demanda. A resposta chega com os números do segundo trimestre.