Gerdau GGBR4 e o escudo tarifário de Trump|Fitch sobe perspectiva enquanto minério chinês cai

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Capítulo 1: A aposta da Fitch no escudo de preços

A Gerdau recebeu nesta quinta-feira uma revisão de perspectiva para positiva pela Fitch, com o rating BBB mantido. O argumento central da agência não é o resultado atual — é a proteção estrutural que as tarifas de Donald Trump oferecem ao aço americano. A Fitch afirmou que "as tarifas impostas pelo governo americano devem seguir sustentando os preços no país", e foi esse mecanismo que justificou a mudança. Esse é o ponto que inverte a leitura convencional: o mercado tratava o protecionismo americano como risco para exportadores brasileiros. A Fitch leu diferente — as tarifas de Trump criam um piso de preços no mercado americano e a Gerdau está posicionada exatamente nesse piso, com operações robustas na América do Norte. Os números sustentam a tese: o EBITDA ajustado da divisão norte-americana saltou para R$ 2,25 bilhões no primeiro trimestre de 2026, ante R$ 1,2 bilhão no mesmo período de 2025, praticamente dobrando em um ano. O lucro total do grupo chegou a R$ 1 bilhão no 1T26, alta de 33,6% na comparação anual, com EBITDA de R$ 3 bilhões e crescimento de 23,2%. A Fitch aponta demanda aquecida em infraestrutura: obras de transporte e pontes nos EUA saíram da fase de projeto para execução efetiva. Mas a upgrade de perspectiva não é um upgrade de nota — é uma aposta de que o ambiente tarifário continuará protegendo os preços. E essa aposta tem uma data de verificação imediata.

Capítulo 2: O que o mercado vê que a Fitch não precifica

A mesma semana que trouxe o upgrade da Fitch trouxe o alerta oposto: o mercado de minério de ferro chinês pressionou para baixo, com estoques portuários subindo 1,3% ante a semana anterior para 175,44 milhões de toneladas. A lógica é direta — o minério é o principal insumo do aço, e a China é o maior comprador global do produto. Quando a China armazena mais e processa menos, o preço do minério cai, e os custos da Gerdau no lado brasileiro sobem em termos relativos de competitividade. A Fitch reconhece parcialmente esse risco: "a desvalorização do real e as paralisações na unidade de Ouro Branco elevaram os custos no Brasil em 2025." O segmento brasileiro da Gerdau segue com recuperação gradual, não com aceleração. A agência também aponta sinais de desaceleração nos segmentos automotivo e de óleo e gás nos EUA — exatamente os setores que historicamente absorviam aço longo americano além da infraestrutura. Aqui está o paradoxo que o upgrade esconde: a tese da Fitch requer que o escudo tarifário sustente os preços do aço na América do Norte enquanto a demanda por infraestrutura compensa a desaceleração automotiva. Se o minério chinês continuar caindo e a infraestrutura americana absorver a lacuna, a Fitch está certa. Se as tarifas recuarem antes que a infraestrutura amadureça, a Gerdau perde o piso de preços sem a rede de segurança da demanda diversificada. E o teste desse segundo cenário acontece em menos de 48 horas.

Capítulo 3: A audiência de segunda-feira que decide a premissa

Na segunda-feira, 6 de julho, o Escritório do Representante de Comércio dos EUA realiza audiência pública sobre a proposta de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros. A Confederação Nacional da Indústria e a Fiesp participarão, representadas pelo ex-diretor-geral da OMC, Roberto Azevêdo. O Sindifer, associação da indústria de ferro-gusa, pediu participação explicitamente para solicitar a exclusão de seus produtos — e a Gerdau exporta aço longo para os EUA. Ao mesmo tempo, 43 empresas e associações americanas já se manifestaram ao USTR pedindo a exclusão de produtos brasileiros das tarifas, argumentando que não há substitutos nacionais disponíveis e que os custos seriam repassados aos consumidores americanos. A American Seed Trade Association alertou que exportações de sementes para plantio caíram ao menor nível desde 2012 sob a pressão tarifária anterior. Esse é o dado que o mercado ainda não precificou: parte significativa do establishment industrial americano está do lado do Brasil na audiência. O ministro Márcio Elias Rosa confirmou que o prazo final para resolução das negociações é 15 de julho. O que muda para a Gerdau: se a audiência sinalizar manutenção ou endurecimento das tarifas sobre aço, o escudo de preços da Fitch se confirma e o upgrade ganha lastro. Se a audiência sinalizar recuo das tarifas sobre insumos siderúrgicos, a premissa da Fitch desaba — e o upgrade foi publicado sobre uma proteção que já estava sendo negociada de volta. O ponto de monitoramento para qualquer posição em GGBR4 não é o próximo resultado trimestral. É o comunicado do USTR nos dias 6 e 7 de julho: manutenção das tarifas sobre aço converte o upgrade da Fitch em tese sólida; recuo sobre insumos siderúrgicos transforma o upgrade em sinal precoce que exige reavaliação antes do 2T26.

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