Gerdau lucra nos EUA|Brasil em queda?
Dois ciclos na Gerdau
À primeira vista, o resultado da Gerdau parece simples: lucro líquido de R$ 1,466 bilhão no segundo trimestre, alta de 69,7% em um ano. Mas a leitura mais importante não é que a siderúrgica brasileira se recuperou por inteiro. É que a empresa está atravessando dois ciclos muito diferentes.
A proteção do dólar
Na véspera do balanço, o BTG incluiu GGBR4 em sua carteira de agosto para aumentar a exposição ao dólar. O banco dizia que cerca de 75% do EBITDA era dolarizado. O resultado confirmou essa proteção cambial, mas mostrou algo mais concreto: a América do Norte respondeu por 74% do EBITDA da Gerdau e por 56% da receita consolidada.
O motor norte-americano
Ali, a receita cresceu 10,8% e o EBITDA avançou 59%. A margem chegou a 25,7%. Esse desempenho veio da combinação de preços melhores, maior participação de produtos de valor agregado e aumento das vendas. A demanda também foi favorecida por investimentos em energia renovável, data centers e indústria de transformação. A carteira de pedidos de aços longos comuns passou de cem dias, o maior nível desde 2021.
Mais resultado por tonelada
Isso ajuda a entender por que o lucro subiu tanto mesmo com a receita consolidada crescendo apenas 2%. A Gerdau não está simplesmente vendendo muito mais aço em todos os lugares; ela está ganhando mais por tonelada e concentrando geração de resultado na operação norte-americana. As medidas tarifárias dos Estados Unidos também continuaram protegendo os produtores locais.
A fotografia do Brasil
No Brasil, a fotografia é outra. A receita caiu 8,6% em um ano, o EBITDA recuou 19,6% e a margem caiu de 12% para 10,5%. Houve melhora em relação ao primeiro trimestre, mas isso ainda não configura uma recuperação doméstica ampla. As importações de aço caíram mais de 30%, e o governo reduziu em 30% os limites anuais de algumas categorias protegidas. Mesmo assim, os importados ainda representaram 22,5% do mercado no primeiro semestre. A demanda industrial continuou pressionada, e a produção de veículos pesados caiu 11% na primeira metade do ano.
Açonorte em readequação
A readequação da unidade Açonorte, em Pernambuco, torna essa diferença visível para além da planilha. A Gerdau encerrou as operações de aciaria e laminação no local, o que deve provocar cerca de 160 desligamentos. Aproximadamente 450 postos serão mantidos, e a unidade passará a fabricar telas, arames e pregos. A empresa fala em produtividade e rentabilidade; o sindicato ainda avalia as condições do plano de demissão incentivada. O balanço não permite afirmar quanto essa mudança economizará nem se ela representa uma solução definitiva para a demanda local.
Lucro e cortes
Por isso, o lucro recorde e os cortes não são necessariamente contradições. O primeiro mostra onde a Gerdau está conseguindo capturar preço, mix e demanda. O segundo mostra onde a companhia está redimensionando capacidade porque o mercado ainda não oferece a mesma resposta. Para o acionista, dividendos de R$ 451,3 milhões, fluxo de caixa livre positivo e dívida líquida 11% menor reforçam a capacidade financeira. Mas não transformam automaticamente o Brasil em um novo motor de crescimento.
O próximo teste
O próximo teste será separar o que é ciclo do que pode se tornar estrutural. A carteira acima de cem dias na América do Norte, a expansão de Midlothian, no Texas, prevista para o segundo semestre, e a evolução da margem brasileira são observações mais úteis do que repetir o crescimento de 70% do lucro. Para quem acompanha a ação, a pergunta não é apenas se a Gerdau continuará lucrando. É se o negócio norte-americano sustentará essa rentabilidade enquanto a reconfiguração brasileira finalmente melhora volumes e margens. Os corpos consultados não resolvem quanto tempo durarão a proteção tarifária, a demanda ligada a data centers e a fraqueza industrial brasileira. Essa é a incerteza que ainda separa um trimestre excelente de uma mudança duradoura na tese.