Goldman Sachs|A queda dos papéis
Lucro e venda
O Goldman Sachs acaba de reportar o segundo melhor trimestre de sua história. A receita líquida atingiu US$ 17,2 bilhões, enquanto o lucro líquido somou US$ 5,6 bilhões. O lucro por ação foi de US$ 17,55 — o segundo maior patamar já registrado pela instituição. O retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) beirou os 20%. Por qualquer métrica convencional, o resultado foi um triunfo. Ainda assim, as ações recuaram 2,9% no pregão.
Essa variação não é um erro de arredondamento. O Goldman Sachs teve o pior desempenho do índice Dow Jones na segunda-feira. Enquanto o S&P 500 retornou ao território positivo no acumulado do ano — recuperando-se de uma forte liquidação matinal desencadeada pelo anúncio de Donald Trump de um bloqueio naval no Estreito de Ormuz —, os papéis do banco mantiveram a trajetória de queda mesmo com a recuperação do índice.
A narrativa principal já havia sido traçada pelo choque geopolítico. O petróleo ultrapassou os US$ 100 por barril após a Marinha dos Estados Unidos iniciar o bloqueio de todos os navios que entravam e saíam de portos iranianos, a partir das 10h de segunda-feira. Os mercados de ações abriram em forte queda. No entanto, um relatório do New York Post ao meio-dia — citando um analista paquistanês — sugeriu que autoridades iranianas estariam estudando aceitar a condição americana de abandonar o enriquecimento de urânio. Os mercados reagiram rapidamente. O S&P 500, que operava no negativo no ano, ficou brevemente no azul. As ações de energia dispararam. O banco de investimento do Goldman reportou receitas recordes em Global Banking and Markets de US$ 12,7 bilhões, com as receitas de assessoria saltando 89% na comparação anual.
Ainda assim, o Goldman fechou o dia em baixa.
Sinal de venda
A explicação está na própria teleconferência de resultados do banco. David Solomon observou que as receitas de assessoria subiram impulsionadas pelo maior volume de fusões e aquisições (M&A) concluídas. Já as receitas de FICC — o segmento de renda fixa, moedas e commodities que costuma capturar ganhos extraordinários em períodos de volatilidade geopolítica — vieram abaixo das expectativas. O braço de FICC, que deveria ser o beneficiário direto do salto do petróleo para US$ 100 e do bloqueio em Ormuz, decepcionou. O Goldman lucrou de forma brilhante com a conclusão de negócios assinados antes da escalada do conflito com o Irã, mas não capturou o prêmio de volatilidade gerado pela guerra em si.
Essa distinção é fundamental para as projeções futuras. O backlog de assessoria do Goldman foi construído sobre acordos anunciados em um período de relativa calma geopolítica. Com a continuidade do bloqueio em Ormuz, conselhos de administração tendem a congelar cronogramas de fusões. O fluxo que gerou US$ 1,5 bilhão em receitas de assessoria neste trimestre dificilmente será reposto no mesmo ritmo sob as atuais condições. O UBS manteve sua recomendação Neutra com preço-alvo de US$ 930, observando que a superação do lucro por ação foi impulsionada majoritariamente por efeitos tributários, e não por performance operacional superior.
Há ainda um segundo fator. As receitas de subscrição de ações do banco subiram 45% em termos anuais, para US$ 535 milhões, com a conclusão de ofertas. Contudo, novas emissões de ações em um ambiente de petróleo a US$ 100 e prêmio de guerra tendem a desacelerar imediatamente. As receitas contabilizadas na segunda-feira refletem um mundo de 90 dias atrás. O que o Goldman reportará no próximo trimestre refletirá o mundo atual — onde o Estreito de Ormuz está bloqueado, as negociações de cessar-fogo em Islamabad fracassaram no fim de semana e o Irã não aceitou a condição sobre o urânio. O ROE de 19,8% celebrado pela manhã já é um dado do passado.
Enquanto isso, a Intel registrou seu nono dia consecutivo de alta, acumulando 56% de ganho no período e estendendo seu rali mais longo desde os anos 70. O banco de investimento do Goldman ajudou a financiar muitos dos negócios de infraestrutura de IA que impulsionaram a reprecificação da Intel. Porém, o próprio banco sofreu venda enquanto esses ativos se valorizavam ao seu redor. Essa assimetria definiu o momento financeiro do dia.
Rumos do banco
A questão central é se o desempenho do primeiro trimestre representa uma mudança estrutural no patamar de lucros do Goldman ou se foi apenas o último trimestre "limpo" antes que o risco geopolítico afete o pipeline de negócios.
A BlackRock elevou sua recomendação para ações americanas na segunda-feira, citando a resiliência dos balanços e o que chamou de riscos contidos no Oriente Médio. Essa visão assume que o bloqueio permanecerá como uma ferramenta de negociação, e não como uma postura militar sustentada. Se as autoridades iranianas aceitarem a condição de enriquecimento de urânio — e o relato do New York Post, embora contestado, moveu o mercado —, o ambiente de M&A pode se recuperar rapidamente. Nesse caso, a carteira do Goldman voltaria a acelerar, e a queda atual seria vista como um ponto de entrada.
Caso o bloqueio se estenda por uma segunda semana, a interrupção na oferta de petróleo torna-se estrutural. Os últimos navios com petróleo iraniano já estavam a caminho das refinarias na segunda-feira, segundo o Financial Times. Assim que essa carga chegar ao destino, o mercado físico ficará pressionado sem uma reposição equivalente. As receitas de FICC do Goldman poderiam surpreender positivamente no segundo trimestre devido à volatilidade das commodities. No entanto, a divisão de M&A sofreria compressão e a subscrição de ações desaceleraria ainda mais. O efeito líquido tende a ser negativo para a trajetória de lucros anuais, mesmo em um cenário de ganhos com trading de petróleo.
O peso das evidências aponta para a manutenção do segundo cenário, pelo menos até o meio do trimestre. As ações do Goldman já precificaram um negócio operacionalmente melhor. O que ainda não foi precificado é um mundo onde o pipeline de negócios esvazia mais rápido do que é preenchido. O resultado histórico é real, mas a premissa de cautela embutida na queda de segunda-feira também é.
O dado a ser monitorado agora é o anúncio da próxima conclusão de assessoria em M&A. Se o Goldman confirmar o fechamento de um negócio relevante no segundo trimestre que tenha sido assinado antes da guerra, a ação terá um caminho crível de volta aos US$ 950. Se o fluxo de anúncios silenciar em maio, a liquidação do mercado terá se provado correta. O recorde do primeiro trimestre permanece; a dúvida é se ele representa um teto ou um piso.