Google US175 bi em IA|O novo fornecedor

2026-04-20 · B3

Onde o Dinheiro da IA Vai

A Nvidia registrou queda na segunda-feira. Não devido a resultados financeiros, a um choque macroeconômico, ou à escassez de demanda por chips de inteligência artificial. A queda ocorreu porque um de seus maiores clientes pode estar trabalhando para substituí-la.

A Alphabet está em negociações avançadas com a Marvell Technology para codesenvolver duas novas versões de chips de IA personalizados para as cargas de trabalho do Google Cloud, conforme relatos que circularam na manhã de segunda-feira. As ações da Marvell dispararam quase 4%, enquanto as da Alphabet permaneceram praticamente estáveis. A Nvidia, por sua vez, caiu cerca de 1% — um movimento discreto, mas que transmite uma mensagem clara.

Este movimento ocorreu no mesmo dia em que o JPMorgan apontou a Alphabet como sua principal recomendação, antes do evento Google Cloud Next em Las Vegas, projetando que o Google Cloud poderia representar 19% da receita total da Alphabet em 2026. O banco observou que o backlog do Google Cloud aumentou 160% em relação ao ano anterior, atingindo US$ 240 bilhões no final de 2025. A construção da infraestrutura de IA não está desacelerando. Pelo contrário, está acelerando. Portanto, a questão não é se a Alphabet está gastando, mas sim quem está recebendo esses pagamentos.

A projeção de despesas de capital (capex) da Alphabet para 2026 varia entre US$ 175 bilhões e US$ 185 bilhões. Isso não é um erro de arredondamento. É um montante capaz de reconfigurar toda uma cadeia de suprimentos de semicondutores — e, na segunda-feira, o mercado recebeu o primeiro indício concreto de como essa reconfiguração pode se desenrolar.

Cliente Vira Fabricante

A lógica por trás do desenvolvimento de chips por hiperescalares é bastante direta, uma vez que se observa o padrão. As cargas de trabalho de IA do Google — inferência, processamento intensivo de memória e serviços de nuvem em larga escala — não exigem uma GPU de propósito geral. Elas necessitam de silício desenvolvido especificamente para essas tarefas, e com uma estrutura de custos que a Nvidia não oferece.

A Broadcom tem sido o nome dominante nesse segmento. Recentemente, a Meta formalizou uma parceria de chips com a Broadcom para sua própria infraestrutura de IA. Agora, a Alphabet parece estar atraindo a Marvell para a mesma órbita, e o mercado imediatamente penalizou a Nvidia com a notícia.

Este é o sinal digno de atenção: não a alta de 4% da Marvell, mas a queda de 1% da Nvidia em um dia em que as notícias sobre gastos com IA eram esmagadoramente otimistas.

Há um paralelo histórico aqui. Quando a Apple anunciou em 2020 que estava abandonando os processadores Intel em favor de seus próprios chips M1, as ações da Intel caíram, e o movimento foi inicialmente visto como restrito a dispositivos de consumo. Em dois anos, a transição para os chips M havia reconfigurado o perfil de margem da Apple, e a Intel havia perdido permanentemente um de seus clientes mais prestigiados. A transição não ocorreu da noite para o dia. Aconteceu em etapas. E cada etapa foi anunciada com a mesma premissa: "isso é para cargas de trabalho específicas".

As negociações entre Alphabet e Marvell estão em estágio inicial. Nenhum acordo foi confirmado. No entanto, se o padrão se mantiver, o que começa como codesenvolvimento de chips direcionados para cargas de trabalho de inferência tende a se expandir. A questão não é se a Nvidia perderá o Google por completo, mas sim se a porcentagem do orçamento de computação de IA do Google destinada à Nvidia começará a diminuir, e em que ritmo.

Há uma condição que complica essa lógica. O ecossistema da Nvidia — sua pilha de software, bibliotecas CUDA e ferramentas de desenvolvimento — cria custos de mudança que o silício personalizado não consegue replicar facilmente da noite para o dia. A Alphabet tem construído seus próprios TPUs há anos e ainda utiliza GPUs da Nvidia para diversas cargas de trabalho. O silício interno e o de terceiros têm coexistido. A ameaça para a Nvidia não é a substituição. É a compressão da participação de mercado.

Os Próximos 90 Dias

Dois eventos no curto prazo irão esclarecer a real dimensão dessa mudança. O primeiro é o Google Cloud Next em Las Vegas, onde o JPMorgan espera que a empresa se concentre no que denomina "Agentic Cloud" — agentes de IA executando fluxos de trabalho multi-etapas em escala. Se a Alphabet usar esse palco para anunciar marcos em silício personalizado ou uma independência de infraestrutura mais profunda, as negociações com a Marvell parecerão o movimento inicial de um reposicionamento muito maior.

O segundo é o próximo relatório de resultados da Alphabet. Se a gestão discutir a alocação de capex em termos de silício personalizado versus aquisição de terceiros, esse comentário será mais importante do que qualquer anúncio de chip. Uma mudança na linguagem — de "usamos GPUs da Nvidia" para "estamos construindo para nossas cargas de trabalho específicas" — seria um sinal estrutural, e não apenas um evento isolado no preço da ação.

As evidências atuais apontam em uma direção. O backlog de US$ 240 bilhões do Google Cloud cria uma pressão enorme para reduzir os custos de computação por unidade. Chips personalizados, uma vez desenvolvidos, custam menos por inferência do que GPUs genéricas em larga escala. A lógica financeira para a produção interna é forte, e ela se intensifica ao longo do tempo à medida que a receita da nuvem cresce.

O cenário que pode quebrar essa lógica é o próprio roteiro da Nvidia. Se Blackwell e as gerações que se seguem a ele reduzirem a lacuna de eficiência entre o silício de propósito geral e o personalizado — ou se as vantagens de software da Nvidia se mostrarem mais difíceis de replicar do que o esperado — o argumento para o codesenvolvimento de chips proprietários enfraquece. Clientes corporativos que adotam a pilha de IA "agentic" do Google Cloud também podem exigir portabilidade de carga de trabalho, o que mantém o hardware de terceiros em cena por mais tempo do que os otimistas do silício personalizado esperam.

A queda de 1% da Nvidia na segunda-feira não foi um colapso. Foi uma pergunta. A resposta depende de quantos de seus maiores clientes estão tendo a mesma conversa que a Alphabet estaria mantendo com a Marvell neste momento.