Guerra no Irã e Petróleo|Até quando o Brasil aguenta o repasse?
Petróleo acima de US$ 100
O Brent ultrapassou US$ 107 por barril nesta semana, mas o que chama atenção não é o nível em si — é o que o presidente Trump fez quando o Irã apresentou uma proposta de cessar-fogo: rejeitou em menos de 24 horas, chamando a resposta de "totalmente inaceitável". Cada rejeição diplomática empurra o petróleo para cima porque o Estreito de Ormuz — por onde passa 20% do petróleo mundial — permanece restrito ao tráfego normal. O problema para o Brasil não é o barril em Nova York; é o que esse preço obriga a Petrobras a fazer em Brasília.
A Petrobras registrou lucro de R$ 32,7 bilhões no primeiro trimestre, mas o número esconde a tensão estrutural: a defasagem da gasolina em relação aos preços internacionais chegou a 65%, e no diesel a 30%, segundo cálculo da Abicom. A presidente Magda Chambriard disse publicamente que o reajuste da gasolina vai acontecer "já, já" — palavra do próprio comunicado. Ela pausou a decisão apenas porque o preço do etanol recuou nos últimos 15 dias, o que tornaria a gasolina reajustada imediatamente não competitiva nos postos. Mas esse equilíbrio é temporário: com a safra de cana avançando, o etanol sobe sazonalmente no segundo semestre, e a janela para reajustar gasolina sem perder market share se fecha.
A consequência direta é que o mercado não está precificando apenas o petróleo hoje — está precificando a probabilidade de um reajuste de combustível antes das eleições de outubro, o que muda o cálculo de inflação e, portanto, da trajetória de juros. O IPCA de abril desacelerou para 0,67%, abaixo do 0,88% de março, mas o acumulado em 12 meses subiu de 4,14% para 4,39%. O mercado financeiro elevou pela nona semana consecutiva a projeção de inflação para 2026, agora em 4,91% — acima do teto da meta de 4,5%. Cada semana que o petróleo permanece acima de US$ 100 sem repasse nos combustíveis é uma semana em que a defasagem cresce e o reajuste inevitável fica maior.
Carne Brasileira Vetada
Enquanto o petróleo pressionava o câmbio e a inflação doméstica, a União Europeia anunciou na terça-feira uma decisão que atinge o agronegócio por um mecanismo completamente diferente — e que o setor já sabia que vinha desde 2019. O Brasil foi excluído da lista de países autorizados a exportar carne e produtos de origem animal para o bloco europeu a partir de 3 de setembro, sob a alegação de que o país não forneceu garantias suficientes sobre a não utilização de antimicrobianos promotores de crescimento na pecuária.
O impacto quantificável é imediato: em 2025, o Brasil exportou US$ 1,8 bilhão em carnes para a UE — o segundo maior mercado, atrás apenas da China. Só em carne bovina, o valor foi de US$ 1,048 bilhão, com 128 mil toneladas. A questão que o mercado ainda não respondeu completamente é se esse volume vai para outros destinos ou se pressiona os preços domésticos para baixo. Argentina, Paraguai e Uruguai permanecem autorizados — o que significa que os compradores europeus não ficam sem fornecedor, e o Brasil perde poder de barganha.
O governo recebeu a decisão com "surpresa" e convocou reunião com as autoridades sanitárias europeias para esta quarta-feira. Mas o caminho para reverter o veto exige ou a proibição legal dos seis antimicrobianos listados pela UE — virginiamicina, avoparcina, bacitracina, tilosina, espiramicina e avilamicina — ou a rastreabilidade individual de cada animal exportado, o que é tecnicamente mais caro e demorado. O Ministério da Agricultura já proibiu dois dos seis em abril, mas os outros quatro ainda não têm regulação. Se o Brasil não comprovar conformidade antes de setembro, US$ 2 bilhões anuais em divisas migram para concorrentes dentro do próprio Mercosul. A pergunta que o setor ainda não consegue responder: a velocidade regulatória interna permite fechar essa janela em quatro meses?
Taxa das Blusinhas e o Custo Eleitoral
Esses dois choques — combustível e agro — chegam ao mercado no mesmo momento em que o governo Lula tomou uma decisão de sentido contrário: zerar o imposto de importação sobre compras internacionais de até US$ 50, encerrando a chamada "taxa das blusinhas". A medida foi assinada por Medida Provisória na terça-feira, a menos de cinco meses das eleições de outubro. O governo abriu mão de R$ 1,78 bilhão arrecadados apenas nos primeiros quatro meses de 2026 — crescimento de 25% sobre o mesmo período de 2025, e novo recorde histórico para o intervalo.
A lógica eleitoral é clara: a taxa era impopular entre consumidores de menor renda, que usam Shein, Shopee e Aliexpress para comprar produtos baratos. Mas o movimento cria uma contradição estrutural que o mercado está avaliando: enquanto o governo devolve receita para ganhar popularidade com consumidores, enfrenta pressão simultânea de reajuste de combustíveis que afetaria a inflação e, portanto, o mesmo eleitor que se beneficiou da isenção. O Ibovespa fechou em queda de 0,86% na terça, aos 180.342 pontos, e o dólar se manteve em R$ 4,89 — sinais de que o mercado não está decifrando o movimento fiscal como neutro.
O que conecta os três capítulos desta semana é o mesmo fator: o petróleo acima de US$ 100 força decisões que têm custo fiscal ou eleitoral inevitável. Se o Brent se mantiver nesse patamar e Trump rejeitar um novo acordo com o Irã antes do fim de maio, a Petrobras não terá escolha além do reajuste — e aí o IPCA de maio começa a mostrar os efeitos de combustível que o de abril ainda não capturou. O benchmark a observar: se o Brent cair abaixo de US$ 95 antes de um reajuste doméstico ser anunciado, a janela para adiá-lo volta a se abrir. Se permanecer acima de US$ 100 até junho, o repasse vira inevitabilidade fiscal, não escolha de gestão. O risco contrário — que o acordo com o Irã seja fechado rapidamente na reunião Trump-Xi em Pequim esta semana — é real, mas a rejeição pública de Trump à proposta iraniana na segunda sugere que as expectativas de resolução rápida estão sendo revisadas para baixo.
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