Guerra no Irã e Selic|Ibovespa ainda aguenta?

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Petróleo e a Bolsa

O Ibovespa fechou em queda de 2,38% na quinta-feira, aos 183.218 pontos. Mas a queda não foi causada por notícias ruins sobre o Brasil. Foi causada exatamente pelo oposto: pela esperança de paz.

Washington e Teerã se aproximaram de um acordo temporário para interromper a guerra no Oriente Médio. Isso derrubou o preço do petróleo no mercado internacional. E o petróleo mais barato significa menos receita para a Petrobras, que sozinha representa uma fatia enorme do índice. Os papéis da estatal caíram 2,22% nas preferenciais e 1,88% nas ordinárias. Sem esse peso, o tombo do Ibovespa teria sido menor.

A mecânica é direta. Desde que a guerra começou, no final de fevereiro, o petróleo disparou. As ações da Petrobras subiram junto. A Vibra, distribuidora de combustíveis, mais que dobrou o lucro no trimestre, expandiu importações e registrou recorde de expansão de rede. A CEO da Petrobras, Magda Chambriard, chegou a criticar publicamente que a margem de revenda do diesel subiu 124% durante o conflito.

Quando o mercado começa a precificar o fim da guerra, esse ciclo se inverte. O problema é que o acordo ainda não existe. O Irã afirmou que os EUA violaram o cessar-fogo com ataques a portos na ilha de Qeshm. A Arábia Saudita voltou a permitir o uso de suas bases militares para o "Projeto Liberdade", que retoma a escolta de navios no Estreito de Ormuz. Cada manchete nova reverteu parte do movimento, mantendo os investidores em suspense.

O ponto de verificação concreto é este: se o petróleo Brent se estabilizar abaixo de 90 dólares por barril nas próximas sessões, a pressão sobre a Petrobras continuará. Se um novo incidente militar barrar o acordo, o petróleo sobe e as petrolíferas recuperam. O que mudou é a direção do risco: antes era para cima, agora passou a ser para baixo.

Juros que não caem

A queda do petróleo foi o gatilho do dia. Mas o ambiente que amplificou o tombo do Ibovespa vem de um problema mais antigo: o Brasil cresce acima da sua capacidade produtiva há três anos consecutivos.

O Instituto Brasileiro de Economia da FGV calculou que o hiato do produto ficou positivo em 3,4% no quarto trimestre de 2025. Em linguagem direta: a demanda supera o que a economia consegue produzir. Isso força o Banco Central a manter os juros elevados para conter a inflação. A Selic parada em patamar contracionista cria um efeito assimétrico: não consegue comprimir o consumo porque o mercado de trabalho está resiliente, mas desestimula o investimento, impedindo que a capacidade instalada cresça. O resultado é um círculo que não se fecha sozinho.

O Magazine Luiza sentiu isso diretamente. A varejista reverteu o lucro do primeiro trimestre de 2025 em prejuízo de R$ 55,2 milhões entre janeiro e março deste ano, pior do que os R$ 29 milhões que o mercado esperava. As despesas financeiras chegaram a R$ 568,7 milhões, alta de 16,5% em relação ao ano anterior. O e-commerce caiu 11%. A Selic não é uma variável de fundo para o Magalu: é o principal determinante do resultado.

A WEG percorreu um caminho diferente, mas chegou a um resultado similar. O lucro caiu 5,7% frente ao mesmo período do ano passado, pressionado pela queda da demanda por projetos de geração solar no Brasil e pela desvalorização do dólar, que achatou a receita externa. Safra e Itaú BBA cortaram o preço-alvo. O Safra projeta que a recuperação só aparece no terceiro trimestre de 2027, quando a fábrica de transformadores de Betim estiver em plena operação.

Enquanto isso, a Lojas Renner mostrou um caminho alternativo. Com margem bruta de 56,7%, recorde histórico para um primeiro trimestre, e lucro de R$ 257,3 milhões, alta de 16,4%, a rede de vestuário demonstrou que, em ambiente de juros altos, a rentabilidade por unidade vendida importa mais do que o volume. O digital cresceu 7,4%, a geração de caixa livre saltou 263,7%. A diferença não está no setor: está na exposição ao crédito ao consumidor e na necessidade de capital de giro.

A condição que determina a trajetória das próximas semanas é a ata do Copom de abril, que já sinalizou que o hiato positivo do produto permanece como risco inflacionário. Se os dados de atividade de abril confirmarem essa pressão, os juros futuros continuam subindo, e empresas com alta alavancagem financeira seguem sob pressão. O DI para janeiro de 2029 fechou quinta-feira a 13,635%, alta de 11 pontos-base em um único dia. Esse número é o termômetro.

Inter e a qualidade do crédito

O Banco Inter registrou lucro recorde, cresceu a carteira de crédito para R$ 50 bilhões, avançou 33% em doze meses, e viu sua ação cair 14,22% em Nova York. A maior queda desde janeiro de 2023.

Esse resultado parece contraditório até que se olha para a inadimplência. O índice de atrasos acima de 90 dias subiu 0,5 ponto percentual em um ano, chegando a 5,1%. Os atrasos de curto prazo avançaram 0,3 ponto, para 4,6%. O custo do risco chegou a 5,6%. Para a XP Investimentos, o banco continua crescendo, mas cada vez mais às custas da qualidade dos ativos.

O mecanismo é específico. O Inter expandiu fortemente o saldo em cartões de crédito remunerados e o consignado privado, linhas que crescem rápido mas carregam mais risco em ambiente de juros elevados. O BB Investimentos apontou que a deterioração dos indicadores de qualidade de crédito aconteceu de forma disseminada na carteira, não concentrada em um segmento. Isso indica um padrão, não uma exceção.

O CFO do Inter, Santiago Stel, afirmou que o banco vê espaço para manter um crescimento da carteira próximo de 30% ao ano. O mercado não rejeitou a ambição. Rejeitou o custo. Em um ciclo de juros altos, crescer crédito a 30% ao ano exige qualidade de originação cada vez mais rigorosa para que o custo do risco não corroa o avanço do lucro.

O Bradesco passou pela mesma avaliação esta semana. O banco lucrou R$ 6,8 bilhões no trimestre, alta de 16,1%, com ROE subindo pelo sétimo trimestre consecutivo, de 15,2% para 15,8%. Mesmo assim, a ação caiu 3,89%. O mercado identificou que as despesas com provisões cresceram 26,5% na comparação anual, em razão de exposição à Raízen e ao crédito rural. O banco adotou tom mais conservador e reduziu a exposição a PMEs. A mensagem implícita: crescer crédito em 2026 virou um exercício de seleção, não de volume.

A leitura conjunta dos dois casos aponta para a mesma tensão. O setor financeiro brasileiro está entregando rentabilidade crescente, mas sinalizando que o custo para mantê-la está subindo. Se a inadimplência do Inter continuar se deteriorando acima do padrão sazonal nos próximos dois trimestres, o desconto sobre o papel se aprofunda. Se o crescimento da carteira desacelerar para preservar a qualidade, o mercado questiona a meta de ROE de 30%. Nenhuma das saídas é simples.

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