Ibovespa -1,8% com Áudio de R 134 mi|A candidatura de Flávio ainda sobrevive?

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O dia em que um áudio desarmou o mercado

Um arquivo de áudio de poucos minutos custou mais de três mil pontos ao Ibovespa em menos de duas horas. O índice já operava no campo negativo antes da publicação — a inflação ao produtor nos EUA havia subido 1,4% em abril, o maior salto desde 2022, colocando em dúvida a trajetória dos juros americanos. Mas era um risco gerenciável. O que o mercado não havia precificado era o que viria da tarde.

Por volta das 15h do dia 13 de maio, o site The Intercept Brasil publicou a reportagem que revelou negociações entre o senador Flávio Bolsonaro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro — preso por fraude — para que Vorcaro aportasse R$ 134 milhões no financiamento do filme Dark Horse, produção sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo especialistas ouvidos pelo mercado, a informação circulou nos terminais Reuters e Bloomberg alguns minutos antes da publicação formal. Foi esse intervalo que tornou o movimento legível nos gráficos: os contratos de DI futuro, que já subiam moderadamente, saltaram 30 pontos-base ao longo de toda a curva em questão de minutos.

O dólar, que operava próximo a R$ 4,92, atravessou R$ 5 com alta de 2,31%, encerrando a sessão a R$ 5,01. O Ibovespa aprofundou a queda e fechou a 177.093 pontos, recuo de 1,80% — na mínima, chegou a 176.787 pontos, queda de quase 2%. O EWZ, ETF que replica o mercado brasileiro na Bolsa de Nova York, despencou 3,82%, sinalizando que a leitura negativa do exterior foi ainda mais severa do que a doméstica. O Banco do Brasil (BBAS3), que havia divulgado mais cedo um resultado de R$ 3,4 bilhões de lucro no 1T26 — queda de 53% em um ano —, viu suas ações serem arrastadas junto, num dia em que o próprio balanço já era um peso.

A Cármen Lúcia anunciou renúncia ao TSE; o Congresso aprovava o "SUS do transporte público"; o governo publicava a MP de subsídio à gasolina de até R$ 0,89 por litro, numa tentativa de conter o repasse do petróleo importado, que subiu 80% com a guerra entre EUA e Irã. Eram eventos que em outro dia cada um teria dominado o noticiário. Neste dia, todos recuaram para segundo plano. O áudio era a variável que o mercado não havia colocado na equação da eleição de 2026.

Por que R$ 134 milhões movem a curva de juros, não apenas as ações

A pergunta que o mercado colocou na tarde de quarta não era sobre o filme. Era sobre o que a candidatura de Flávio Bolsonaro representa para a precificação do risco-Brasil a partir deste momento. Esse é o mecanismo que transforma um escândalo político em movimento de taxa de juros — e entender por que os DIs subiram mais do que o dólar revela qual leitura prevaleceu nos algoritmos de risco.

Flávio Bolsonaro era, até então, o principal candidato da direita com chance de chegar ao segundo turno contra Lula. O mercado de apostas já o colocava à frente. Quando sua associação com Vorcaro veio a público — e Vorcaro não é um banqueiro qualquer, mas o controlador do Banco Master, que gerou uma das maiores disputas sobre o FGC nos últimos anos —, o mercado releu o cenário eleitoral inteiro. Não como certeza de derrota de Flávio, mas como incerteza sobre quem estará no segundo turno, e o que essa incerteza significa para a trajetória fiscal a partir de 2027.

É por isso que os juros longos subiram mais do que os curtos. O DI para janeiro de 2035 fechou com alta de 26 pontos-base, enquanto o DI para janeiro de 2028 subiu 23 pontos-base. Quando a curva se inclina por incerteza eleitoral, o mercado está embutindo um prêmio de risco temporal: a possibilidade de que um segundo turno mais disputado — ou um candidato menos previsível para a agenda fiscal — exija taxas maiores para manter o capital alocado no Brasil.

O precedente que os operadores mais experientes citaram ontem foi o de outubro de 2022, quando as pesquisas eleitorais oscilaram e os DIs longos se moveram 40 a 60 pontos-base em sessões isoladas. Mas há uma diferença que aquele paralelo não captura: em 2022, o risco era o resultado; em 2026, o risco é a desqualificação de um candidato antes mesmo da campanha formal começar. Se Flávio for inelegível ou desistir, quem herda o eleitorado — e qual agenda fiscal esse candidato carrega — permanece uma variável completamente aberta.

A confirmação de Flávio de que negociou com Vorcaro, sem oferecer "vantagens de troca" segundo sua própria declaração, não fechou o caso: o deputado federal do PT já acionou a PF e a PGR, e Caiado pediu que Flávio "responda sobre o filme e relações com o dono do Master." A pergunta que os DIs longos fizeram ontem ainda não tem resposta: o candidato sobrevive ao processo jurídico?

O que o nível de R$ 5 no dólar sinaliza para os próximos dias

O dólar voltou a R$ 5 — e esse número importa não apenas como símbolo, mas como gatilho operacional. Fundos com mandatos de hedge cambial têm gatilhos automáticos perto desse nível; tesoureiros de empresas com dívida em dólar aceleram proteção quando a taxa rompe esse patamar. O fechamento em R$ 5,01 não é apenas um dado, é uma pressão que se auto-alimenta se não houver reversão rápida.

A condição de continuação do estresse é simples: se novos desdobramentos jurídicos sobre Flávio emergirem na próxima semana — aceitação de denúncia, quebra de sigilo aprovada, ou declaração de impacto dos aliados —, a curva de juros não voltará ao nível de terça. O benchmark verificável é a taxa do DI para janeiro de 2035: fechou em 14,145%. Se essa taxa não recuar abaixo de 13,90% até o fim da semana, o mercado está sinalizando que o prêmio eleitoral já é estrutural, não episódico.

A condição de reversão também existe. Flávio confirmou a negociação, mas negou ter oferecido contrapartidas. Se os aliados consolidarem uma narrativa de que a negociação foi dentro da legalidade — e o PT não conseguir avançar o caso na PF —, parte do prêmio se dissolve. Mais relevante: se Eduardo Leite ou outro nome do centrodireita emergir como alternativa crível no mercado de apostas, a incerteza sobre 2027 pode ser parcialmente substituída por uma alternativa com agenda fiscal legível para o mercado.

O que nenhum dos dois cenários resolve de imediato é o câmbio. O real sofreu hoje com dois vetores independentes: o risco doméstico do áudio e o risco externo do PPI americano acima do esperado, que reduziu as apostas em corte do Fed — mesmo com Kevin Warsh recém-aprovado pelo Senado americano com 54 votos a 45, a mais partidária confirmação da história para um chair do Fed. A combinação de Warsh sem espaço claro para cortar juros e um Brasil com incerteza eleitoral crescente é o cenário que mantém o dólar perto de R$ 5.

O que provaria que a leitura do mercado está errada? Se o áudio for descartado juridicamente em poucos dias e os juros longos recuarem, significa que o mercado superestimou o impacto eleitoral. Mas se o DI para 2035 se estabilizar acima de 14%, a hipótese que o mercado ontem não quis nomear em voz alta — de que 2026 pode ser uma eleição muito mais aberta do que se imaginava — começa a ser precificada como fato.

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