Natura 10% de queda na receita|ação sobe 5% por curto prazo?
Receita cai, ação sobe: o que aconteceu com a Natura
A Natura divulgou nesta quarta-feira dados preliminares do segundo trimestre de 2026 que antecipam uma queda de receita líquida consolidada de 9% a 10% na base anual, com faturamento estimado entre R$ 5,1 bilhões e R$ 5,2 bilhões. O que desafiou a lógica foi o comportamento da ação: os papéis da companhia avançaram mais de 5% no mesmo pregão, sendo um dos principais destaques do Ibovespa na manhã. A empresa atribuiu a queda a uma combinação de fatores que pesaram ao mesmo tempo. A escassez de produtos durante a estabilização do novo sistema SAP e a realocação da produção da fábrica fechada de Interlagos para Cajamar reduziram a disponibilidade de itens no canal de venda direta. Somada ao consumo desaquecido no Brasil, essa escassez derrubou o volume de atividade e a produtividade das consultoras — justamente o canal central do negócio da Natura. Novas políticas de preços entre canais desaceleraram as vendas on-line. E uma transição de 100% dos contratos de franquia para o modelo sell-out reduziu temporariamente os estoques nas lojas franqueadas. O resultado ficou abaixo das expectativas de praticamente todos os bancos. A XP previa queda de 6%, não de 9% a 10%. O Morgan Stanley projetava R$ 5,6 bilhões. O BTG estimava recuo de apenas 2%. Apesar disso, a ação subiu. O motivo declarado pelos analistas foi a sinalização da Natura de que a margem Ebitda deve crescer em relação ao primeiro trimestre de 2026, quando havia ficado em 7,3%, sustentada por menores despesas com rescisões e ganhos de eficiência do novo modelo operacional. A margem, porém, não explica os 5% de alta. O que explica é um mecanismo técnico que operou nos bastidores do pregão — e que não tem relação direta com o desempenho da empresa.
Short squeeze: por que a ação subiu com resultado ruim
O Valor Econômico apurou que um movimento de short squeeze explica a valorização das ações da Natura nesta quarta-feira. O fenômeno ocorre quando uma alta repentina no preço força investidores que apostavam na queda — os chamados vendidos — a recomprar os papéis para encerrar suas posições, o que amplifica a pressão compradora e empurra o ativo ainda mais para cima. A posição vendida nos papéis da Natura estava elevada há semanas. Analistas de bancos vinham alertando em relatórios recentes que o short interest e o custo de aluguel dos papéis seguiam altos. Com a divulgação dos dados preliminares — mesmo que negativos — um acionista relevante teria iniciado a repactuação de contrato de aluguel de ações, gerando o gatilho técnico que desequilibrou as posições. Segundo uma fonte ouvida pelo Valor: "Tinha muita gente apostando na queda do papel, pois o segundo trimestre já não parecia ter uma cara boa, com alta chance de decepcionar, e os dados mostraram agora realmente que o desempenho vem fraco, e quem estava short/alugando teve que correr para comprar ações e isto gerou pressão compradora, fazendo o preço subir." O mesmo gestor concluiu: "A notícia de hoje foi ruim para o curto prazo." Essa frase resume a contradição do pregão: o gatilho que fez a ação subir não foi uma melhora do negócio, mas a realização de perdas por quem apostava exatamente na queda que se confirmou. O ponto mais importante é o que esse movimento não significa. O short squeeze não corrige a escassez de produtos no canal de consultoras. Não acelera a estabilização do SAP. Não recupera o volume de atividade das revendedoras. Não elimina o ambiente de consumo desaquecido. Investor que comprou Natura hoje por conta da margem pode estar ancorado na leitura errada — o que o pregão precificou foi uma posição técnica sendo desfeita, não um ponto de virada operacional.
O canal de consultoras e o que o balanço de agosto vai revelar
O canal de venda por relações — as consultoras Natura — é o coração do modelo de negócio da empresa e o ponto mais sensível da recuperação. A empresa reconheceu no fato relevante que a escassez de produtos "levou a uma queda importante de volume no canal de venda por relações" e que essa queda "traduziu-se em redução anual na atividade e na produtividade das consultoras, insuficientemente compensada pela recuperação do canal observada na comparação trimestral." O timing importa: a Natura está em plena integração com a Avon, que entrou no portfólio após a aquisição do grupo Avon Products. A fábrica de Interlagos, que pertencia à Avon, foi fechada. Os volumes migraram para Cajamar. O SAP foi atualizado. Esse conjunto de mudanças simultâneas foi o que gerou a ruptura de abastecimento — e a Natura admitiu que o impacto foi "em magnitude maior do que a inicialmente prevista." O ponto que os analistas do BTG Pactual destacaram vai além da receita do trimestre. "O nível de disrupção visto no segundo trimestre levanta questões sobre execução e torna a recuperação da receita em 2026 mais desafiadora", avaliaram os analistas Yan Cesquim, Luiz Guanais e Beatriz Cendon. O banco enumera cinco desafios que a Natura precisa resolver ao mesmo tempo: normalizar produtos, recuperar produtividade das consultoras, acelerar canais digitais, reconstruir o sell-in das franquias e neutralizar o efeito temporário do ICMS-ST em São Paulo. Há também a pressão competitiva. O Globo apurou que o Boticário, rival histórica, "segundo algumas estimativas, já tem a mesma participação de mercado" que a Natura. A crise de abastecimento coincidiu com o momento em que a empresa mais precisava proteger sua fatia no varejo de beleza. A Advent International, gestora americana que comprou 6,6% da Natura em ações e mantém exposição econômica adicional de 1,4% via derivativos — chegando perto dos 8% de participação acordados —, é apontada como o catalisador de governança. O JPMorgan mantém recomendação de compra com preço-alvo de R$ 14, enxergando na entrada da Advent um potencial de reprecificação. O BTG, porém, mantém posição neutra: "Aguardamos melhorias sustentadas no desempenho operacional antes de nos tornarmos mais construtivos."
O que decide a tese: agosto, consultoras e o papel da Advent
O balanço completo do segundo trimestre será divulgado em 10 de agosto de 2026. Esse é o momento em que o mercado vai checar se o nível de disrupção do SAP e do abastecimento foi pontual ou se persiste. Uma margem Ebitda que confirme expansão expressiva — acima dos 7,3% do primeiro trimestre — pode ancorar a narrativa de que o pior ficou para trás. Uma margem abaixo disso, combinada com os mesmos problemas de canal, desloca a discussão para quando, e não se, a Natura vai reaceleração. O risco concreto que os artigos registram é a XP ter sinalizado que "considera provável uma nova revisão para baixo das estimativas de resultados da empresa." Isso significa que o curto prazo tem potencial de deterioração de consenso antes do balanço de agosto — o que poderia pressionar os papéis, especialmente agora que parte do short squeeze já se dissipou e o gatilho técnico que sustentou a alta de hoje tem vida limitada. Para o holder de NTCO3, a variável que mais importa não é a receita do 2T26 — esse dado já está divulgado. É a velocidade de normalização do canal de consultoras no terceiro trimestre. A Natura sinalizou medidas: ajuste de incentivos à força de vendas, expansão para a Shopee e aceleração da plataforma digital das consultoras. Se o 3T26 mostrar recuperação de atividade e produtividade no canal de venda direta, a tese se sustenta — e o papel da Advent como catalisador de governança ganha peso. Se o 3T26 repetir o padrão de queda de volume nas consultoras, a narrativa de recuperação perde uma âncora operacional concreta. Para quem observa de fora, a entrada não é hoje: o short squeeze que empurrou a ação +5% foi um movimento técnico, não um sinal de reversão fundamental. O ponto de entrada mais racional vem em agosto, quando o balanço completo vai mostrar se a margem Ebitda realmente expandiu e se a empresa consegue dar ao mercado uma resposta para a pergunta que o BTG fez: quando a disrupção operacional vira crescimento consistente de receita? Confirmada a melhora em agosto, o papel vira oportunidade. Sem ela, a retração de receita de hoje é apenas o primeiro capítulo de uma série mais longa.
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