Natura NATU3 7% com receita 9%|Short squeeze ou armadilha?

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O paradoxo do pregão: ação sobe com notícia ruim

A Natura (NATU3) foi o destaque positivo do Ibovespa nesta quarta-feira, 8 de julho, com alta de mais de 7% no pregão. O fato relevante divulgado pela empresa na mesma manhã revelava queda de receita líquida consolidada entre 9% e 10% no segundo trimestre de 2026, com faturamento estimado entre R$ 5,1 bilhões e R$ 5,2 bilhões.

O número ficou cerca de 6% abaixo do consenso de mercado, que projetava R$ 5,5 bilhões. O Morgan Stanley esperava R$ 5,6 bilhões. A XP, que já havia alertado para deterioração do canal de venda direta, admitiu que os dados ficaram abaixo das suas próprias projeções revisadas de queda de 6%.

A pergunta que paralisa tanto quem comprou quanto quem não comprou é a mesma: se o balanço foi ruim, o que está empurrando a ação para cima? A resposta não está nos fundamentos — está na estrutura técnica do mercado de aluguel de ações.

Short squeeze, SAP e Interlagos: o que gerou a alta

O Valor Econômico apurou que um acionista relevante estava repactuando contrato de aluguel da ação — e a performance positiva da Natura no fim de junho já tinha a mesma explicação técnica. O fenômeno chamado short squeeze ocorre quando uma alta repentina força investidores que apostavam na queda a recomprar as ações para encerrar suas posições, criando pressão compradora adicional.

Segundo uma fonte ouvida pelo Valor, a taxa média de aluguel estava em um dígito no fim de junho e cresceu aceleradamente nas semanas seguintes. "Tinha muita gente apostando na queda do papel, pois o segundo trimestre já não parecia ter uma cara boa, e quem estava short teve que correr para comprar ações", disse a fonte. O resultado: a má notícia funcionou como gatilho de compra técnica, não de convicção fundamental.

Esse detalhe muda completamente o que a alta de 7% significa. Analistas como os da XP e do Itaú BBA interpretaram o pregão positivo como reação ao único dado bom do comunicado — a projeção de expansão da margem EBITDA em relação ao primeiro trimestre. Mas a expansão de EBITDA não foi quantificada pela empresa. A alta, portanto, foi primariamente técnica, não uma validação de que os problemas operacionais estão resolvidos.

Os problemas que derrubaram a receita são cinco, simultâneos e interligados. A estabilização do novo sistema de planejamento integrado e a migração para o SAP criaram escassez de produtos. O fechamento da fábrica de Interlagos forçou realocação de volumes para Cajamar. As novas políticas de preços entre canais desaceleraram o digital. A transição de 100% dos contratos de franquia para um novo modelo reduziu momentaneamente estoques nas lojas. E o ICMS-ST em São Paulo concentrou impacto fiscal no trimestre.

O risco que o pregão ignora: venda direta versus plataformas

Aqui está o ponto que a alta técnica do pregão obscurece. O canal de venda por relações — as consultoras — representa mais de 85% das vendas da Natura Brasil. É o coração do negócio. E é exatamente esse canal que registrou redução relevante de volume no trimestre, resultado de uma combinação de escassez de produtos e consumo desaquecido.

O Itaú BBA aponta que o TikTok Shop alcançou cerca de R$ 400 milhões em volume bruto de mercadorias em maio de 2026 — apenas um ano após seu lançamento no Brasil. Mercado Livre e Shopee também ampliam presença no segmento de beleza. A base de consultoras da Natura está cada vez mais integrada a um ambiente omnichannel, com mais opções para direcionar o consumo das clientes — e a Natura não necessariamente captura essa migração.

O diagnóstico do BBA revela uma contradição que vai além do trimestre: existe um descompasso entre ganhos de participação de mercado no sell-out, onde o consumidor final compra a Natura, e a fraqueza persistente no sell-in, onde as consultoras fazem pedidos. Quando o consumidor compra mais mas a consultora pede menos, o problema não é apenas de escassez de produto — é de planejamento de demanda e composição de portfólio, e pode ser mais profundo do que parecia.

O BTG Pactual coloca o dedo na ferida mais profunda. O banco manteve recomendação neutra e afirmou que o caso de investimento "está se tornando cada vez mais dependente da capacidade do Advent de trazer execução mais forte, renovar a gestão onde necessário e repensar a estratégia de canais". O Advent entrou como acionista relevante com 8% da empresa na virada do grupo. A recuperação da Natura, em grande parte, agora repousa sobre o que esse fundo vai fazer — e o mercado ainda não tem essa evidência.

10 de agosto: a data que decide tudo

A divergência entre os bancos é o mapa da paralisia. O Itaú BBA cortou estimativas de lucro de 2026 em 79% e de 2027 em 37%, rebaixando para neutro. O Bradesco BBI seguiu o mesmo caminho. O JPMorgan manteve compra, mas reconheceu riscos de execução e apontou que os dados ficaram 6% abaixo das suas projeções. XP e Morgan Stanley adotaram postura negativa. Nenhum banco emitiu sinal de urgência para comprar ou vender — e essa ausência de consenso é a informação mais relevante do dia.

O balanço completo do 2T26, previsto para 10 de agosto de 2026, é o checkpoint decisivo. Para o portador das ações, a pergunta não é se a margem EBITDA expandiu — a empresa já sinalizou que sim, mas sem número concreto. A pergunta é se o canal de consultoras normalizou após a escassez de produtos e se o sell-in voltou a crescer. Esses dois indicadores, quando revelados no balanço, vão separar a tese de recuperação de uma armadilha técnica. Se o volume de consultoras se recuperar e o sell-in apontar crescimento, a alta de 7% terá capturado o fundo do ciclo. Se os dados confirmarem deterioração estrutural do canal de venda direta frente às plataformas digitais, a ação ainda não encontrou o piso real.

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