Natura NATU3 receita cai 10%|ação sobe 5% com Boticário ameaçando share
Receita cai 10% e a ação sobe — o paradoxo do 2T26
A Natura divulgou na manhã de 8 de julho de 2026 um fato relevante com resultados preliminares do segundo trimestre que antecipam queda de 9% a 10% na receita líquida consolidada. A estimativa aponta faturamento entre R$ 5,1 bilhões e R$ 5,2 bilhões no período, valor que ficou 7% abaixo do consenso de mercado de R$ 5,5 bilhões e 9% abaixo da projeção do Morgan Stanley. No mesmo pregão, as ações da NATU3 saltaram 5,6% e figuraram entre as maiores altas do Ibovespa.
A lógica imediata seria uma queda acentuada do papel. Por que investidores compraram ações de uma empresa que acabou de admitir que seu desempenho ficou 'em magnitude maior do que a inicialmente prevista' abaixo do esperado? A resposta está na posição vendida acumulada, não na análise fundamental. O Valor Econômico apurou que um acionista relevante estava repactuando contrato de aluguel de ações, pressionando os que apostavam na queda a recomprar suas posições — o fenômeno chamado de short squeeze.
Ao mesmo tempo que os investidores vendidos corriam para recomprar papéis, o Itaú BBA e o Bradesco BBI anunciaram cortes de recomendação para neutro, citando 'ausência de gatilhos claros para inflexão operacional no curto prazo'. O JPMorgan, por outro lado, manteve overweight. O mesmo evento — a piora do 2T26 — levou dois grupos a agir em direções opostas no mesmo instante. O gargalo que explica essa divergência é o canal de consultoras: 85% da receita Brasil da Natura depende de suas revendedoras porta-a-porta, e é ali que o problema se originou.
O colapso das consultoras: SAP, Interlagos e o 'exército' sem produto
A Natura descreveu no fato relevante uma 'severa escassez de produtos', atribuída a três fatores simultâneos: a estabilização do novo sistema integrado de planejamento, a migração para a plataforma SAP — cujo sistema anterior tinha 25 anos — e a relocação da produção após o fechamento da fábrica de Interlagos, na zona sul de São Paulo. Um gestor descreveu ao NeoFeed: 'Quando tudo isso entrou em operação, eles viram que havia parâmetros fora do ar, o que impactou no tempo de estabilização e afetou a cadeia de abastecimento.' A combinação provocou um vácuo de produtos no exato momento em que as consultoras precisavam de catálogo para vender.
O impacto foi transmitido diretamente ao resultado. O Itaú BBA estimou queda de cerca de 14% na receita da Natura Brasil no 2T26, forçando revisão que levou o banco a cortar em 79% a estimativa de lucro para 2026 e em 37% para 2027. Além da escassez, a empresa ainda enfrentou a transição de 100% dos contratos de franquia para um novo modelo — que reduziu momentaneamente os estoques nas lojas franqueadas — e o impacto de descasamento do ICMS-ST em São Paulo, concentrado no trimestre. Quatro vetores de pressão simultâneos, todos com efeito concentrado no mesmo período.
O consenso do mercado trata esses fatores como problemas de execução com prazo de resolução definido: o SAP estabiliza, a fábrica de Cajamar absorve os volumes, as franquias normalizam estoques sob o novo contrato. Nessa leitura, o short squeeze de hoje seria justificado — quem apostou na queda estava precificando uma ruptura operacional que tende a se dissipar. Mas o Itaú BBA apontou algo que desafia essa premissa: existe 'um descompasso entre ganhos de participação de mercado no sell-out e a fraqueza persistente no sell-in', indicando que mesmo onde o consumidor final compra, a máquina de reposição para as consultoras falhou. Essa divergência entre sell-out e sell-in não é explicada apenas pelo SAP.
O Boticário na porta ao lado: a ameaça que o curto prazo não enxerga
Enquanto o exército de consultoras da Natura ficou com prateleiras vazias durante meses, o Boticário manteve operação normal e, segundo o O Globo, 'já tem a mesma participação de mercado que a rival' de acordo com algumas estimativas. A premissa implícita do consenso — de que a recuperação da receita é apenas uma questão de tempo operacional — exige que o Boticário não tenha capturado clientes e consultoras durante o vácuo. Essa premissa nunca foi verificada nos artigos disponíveis.
O canal de consultoras representa mais de 85% das vendas da Natura Brasil, segundo o Itaú BBA. Uma consultora que migra para o Boticário ou para plataformas digitais leva seu relacionamento com clientes para o concorrente. O BBA ainda apontou que o TikTok Shop alcançou cerca de R$ 400 milhões em volume bruto de mercadorias em maio de 2026, equivalente a 4% a 7% do GMV de Mercado Livre e Shopee no Brasil, após apenas um ano de operação — com cosméticos e maquiagem entre as categorias mais expostas. A base de consultoras, 'cada vez mais integrada ao ambiente omnichannel', tem mais opções para redirecionar o consumo do que tinha no ciclo anterior.
O BTG Pactual foi explícito: 'O nível de disrupção visto no segundo trimestre levanta questões sobre execução e torna a recuperação da receita em 2026 mais desafiadora.' Para o banco, 'o caso de investimento está se tornando cada vez mais dependente da capacidade da Advent de trazer execução mais forte, renovar a gestão onde necessário e repensar a estratégia de canais de vendas.' Já o JPMorgan manteve overweight, mas destacou riscos de execução e ressaltou que a administração não esclareceu se os problemas do SAP foram resolvidos. Dois bancos, o mesmo diagnóstico de risco — e conclusões opostas sobre o que fazer com a ação.
Há um dado que o mercado usou para justificar a alta da ação: a Natura sinalizou expansão trimestral da margem EBITDA acima dos 7,3% do primeiro trimestre. O Morgan Stanley projetava expansão de 4,9 pontos percentuais ante o 1T26, com consenso em 6,4 pontos. Mas o BBA alertou que existe 'desalavancagem operacional' — a margem cresce parcialmente porque os custos fixos estão sendo cortados, não porque a receita está se recuperando. Uma margem melhor sobre uma receita menor pode ser sinal de eficiência genuína ou simplesmente o reflexo de um negócio encolhendo com menos desperdício — e o fato relevante não esclareceu qual dos dois está em curso.
10 de agosto: o balanço que separa recuperação de armadilha
O balanço completo do 2T26 será divulgado em 10 de agosto. Mas a data de publicação não é o sinal antecedente mais relevante. A variável que decide a tese antes dessa data é a VSO — velocidade de vendas sobre oferta — do canal de consultoras: se os produtos voltaram às prateleiras e as revendedoras retomaram produtividade, a VSO deve mostrar recuperação já nas semanas seguintes à normalização do SAP. Se a VSO continuar comprimida enquanto o Boticário mantém paridade de share, o problema é estrutural.
Há um contra-argumento real que precisa ser confrontado. O Bradesco BBI apontou que 'o ambiente de juros elevados aumenta a relevância do endividamento e pode continuar pressionando o resultado financeiro nos próximos trimestres.' A Natura ainda carrega nível de endividamento elevado. Se a receita demorar a recuperar e os juros permanecerem no patamar atual, o custo financeiro pode consumir os ganhos de eficiência operacional, tornando a expansão de margem EBITDA uma vitória parcial sem reflexo no lucro líquido.
Para quem já carrega NATU3, a postura racional é aguardar evidências concretas de estabilização das vendas antes de qualquer movimento: a pergunta específica a monitorar no balanço de 10 de agosto é se a administração confirma que a migração SAP foi concluída e que a produtividade das consultoras está em recuperação medível. Para quem observa de fora, a entrada justifica-se se — e somente se — o balanço de 10 de agosto confirmar resolução do SAP e a VSO das consultoras mostrar recuperação sequencial, sinalizando que a escassez foi operacional e não uma abertura de espaço permanente para o Boticário. Se o balanço trouxer receita em nova queda sequencial ou se a administração não confirmar resolução do SAP, o movimento de hoje foi técnico — um short squeeze que não refletiu mudança nos fundamentos.
- [neofeed.com.br] Os dois lados da moeda nos resultados preliminares da Natura - NeoFeed
- [infomoney.com.br] Natura (NATU3) perde confiança de bancos após piora da operação brasil…
- [clickpetroleoegas.com.br] Natura prevê queda de até 10% na receita após problemas de abastecimen…
- [infomoney.com.br] Por que a Natura sobe mais de 7% à espera de um balanço pior - pipelin…
- [oglobo.globo.com] Na Natura, falta de produtos (e de PIB) dá um baque em seu ‘exército’…
- [valor.globo.com] ‘Short squeeze’ explica valorização das ações da Natura - Valor Econôm…
- [moneytimes.com.br] Natura (NATU3): Bradesco BBI rebaixa ação com curto prazo difícil no h…
- [valor.globo.com] Natura prevê resultados piores que o previsto. E não há um único 'culp…
- [euqueroinvestir.com] Natura: entenda os 5 desafios da empresa agora - EuQueroInvestir