Nubank Lucro 66%|Custo que pode mudar a tese
O dia em que o petróleo subiu 6% e a bolsa quase não se moveu
O barril de petróleo Brent fechou a US$ 95,48 nesta segunda-feira, uma alta de 5,64% em um único pregão. O WTI avançou quase 6%. O Estreito de Ormuz voltou a ser fechado pelo Irã depois do fim de semana, os EUA apreenderam um navio iraniano e negociações de paz no Paquistão seguem sem confirmação de Teerã. Em tese, o cenário era de pânico nos mercados. O Ibovespa fechou em alta de 0,20%.
Apenas 0,20%. Com petróleo nas alturas e geopolítica no vermelho, o principal índice da bolsa brasileira encerrou praticamente no mesmo lugar em que abriu. O volume financeiro, de R$ 22,7 bilhões, ficou bem abaixo da média mensal de R$ 44 bilhões. Feriado no meio da semana esvaziou a sessão. Mas o número que ficou preso na cabeça de boa parte dos analistas não foi o Ibovespa aos 196 mil pontos. Foi o dólar abaixo de R$ 5 pelo quinto pregão seguido.
A XP traçou três cenários para a taxa de câmbio em 2026: no cenário-base, o real segue forte e o dólar encerra o ano perto de R$ 5,30 com viés de baixa. Enquanto isso, a Petrobras (PETR4) avançou 1,73% e a Prio (PRIO3), apontada pela XP como a petroleira mais exposta diretamente ao preço do barril, ganhou ainda mais tração. O Barclays, porém, rebaixou a Vale (VALE3) de compra para neutra: após alta de 25% no ano, o desconto histórico em relação às mineradoras australianas encolheu para 10%, o menor desde 2020.
Em meio a esse cenário de bolsa subindo mas com motores concentrados, uma pergunta ganhou corpo entre os analistas de renda variável. O Nubank vai crescer mantendo eficiência?
66% de lucro e 70% de custo: a equação que o mercado quer ver resolvida
O Safra publicou um relatório colocando Nubank (ROXO34) e Banco Inter (INBR32) sob uma lente que vai além do lucro. Para o primeiro trimestre de 2026, os analistas projetam lucro líquido de US$ 926 milhões para o Nubank, uma alta de 66% sobre o mesmo período do ano anterior. Parece forte. E é. Mas há uma segunda linha no relatório que muda a leitura.
As despesas operacionais do Nubank devem crescer mais de 70% na comparação anual. Ao mesmo tempo, a inadimplência acima de 90 dias deve subir 18 pontos-base, para 6,8%. Isso não é necessariamente catástrofe — o Safra ainda classifica parte desse movimento como sazonalidade, o comportamento esperado para um início de ano em que famílias chegam pressionadas pelo fim de dezembro. O problema é que há sinais de que a deterioração pode ser mais disseminada do que o calendário justifica.
"O início de 2026 pode marcar um teste importante para o setor. Se a piora dos indicadores ficar restrita à sazonalidade, a tese de crescimento tende a permanecer de pé. Se houver sinais de deterioração mais estrutural, o mercado deve revisar expectativas", escreveu o banco.
É aqui que a lógica vira. O Nubank cresceu a carteira de crédito estimada em 6,3% no trimestre. Cresceu receita. Cresceu lucro. Mas cresceu também o custo de sustentar esse crescimento em três frentes simultâneas: expansão geográfica, novos produtos e remuneração de equipes cada vez maiores. A pergunta que o mercado não conseguia responder até agora era simples — o Nubank consegue crescer mantendo eficiência? Antes, o crescimento em si era a resposta. Agora, ela precisa vir acompanhada de uma segunda prova.
O Banco Inter apresenta um cenário diferente e, de certa forma, mais transparente na sua cautela. O Safra projeta lucro de R$ 394 milhões no 1T26, com retorno sobre patrimônio líquido de 15,4%. A carteira de crédito total deve crescer 33% em 12 meses — mas desacelera em relação aos 36% do fim de 2025. No cartão de crédito, o ritmo cai de 29% para 23%. O Inter está crescendo menos, mas com mais seleção. A inadimplência do Inter já estava acima da dos pares no quarto trimestre de 2025, o que eleva a pressão agora.
Há um contraponto: as despesas totais do Inter devem cair na comparação trimestral. A eficiência melhora. O banco joga mais defensivo. A dúvida é se jogar defensivo vai ser suficiente quando o mercado está cobrando crescimento.
Esse contraste entre os dois bancos digitais revela uma tensão que não estava visível até o começo deste ano. Quando os dois cresciam aceleradamente e a inadimplência era controlada, bastava comparar lucros. Agora o setor entrou em uma fase de diferenciação. Quem cresce de forma sustentável e quem cresceu rápido demais?
O que os balanços vão confirmar — e o que pode mudar a tese
O Nubank divulga resultados no dia 14 de maio. O Inter, no dia 7 de maio. São duas datas próximas, o que vai criar uma janela de comparação direta que o mercado não teve nos últimos trimestres. Os números vão responder se a inadimplência subiu por sazonalidade ou por algo mais permanente. E vão revelar se o custo operacional em alta convive com retorno crescente — ou se começa a pressionar a margem.
Olhando para o histórico dos bancos digitais brasileiros, há um padrão bem documentado. Nos ciclos de expansão acelerada de crédito, os primeiros sinais de stress aparecem justamente nos trimestres em que o crescimento desacelera pela primeira vez. Não porque o banco ficou mal administrado, mas porque a carteira maturou ao mesmo tempo que a taxa de juros permanecia elevada. A Selic hoje segue em patamares altos. O custo de captação não caiu. E a inadimplência tem janela aberta para subir antes que os cortes de juros façam efeito — se é que eles vêm no ritmo esperado.
Se os resultados do 1T26 mostrarem inadimplência dentro do esperado e despesas em linha com a receita, a tese dos bancos digitais se mantém. O crescimento segue sendo a narrativa central, e o mercado vai continuar disposto a pagar múltiplo elevado. Se os números mostrarem piora além do sazonal — especialmente no Inter, que já vinha com inadimplência acima dos pares — o mercado pode entrar em modo de revisão de estimativas para todo o setor.
A taxa de eficiência do Inter no trimestre é o indicador mais concreto a observar. Se ela melhorar mesmo com a desaceleração de crescimento, o banco prova que sabe crescer menos sem piorar a operação. Se a eficiência piorar junto com a desaceleração, o banco perdeu a vantagem dos dois lados.
As evidências hoje apontam para um cenário mais benigno do que catastrófico — a sazonalidade explica parte do movimento, e o mercado já tem isso precificado. Mas essa leitura depende de uma condição: que a piora da inadimplência não ultrapasse 90 dias de forma sistemática nas carteiras de cartão e crédito pessoal. Se o custo de risco subir além do projetado nos balanços de maio, o setor vai precisar de um novo argumento. O atual já não vai bastar.