Operação Juros Zero ação na Nasdaq no mesmo dia|PicPay PICS cai 4% enquanto XP recomenda compra com 60%

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Dois choques em um dia — e o mercado ainda está decidindo o que precificar

O PicPay foi alvo nesta sexta-feira de duas ações simultâneas que, isoladas, já seriam materiais — juntas, redefinem o risco da ação. No Brasil, o Ministério Público do Distrito Federal deflagrou a Operação Juros Zero, cumprindo 50 mandados de busca e apreensão em Brasília, São Paulo e Curitiba. A Justiça bloqueou quase R$ 90 milhões em contas da fintech e da Associação dos Servidores do DF. Nos Estados Unidos, o fundo FirstFire Global Opportunities entrou com ação coletiva na Nasdaq, alegando que o PicPay omitiu informações relevantes no prospecto do IPO realizado em janeiro. A ação PICS recuou 4,46% no dia, cotada a US$ 10,50 — menos de seis meses após a oferta pública a US$ 19, o topo da faixa. O mercado já havia derrubado o papel mais de 40% desde o IPO; agora enfrenta um choque de natureza diferente. Até hoje, o que pressionava PICS era operacional: inadimplência crescente, NPL 90+ em 8,9% no 1T26. O que a Operação Juros Zero introduz é distinto — não é uma métrica de crédito deteriorando, é uma contestação sobre se o modelo que gerou o crescimento era legal. E é exatamente nesse ponto que a tese dos analistas que recomendam compra encontra sua contradição mais incômoda.

O ativo que a XP chama de diferencial competitivo é o mesmo que o MP chama de esquema

Dois dias antes da operação, a XP Investimentos iniciou cobertura do PicPay com recomendação de compra e preço-alvo de US$ 18 — potencial de alta de 64% sobre os níveis de então. O argumento central da casa era o acesso da fintech a dados transacionais de seus 44 milhões de usuários ativos. A tese: quanto mais o usuário interage com o app, mais dados o PicPay acumula, mais preciso fica o modelo de crédito, menor a inadimplência tende a ser a prazo. O Citi compartilhou leitura semelhante ao avaliar o 1T26 — a piora no NPL seria técnica, reflexo da maturação da carteira, não de deterioração estrutural nas concessões. O BTG Pactual discordou: "pode ser difícil ver uma reprecificação significativa até que o mercado tenha maior visibilidade sobre a estabilização dos NPLs." Dois lados, mesmos dados, conclusões opostas — e ambos ignoravam o que viria. A investigação do MPDFT revela que o acesso diferenciado do PicPay não era apenas tecnológico. A fintech obteve o direito exclusivo de operar a antecipação salarial dos servidores do GDF a partir de um decreto distrital de agosto de 2024. Seis dias após o decreto, o PicPay formalizou o interesse na operação. O governo do DF autorizou a empresa a colocar funcionários nas portarias do Palácio do Buriti para abordar servidores. O TCDF identificou depois que a "taxa de antecipação" cobrada pela fintech tinha natureza econômica de juros — variando de 2,99% a 7,55% para períodos inferiores a 30 dias, equivalente a taxas efetivas anuais acima de 261%. Entre 2024 e agosto de 2025, R$ 81,7 milhões foram descontados compulsoriamente dos contracheques. O ponto que os analistas não estavam precificando: o acesso privilegiado à folha de servidores, que parecia um diferencial competitivo, era também um canal regulatório com regras específicas — e as investigações apontam que essas regras foram violadas. Se a tese de crescimento do PicPay dependia de expandir esse modelo de acesso institucional, o risco hoje não é só reputacional. É estrutural.

A ação na Nasdaq introduz um frame que os modelos de crédito não capturam

A ação coletiva do fundo FirstFire muda o plano de análise de uma forma que a discussão sobre NPL não alcança. A alegação é que o PicPay omitiu no prospecto do IPO informações sobre deficiências nos seus modelos de crédito — especificamente que, em dezembro de 2025, a empresa já havia identificado que os modelos precisavam ser reforçados. Se confirmada, a omissão não é um erro operacional: é uma questão de disclosure regulatório perante a SEC. Investigações dessa natureza, quando prosperam, impõem um desconto de governança que se separa completamente da discussão sobre inadimplência. O BTG avaliava PICS a 7,8 vezes o lucro projetado para 2026, múltiplo "pouco exigente" que sustentava a recomendação de compra mesmo com NPL pressionado. Mas valuations baseados em múltiplos de lucro não capturam litígios de disclosure — esses riscos entram como passivos contingentes que não aparecem no denominador da equação. O Eduardo Chedid Simões, diretor do PicPay alvo da operação hoje, já havia sido indiciado pela CPMI dos Descontos Indevidos do INSS antes desta investigação. Isso significa que o risco jurídico da companhia não é novo — mas o mercado o tratava como ruído de fundo, não como variável central. O que mudou hoje: os dois eventos simultâneos elevaram o risco jurídico de fundo para primeiro plano. Holder que entrou no IPO a US$ 19 está com -45%. Holder que entrou após a queda de 40% ainda enfrenta uma equação diferente — e agora com dois processos abertos que mudam o denominador do risco.

O que observar antes de agir — e por que o NPL não é mais o indicador principal

A narrativa dominante até ontem era: aguardar estabilização do NPL 90+ para decidir sobre PICS. A Operação Juros Zero e a ação coletiva na Nasdaq deslocam essa variável. O indicador que passa a decidir a equação não é o NPL do próximo trimestre — é a resposta do Banco Central sobre a supervisão da instituição. O BC até agora não se manifestou sobre os desdobramentos da operação desta sexta. Uma intervenção regulatória direta — nota ou abertura de processo administrativo — seria o sinal de alerta concreto para quem ainda mantém posição. O PicPay tem 68 milhões de clientes e R$ 28 bilhões em carteira de crédito: o BC só age com risco sistêmico, e a investigação pontual de hoje não chega a esse limiar. Mas a cadeia de exposições acumuladas — Operação Juros Zero, CPMI do INSS com o diretor indiciado, ação coletiva Nasdaq — forma um padrão de risco jurídico que transforma a questão de "quando o NPL estabiliza" em "qual é o passivo contingente real". Para quem não detém o papel: o upside de 64% da XP foi calculado antes dos eventos de hoje. A tese não cai automaticamente — mas precisa ser recalibrada com a variável de governança agora explícita. A entrada só faz sentido após posicionamento público do BC e do resultado da primeira fase do inquérito. Para quem já detém: o gatilho de saída não é a queda de hoje, mas a evolução da investigação nos próximos 30 a 60 dias. Se o BC abrir processo administrativo ou se houver prisões na fase seguinte, o frame muda de "risco precificado" para "intervenção em andamento". A Operação Juros Zero bloqueou R$ 90 milhões — valor expressivo, mas menor que o capital de giro de uma fintech com R$ 28 bi em carteira. O que determina a trajetória da ação não é esse bloqueio; é se o modelo de acesso a dados institucionais que sustenta a tese de crescimento sobrevive ao escrutínio judicial.

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