Pauta-bomba R140bi no Senado|BofA corta Brasil, Selic travada em 14,25%
Bomba fiscal de R$140bi
O Senado aprovou ontem o projeto que cria uma linha de crédito de R$140 bilhões para renegociação de dívidas rurais — e o ministro da Fazenda ligou para o presidente do Senado durante a sessão pedindo que a matéria fosse retirada da pauta. Alcolumbre negou. O ponto que o mercado ainda não precificou completamente é este: a aprovação não foi uma surpresa política isolada, foi a terceira derrota da equipe econômica em semanas consecutivas, num padrão que o BofA citou diretamente ao cortar o Brasil de overweight para neutro na véspera.
VALE3 e ITUB4 caíram junto com o índice porque o fiscal e os juros são a mesma variável para esses papéis. Quando o Senado aprova R$140 bilhões fora do arcabouço, o Banco Central não tem espaço para cortar — e bancos e commodities exportadoras precificam crescimento, não estagnação com Selic em 14,25%.
O BofA elevou sua projeção da Selic de 13,25% para 14,25% ao fim de 2026, o que implica apenas mais um corte em junho seguido de pausa prolongada. O documento cita explicitamente a "pressão contínua de pacotes parafiscais com óbvio intuito eleitoral" como fator que torna a vida do Banco Central muito difícil. O que isso significa para o fluxo é direto: estrangeiros que voltaram ao Brasil no primeiro trimestre esperando um ciclo de cortes agora recalibram a saída — não o tamanho da posição, mas a velocidade do resgate.
O Ibovespa fechou abaixo dos 169 mil pontos, renovando mínima desde janeiro. O volume financeiro somou R$26,1 bilhões, acima da média recente, o que indica que o movimento não foi liquidez escassa — foi direcionado. A dúvida que o fiscal não resolve é de onde virá o próximo catalisador de compra nesse ambiente, e a resposta a essa pergunta não está no Congresso.
Verde zera real, estrangeiro sai
A razão pela qual o fluxo estrangeiro não sustentou a bolsa mesmo com o Ibovespa em valuation historicamente descontado está na carta da Verde Asset: a gestora de Stuhlberger zerou toda a posição em real em maio após identificar o retorno do "excepcionalismo americano" como tema macro dominante. Esse movimento não é micro — é estrutural. Quando um dos maiores fundos multimercado do Brasil sai do real, ele sinaliza para a classe institucional doméstica que a assimetria de risco mudou de sinal.
O mecanismo é o seguinte: a resiliência da economia americana, a perspectiva de juros mais altos por mais tempo pelo Fed e o avanço da inteligência artificial tornaram os ativos americanos relativamente mais atrativos precisamente no momento em que o Brasil aprovava R$140 bilhões em gastos fora do orçamento. Capital que havia entrado no Brasil no primeiro trimestre em busca de diversificação começou a sair — não em pânico, mas em rotação sistemática.
O Ibovespa caiu 7,22% em maio sozinho. A Verde manteve exposição em ações brasileiras via estruturas de convexidade — ou seja, comprou proteção contra movimentos bruscos, não ações diretamente. Isso significa que o posicionamento mais sofisticado no mercado doméstico está hedgeado, não comprado. Quem está carregando a posição longa sem hedge é o investidor de varejo que entrou no ciclo de queda acreditando no valuation barato.
O CPI americano divulgado ontem veio em 4,2% ao ano até maio, em linha com o esperado, mas ainda no maior patamar desde abril de 2023. O Fed não tem espaço para cortar. Isso mantém o dólar forte globalmente — e moedas emergentes como o real perdem espaço nesse cenário, como a Verde descreveu com precisão. O real fechou em R$5,17 ontem, e o canal do câmbio começa a pressionar o IPCA antes mesmo do efeito fiscal da pauta-bomba rural chegar ao consumidor.
Irã, petróleo e o que só o tempo resolve
Trump afirmou ontem que os EUA atacarão o Irã "com muita força" caso nenhum acordo seja alcançado, em resposta à derrubada de um helicóptero Apache pelas forças iranianas no Estreito de Ormuz. O petróleo Brent subiu 1,8%, para US$93,10 — e este foi o único elemento que impediu o Ibovespa de cair mais do que 0,7%, porque as ações da Petrobras subiram com o petróleo e amorteceram o índice.
O paradoxo geopolítico atual é que o Oriente Médio ao mesmo tempo pressiona o Ibovespa para baixo via aversão a risco global e sustenta o índice via Petrobras. Mas a Verde já zerou sua posição em petróleo: a gestora identificou que China reduziu importações de petróleo ao menor nível em mais de oito anos, que rotas alternativas ao Estreito de Ormuz estão operando e que estoques estratégicos foram consumidos — três fatores que explicam por que um conflito sem resolução não produziu uma crise energética global ainda.
O que a geopolítica faz no contexto atual é criar ruído sobre o sinal fiscal. Se a tensão com o Irã arrefecer nos próximos pregões, o mercado voltará o foco integralmente para o fiscal doméstico — R$140 bilhões aprovados sem consenso com a Fazenda, governo avaliando veto ou STF, e o BofA projetando Selic em 14,25% sem cortes adicionais após junho.
A leitura dominante é que o capital estrangeiro permanece em saída enquanto o padrão de aprovações fiscais no Congresso não reverter. O fluxo cambial de junho até o dia 5 ainda era positivo em US$2,5 bilhões segundo o BC — mas esse dado é anterior às últimas aprovações do Senado. A verificação é a próxima leitura semanal de fluxo cambial, que chegará com os efeitos da pauta-bomba rural já contabilizados. Se o fluxo virar negativo em junho, o canal do câmbio passa a trabalhar contra o IPCA e contra a Selic — e o único corte projetado pelo BofA para junho se torna o piso, não o ponto de partida.
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