Payroll Forte, Petrobras Fraca|O que separa Wall Street do Ibovespa?
Divergência Global
Na sexta-feira, o S&P 500 e o Nasdaq bateram recordes históricos. No mesmo dia, a Petrobras encerrou sua pior semana em mais de dois anos. Isso não é uma contradição aleatória — é o mesmo evento visto de ângulos opostos.
O payroll de abril veio em 115 mil vagas criadas, quase o dobro das 62 mil esperadas pelo mercado. O desemprego americano ficou estável em 4,3%. Para Wall Street, esse dado eliminou o risco de recessão iminente e sustentou o otimismo sobre lucros corporativos — especialmente em tecnologia, onde Micron e Sandisk subiram 13% no dia. O Nasdaq fechou a semana com alta de 4%.
Para o Brasil, o raciocínio foi diferente. Um mercado de trabalho americano resiliente significa que o Federal Reserve não tem espaço para cortar juros. A ferramenta FedWatch do CME Group não projeta nenhum corte até o fim de 2027. Isso mantém o dólar sob pressão — o que no Brasil criou um paradoxo: o real se valorizou, o dólar caiu abaixo de R$ 4,90 pela primeira vez desde janeiro de 2024. Mas o Ibovespa acumulou queda de 1,71% na semana, mesmo com o exterior positivo.
A chave para entender essa divergência está no petróleo — e no que ele significa para a principal empresa da bolsa brasileira.
Petrobras no Olho do Furacão
O petróleo Brent saiu de US$ 118 o barril para cerca de US$ 100 em uma única semana — uma queda de quase 15%. Para a Petrobras, que vinha batendo recordes de valor de mercado desde o início da guerra no Irã em fevereiro, esse movimento foi um choque direto.
A causa foi geopolítica, mas operou por um mecanismo específico. O otimismo com as negociações de paz entre Estados Unidos e Irã reduziu o prêmio de risco embutido no petróleo. Trump anunciou um cessar-fogo de três dias entre Rússia e Ucrânia para o período de 9 a 11 de maio. O secretário de Estado Marco Rubio disse aguardar resposta do Irã ainda na sexta-feira. Cada sinalização de distensão geopolítica retirou mais um dólar do barril — e mais valor de mercado da estatal brasileira.
O resultado: PETR4 caiu 6,95% na semana e PETR3 recuou 8,44%, a terceira maior baixa do Ibovespa no período. Desde o pico histórico de R$ 680 bilhões em valor de mercado em 14 de abril, a Petrobras perdeu cerca de R$ 58 bilhões em capitalização.
Como sinal de que o fundamento operacional permanece intacto, a refinaria Abreu e Lima bateu recorde de produção de diesel em abril, com 385 milhões de litros — 60% acima do mesmo período de 2025. O BTG Pactual manteve recomendação de compra para PETR4 com preço-alvo de R$ 62. O balanço do 1T26 será divulgado na segunda-feira (11) após o fechamento.
Se o Brent se estabilizar acima de US$ 100 e as negociações com o Irã fracassarem, a Petrobras tem espaço para recuperar boa parte da queda. Se o acordo se consolidar e o barril ceder abaixo de US$ 95, a pressão continua. O ponto de inflexão está no texto do acordo — não apenas na declaração de Trump.
Balanços em Conflito
Enquanto o petróleo ditava o tom da semana, a temporada de resultados do primeiro trimestre adicionou uma segunda camada de volatilidade — com sinais opostos dependendo do setor.
A Embraer registrou receita líquida recorde de R$ 7,5 bilhões no 1T26, alta de 18% na comparação anual. As entregas cresceram 47%, para 44 aeronaves. A carteira de pedidos atingiu recorde histórico de US$ 32,1 bilhões. Mesmo assim, as ações caíram 11,45% no dia — a pior queda em três anos. O motivo foi o lucro líquido, que recuou 51,7% para R$ 145 milhões, frustando expectativas que já eram altas após trimestres consecutivos acima do projetado. O BTG Pactual e o Itaú BBA mantiveram recomendação de compra, argumentando que a tese de crescimento de dois dígitos permanece intacta. O CEO Francisco Gomes Neto afirmou que não há impacto direto da guerra sobre pedidos ou entregas — e que o modelo E2, mais eficiente em combustível, ganha atratividade justamente num ambiente de petróleo caro.
No e-commerce, o contraste foi ainda mais revelador. O Mercado Livre cresceu 38% em vendas no Brasil, com número de itens vendidos subindo 56% na comparação anual. Ainda assim, as ações caíram 12,7% na Nasdaq. O lucro operacional recuou 20% e a margem operacional foi de 12,9% para 6,9%. A empresa escolheu sacrificar rentabilidade para ganhar mercado — e os investidores voltaram a punir essa escolha. O Magazine Luiza fez o oposto: preservou margens, mas perdeu R$ 1,2 bilhão em vendas online na comparação anual. As ações caíram 9,95% no dia e acumulam queda de quase 20% em 2026.
O que une Embraer, Mercado Livre e Magalu é o mesmo dilema: crescimento versus rentabilidade, em um ambiente de juros altos e concorrência intensa. Para a Embraer, o mercado penalizou uma decepção pontual sobre uma base de expectativas alta — e o guidance de 2026 foi mantido. Para o Mercado Livre, o debate central é quando as margens param de cair. O BTG projeta inflexão no segundo semestre. Se o Brent permanecer acima de US$ 100 e o real continuar valorizado, o custo de importações cai para varejistas — mas a Petrobras segue pressionada. São forças que se alimentam de lados opostos do mesmo mercado. O Ibovespa na segunda-feira abrirá com o balanço da Petrobras como primeiro teste real do trimestre.