Petróleo a US 108 e Copom|Juro real recorde e real abaixo de R 5
Ormuz e o Copom
O petróleo Brent ultrapassou US$ 108 no mesmo dia em que o dólar fechou abaixo de R$ 5. Para quem acompanha mercados, essa combinação não faz sentido à primeira vista — petróleo caro deveria pressionar a inflação, elevar o risco e enfraquecer moedas emergentes. Mas não é o que está acontecendo com o real.
O impasse entre Washington e Teerã no Estreito de Ormuz segue sem resolução. Donald Trump cancelou o encontro com representantes iranianos no Paquistão no fim de semana, citando "confusão interna" na liderança iraniana. A Guarda Revolucionária abordou dois navios próximos ao Estreito. O Goldman Sachs revisou sua projeção para o Brent: agora espera US$ 90 por barril até o fim de 2026 como piso — ante US$ 80 antes — porque a normalização das exportações foi adiada para o final de junho. Os estoques globais estão sendo drenados entre 11 e 12 milhões de barris por dia em abril.
Para o Brasil, esse choque tem dois lados opostos. De um lado, o petróleo caro alimenta a inflação de energia e de fertilizantes, o que pressionou o IPCA projetado para 2026 pela sétima semana seguida, agora em 4,86%. De outro, o Brasil é exportador líquido de petróleo e commodities agrícolas — e isso transforma o mesmo choque em fluxo de dólares, sustentando o real.
O mercado precifica 86% de probabilidade de corte de 25 pontos-base na Selic nesta quarta-feira, de 14,75% para 14,50%. Mas o UBS Wealth Management alertou que, com inflação já acima do previsto e as expectativas reagindo ao choque do petróleo, a margem para novos cortes em 2026 é menor do que se imaginava. Isso mantém o real atrativo no carry trade. Moedas como o dólar australiano, neozelandês e canadense andaram no mesmo sentido nesta segunda-feira — sinal de que o movimento é global, não apenas local.
A curva de DI reagiu: a taxa do DI para janeiro de 2029 avançou 14 pontos-base, para 13,615%. O Tesouro IPCA+ 2050 subiu 7 pontos-base, para 6,96% ao ano. O prêmio de risco inflacionário já está sendo cobrado nos vencimentos longos — e o Copom, ao sinalizar cautela, dá ao real uma proteção que os demais emergentes não têm.
Embraer e Usiminas
Enquanto o petróleo domina o noticiário macroeconômico, dois setores da bolsa brasileira contam histórias estruturalmente diferentes — e ambas foram confirmadas hoje com números.
A Embraer registrou carteira de pedidos de US$ 32,1 bilhões no primeiro trimestre de 2026, sexto recorde consecutivo. As entregas cresceram 47% em relação ao mesmo período de 2025. A aviação comercial, com backlog de US$ 15 bilhões, avançou 50% na comparação anual. A Finnair encomendou até 46 aeronaves E195-E2, reforçando a presença da empresa no mercado europeu. O BTG Pactual afirmou que a combinação de backlog recorde, pedidos sólidos e entregas acima do projetado reduz o risco da ação no cenário de incerteza geopolítica atual.
A Usiminas conta uma história diferente, igualmente estrutural. As ações subiram 6,83% nesta segunda-feira e acumulam 36% no ano. O balanço do primeiro trimestre veio acima do esperado, mas o catalisador mais relevante veio de fora: o governo impôs tarifas antidumping sobre aços laminados a frio chineses em fevereiro, retirando entre 15% e 20% da oferta doméstica do mercado. O UBS BB elevou o preço-alvo de R$ 9 para R$ 10 e manteve recomendação de compra, estimando potencial de valorização superior a 30%. Os analistas projetam que os preços do aço plano devem subir entre US$ 100 e US$ 200 por tonelada nos próximos meses.
A empresa já aplicou reajuste de 5% em abril na rede de distribuição. Novas rodadas estão previstas para maio e junho. O UBS BB revisou as estimativas de Ebitda em 10% a 15% para 2026 e 2027 — e ainda vê o mercado precificando margens entre 10% e 11%, abaixo do que os analistas projetam para 2027. Esse gap é o argumento central para a tese de revalorização.
A conexão com o cenário macro existe: Embraer e Usiminas dependem de demanda industrial global que segue robusta, apesar das tensões no Oriente Médio. A Usiminas em particular beneficia-se do redirecionamento do fluxo comercial que a guerra provocou — o aço que deixou de chegar da China via Ormuz foi substituído por produção local com preços mais altos.
JBS, Nubank e o Ibovespa
O Ibovespa fechou em queda pelo quarto pregão seguido, aos 189.578 pontos, abaixo dos 190 mil. O volume financeiro foi de R$ 20,6 bilhões, contra uma média de R$ 39,5 bilhões no mês — sinal de que o capital estrangeiro, que entrou R$ 14,6 bilhões até o dia 15 de abril e levou o índice perto dos 200 mil pontos, passou a sair líquido nas últimas sessões.
Dois eventos pontuais concentraram as perdas. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, confirmou que o Desenrola 2.0 permitirá que trabalhadores usem parte do saldo do FGTS para quitar dívidas. O FGTS é a principal fonte de financiamento do setor imobiliário — e o mercado reagiu imediatamente. A Cury caiu 7,76%, e o índice setorial de imóveis e shoppings recuou 3,61%. O raciocínio é direto: menos FGTS disponível para financiamento hipotecário significa menos crédito para compra de imóveis, comprimindo as margens das construtoras.
A JBS acrescentou outra camada de pressão. O conselheiro econômico da Casa Branca, Peter Navarro, declarou à Fox Business que JBS, Cargill, Tyson e National Beef — subsidiária da Marfrig — operam como cartel no mercado americano de carnes. O Departamento de Justiça dos EUA havia aberto investigação em novembro de 2025. O BDR da JBS recuou 2% na B3. O BofA, que mantém JBS como sua favorita no setor, projeta Ebitda de US$ 1 bilhão para o trimestre — queda de 23,5% — e reitera compra com foco no rendimento de dividendos de 6,7% estimado para o período 2026-2029.
O Nubank anunciou investimentos de R$ 45 bilhões no Brasil em 2026, mais que o dobro do anunciado nos dois anos anteriores. São 113 milhões de clientes no país — mais de 60% da população adulta. O Safra, porém, apontou que o primeiro trimestre costuma trazer pressão adicional sobre inadimplência, e desta vez há sinais de deterioração mais disseminada nos atrasos dentro do sistema financeiro. O banco alertou: lucro isolado já não basta para sustentar a tese — o próximo resultado trimestral será o teste.
A síntese do dia aponta para um mercado que está precificando riscos simultâneos em direções opostas. O petróleo alto sustenta o real e beneficia exportadoras, mas corrói expectativas de inflação e limita o espaço do Copom. As melhores teses individuais — Embraer e Usiminas — estão descoladas do movimento geral do Ibovespa. Se o Copom confirmar o corte de 25 pontos-base na quarta-feira com comunicado cauteloso, o diferencial de juros se mantém e o real preserva sua proteção. O que inverteria esse quadro seria um avanço diplomático real no Estreito de Ormuz: petróleo em queda levaria o real para cima, mas aliviaria a inflação e abriria espaço para cortes mais agressivos — retirando parte do carry que hoje sustenta o fluxo estrangeiro. O ponto de verificação é quarta-feira: o comunicado do Copom e a declaração de Trump sobre a proposta iraniana podem definir os próximos quinze dias.