Petróleo a US118 e Fed Dividido|Ibovespa em Queda Livre
Guerra no Irã e o Petróleo
O petróleo Brent saltou 6% em um único pregão e chegou a US$ 118 por barril — o nível mais alto desde o início da guerra entre Estados Unidos e Irã. Ao mesmo tempo, o Ibovespa fechou no pior nível em um mês, abaixo dos 185 mil pontos, com queda de 2,05%. Um ativo sobe verticalmente enquanto o principal índice da bolsa despenca. A aparente contradição tem uma explicação direta: o mesmo conflito que valoriza o petróleo pressiona custos de frete, diesel e logística das maiores empresas do Brasil.
Donald Trump declarou que o bloqueio naval ao Irã continuará indefinidamente, rejeitando propostas de reabertura do Estreito de Ormuz. A cada dia de bloqueio, o custo do frete marítimo global sobe. A Vale foi o exemplo mais claro: o custo por tonelada de minério de ferro transportado até o cliente final aumentou em US$ 5, enquanto para produtores de alto custo o impacto chegou a US$ 10. O CFO da mineradora, Marcelo Bacci, admitiu que, se o petróleo permanecer nos níveis atuais, a empresa entregará seus custos no topo do guidance — mas ainda dentro dele.
Os papéis da Vale caíram 5,87%, para R$ 79,44, liderando as perdas do Ibovespa. O lucro do primeiro trimestre subiu 36% na comparação anual e chegou a US$ 1,89 bilhão — números que, em outro contexto, seriam comemorados. O problema foi o Ebitda ajustado de US$ 3,9 bilhões, 3% abaixo do consenso, com custos da mina ao porto subindo 12% na base anual, pressionados pela valorização do real e por rotatividade de equipes. A empresa paralisou antecipadamente a planta de pelotas em Omã, diante das restrições no Estreito de Ormuz, mas garantiu que sua capacidade ociosa no Brasil supre a demanda. O JPMorgan recomendou compra na baixa. O Bradesco BBI classificou a queda como exagerada. Ainda assim, o mercado vendeu.
A Petrobras foi o contrapeso. Com o barril nas alturas, PETR4 subiu 3,03%, sendo uma das poucas âncoras positivas do pregão. Mas o peso da Vale no Ibovespa — cerca de 11,4% da carteira — neutralizou qualquer alívio. A guerra no Irã, ao pressionar simultaneamente os custos das mineradoras e impulsionar as petrolíferas, está reposicionando os setores da bolsa em tempo real.
Fed Dividido e o Copom
Jerome Powell encerrou sua última reunião à frente do Federal Reserve sem entregar a mensagem que o mercado queria ouvir. Os juros foram mantidos na faixa de 3,50% a 3,75% pela terceira vez consecutiva — e essa decisão, que já era esperada, não foi o problema. O problema foi a divisão interna mais profunda do Fed desde outubro de 1992.
Quatro membros do comitê registraram dissidência. Stephen Miran votou por um corte imediato de 0,25 ponto percentual. Outros três — Beth Hammack, Neel Kashkari e Lorie Logan — concordaram com a manutenção, mas se recusaram a assinar a sinalização de um possível afrouxamento futuro no comunicado. Em termos práticos, isso significa que o Fed está mandando dois sinais contraditórios ao mesmo tempo: um membro quer cortar já, enquanto três querem remover até a promessa de cortar no futuro. Para o mercado, a mensagem foi lida como hawkish — juros mais altos por mais tempo.
A ferramenta FedWatch do CME Group registrou queda imediata nas apostas de corte. Pela manhã, 88,7% dos contratos futuros precificavam algum afrouxamento ainda em 2026. Após a decisão e a coletiva de Powell, essa probabilidade caiu e as apostas se deslocaram para dezembro de 2027. Powell reconheceu que a convergência da inflação à meta está mais lenta do que o esperado, e apontou a guerra no Oriente Médio como fator adicional de incerteza.
No Brasil, o Copom cortou a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,5% ao ano, dentro do esperado por mais de 95% do mercado. Mas a decisão doméstica foi ofuscada pelo tom do Fed. As taxas dos DIs avançaram ao longo do dia: o contrato para janeiro de 2028 fechou em 13,985%, ante 13,743% na sessão anterior, sinalizando que os investidores estão revendo para cima a Selic terminal. O dólar fechou a R$ 5,0018, com alta de 0,39%, mesmo com o petróleo em disparada — uma situação que normalmente favoreceria o real.
A transição de comando no Fed adiciona uma camada de incerteza. Kevin Warsh, indicado por Trump para substituir Powell, passou pelo Comitê Bancário do Senado nesta quarta-feira. Warsh terá que liderar um conselho profundamente dividido, em um ambiente de inflação resistente e guerra geopolítica sem prazo para terminar.
Bancos Pressionados
O Santander Brasil divulgou um resultado que o mercado já esperava com cautela — e mesmo assim decepcionou. O lucro líquido recorrente do primeiro trimestre foi de R$ 3,8 bilhões, queda de 1,9% na comparação anual e 7% em relação ao trimestre anterior, ficando 6% abaixo do consenso. O ROE recuou de 17,2% no trimestre anterior para 15,7%, o menor nível em anos. As ações SANB11 fecharam em queda de 2,65%.
O ponto mais crítico foi a inadimplência. O índice de créditos em atraso acima de 90 dias subiu 20 pontos-base no trimestre, para 3,3%, acumulando alta de 50 pontos-base em 12 meses. Pequenas e médias empresas foram as mais afetadas, com piora de 50 pontos-base. As provisões para perdas chegaram a R$ 6,3 bilhões, alta de 4% no trimestre. A margem financeira líquida — o ganho do banco com a diferença entre juros cobrados e pagos — caiu 1% na base anual, ainda pressionada pela linha de tesouraria, que permaneceu negativa em R$ 800 milhões.
O Goldman Sachs rebaixou o Banco do Brasil de neutro para venda, com preço-alvo reduzido de R$ 24 para R$ 21. A justificativa: a carteira rural do BB acumula uma deterioração acelerada, com o índice de inadimplência no crédito rural subindo 60 pontos-base entre dezembro e março. A alta nos custos de fertilizantes — impulsionada pelo conflito no Oriente Médio — sem aumento equivalente nos preços das commodities agrícolas, cria um risco adicional para os tomadores de crédito rural. O Goldman projeta provisões de R$ 64 bilhões em 2026 para o BB, 10% acima do teto do guidance da própria empresa. As ações BBAS3 recuaram 3,68%, para R$ 21,71.
A leitura que emerge dos três casos — Santander, Banco do Brasil e Vale — converge para um único ponto de pressão: o custo do petróleo está se espalhando pela cadeia produtiva brasileira. Para os bancos, via inadimplência do agro e das PMEs. Para as mineradoras, via frete e diesel. O Ibovespa caiu em seis pregões consecutivos e reverteu toda a alta de abril. O índice ainda acumula ganho de 14,66% no ano, mas a tendência de curto prazo aponta para baixo.
O cenário que determinará o próximo movimento é binário. Se as negociações entre EUA e Irã avançarem e o petróleo recuar para abaixo de US$ 90 — nível que a Vale usa como referência em seus futuros — o custo das empresas se normaliza, o Fed ganha espaço para sinalizar cortes e o Ibovespa pode retomar sua trajetória de alta. Se o bloqueio se prolongar, o petróleo permanecer acima de US$ 100 e a inflação americana resistir, a taxa terminal do Fed fica mais alta por mais tempo, o dólar se valoriza, e as expectativas de Selic no Brasil também sobem. O benchmark a observar nos próximos dias: o preço do barril Brent e qualquer sinal de reabertura das negociações entre Washington e Teerã.