Petróleo a US126 e Fed Paralisado|Cortes só em 2027?
Guerra, Petróleo e o Fed
O Federal Reserve manteve os juros entre 3,50% e 3,75% — e quatro de seus doze membros discordaram. Isso não acontecia desde 1992.
Não discordaram porque queriam cortar. Discordaram porque queriam sinalizar que o próximo movimento poderia ser uma alta.
O pano de fundo é o Estreito de Ormuz. Desde que o conflito entre EUA e Irã eclodiu em 28 de fevereiro, o barril de petróleo Brent subiu 58%, chegando a tocar US$125 na quinta-feira antes de recuar para US$114. Por Ormuz passa boa parte do petróleo mundial — e o bloqueio iraniano ainda não foi resolvido.
O efeito chegou direto aos preços ao consumidor nos Estados Unidos. O índice PCE, referência preferida do Fed para medir a inflação, subiu 4,5% no primeiro trimestre de 2026. Era 2,9% no trimestre anterior. Em apenas três meses, a aceleração foi de 1,6 ponto percentual.
Com isso, o mercado de derivativos jogou a previsão do próximo corte de juros americanos para o final de 2027 — quase quatro trimestres depois do que era esperado no início do ano.
O PIB dos EUA cresceu 2,0% no primeiro trimestre em ritmo anualizado, abaixo dos 2,3% esperados pelos analistas. O crescimento foi puxado por investimento em tecnologia e IA, mas o consumidor começou a sentir o peso da gasolina cara.
O presidente do Fed, Jerome Powell, descreveu a economia como "resiliente", mas admitiu que o centro do comitê está "migrando para um lugar mais neutro". Neutro significa que os juros podem subir tanto quanto cair.
Os três presidentes regionais que discordaram — Cleveland, Minneapolis e Dallas — não pediram uma alta imediata. Quiseram retirar do comunicado a linguagem que sinalizava viés de afrouxamento, deixando claro que a próxima movimentação está em aberto.
Para o grupo de análise da Bloomberg Economics, esse racha interno torna o trabalho do próximo presidente do Fed, Kevin Warsh, ainda mais difícil de entregar os cortes que o presidente Trump deseja.
Big Techs e os Recordes de Wall St
Enquanto o Fed estava paralisado, os mercados de ações renovavam máximas históricas. A contradição tem uma explicação precisa.
Os quatro maiores hypercalers — Microsoft, Amazon, Meta e Alphabet — divulgaram juntos mais de US$725 bilhões em investimentos previstos para 2026 em infraestrutura de IA. A cifra subiu de US$670 bilhões antes da temporada de balanços.
A Alphabet registrou crescimento de 63% em sua divisão de nuvem no primeiro trimestre e lucro por ação de US$5,11, contra US$2,63 esperados pelos analistas. As ações subiram quase 10% em Nova York. A Qualcomm superou estimativas e saltou 15%. A Amazon reportou o crescimento mais rápido do AWS em 15 trimestres, de 28%.
O S&P 500 avançou mais de 10% em abril — o melhor mês desde novembro de 2020. O Nasdaq subiu aproximadamente 15%, o maior ganho mensal desde abril de 2020.
Meta e Microsoft caíram, respectivamente 8% e 4%, porque seus gastos de capital ficaram abaixo do que o mercado queria ver. A leitura dos analistas do Swissquote foi direta: quem fornece infraestrutura de IA — chips, nuvem, servidores — está em posição diferente de quem depende de seu próprio ecossistema.
O rally das big techs chegou ao Brasil pela via do câmbio e do risco. O Ibovespa subiu 1,39% na última sessão de abril, voltando aos 187.317 pontos. O dólar caiu para R$4,95 — o menor nível em mais de dois anos — com queda de 4,36% no mês.
Vale recuperou as perdas da véspera e subiu 2,19%. Hapvida saltou 5,45% após a gestora Squadra eleger três membros no conselho de administração. Suzano liderou a ponta negativa, com queda de 2,18%, depois de reportar lucro líquido 32% menor no primeiro trimestre, com o real valorizado limitando os ganhos em dólar com a celulose.
Selic a 14,5% e a Armadilha dos Juros Longos
O Copom cortou a Selic de 14,75% para 14,50% em decisão unânime — e os juros longos subiram.
Essa inversão não é um paradoxo. É uma leitura precisa do comunicado.
O Banco Central incluiu pela primeira vez a palavra "extensão" ao lado de "ritmo". A mudança foi pequena em tamanho, grande em significado: o mercado entendeu que o BC pode parar de cortar antes do esperado, mesmo que mantenha o ritmo de 0,25 ponto por reunião.
O Tesouro Prefixado 2029 foi de 13,67% para 13,74% na mesma sessão em que a Selic caiu. O Prefixado 2032 subiu de 13,75% para 13,84%. O mercado está embutindo um prêmio de risco crescente para o médio prazo.
O IBGE confirmou desemprego de 6,1% no primeiro trimestre — o menor já registrado para o período. O mercado de trabalho segue aquecido mesmo com a Selic em 14,50%, o que dá ao BC mais espaço para cortar com cautela, mas também significa que a demanda não vai ceder rapidamente.
A projeção do Boletim Focus é de Selic a 13,00% no fim de 2026. O ASA, empresa de Alberto Safra, projeta 13,50%. O economista-chefe do Morgan Stanley vê caminho até 12%, desde que o Brasil se mantenha "protegido" das turbulências externas.
A dívida pública bruta subiu para 80,1% do PIB em março, acima dos 79,2% do mês anterior e do consenso de 79,6%. Esse número alimenta o prêmio de risco nos títulos longos e limita o apetite externo por ativos brasileiros, mesmo com o dólar em queda.
O peso conjunto dessas variáveis aponta para um ciclo de cortes mais curto do que o mercado precificava em janeiro. A guerra no Oriente Médio é o fator dominante: se o Brent permanecer acima de US$100 por meses, o PCE americano segue pressionado, o Fed não corta, e o diferencial de juros entre Brasil e EUA — hoje vantajoso para o real — começa a encolher.
Nesse cenário, o dólar voltaria a subir, a inflação brasileira seria pressionada pelas importações, e o Copom teria de encerrar o ciclo antes de chegar a 13%. A Selic pararia entre 13,5% e 14%.
O cenário alternativo existe. Se os EUA e o Irã chegarem a um acordo sobre Ormuz — que os americanos já estão construindo diplomaticamente com a "Coalizão de Liberdade Marítima" — o petróleo recua, o PCE desacelera, e o Fed volta a sinalizar cortes. Nesse caso, o Ibovespa teria vento a favor, o real manteria a valorização, e o Copom chegaria a 12,5%.
O benchmark a acompanhar é direto: o preço do Brent na primeira semana de maio, e qualquer declaração do Fed sobre a retirada ou manutenção do viés de afrouxamento. Se o barril voltar abaixo de US$100, a narrativa muda. Se ficar acima, a janela do Copom se fecha antes do esperado.